Política
A onda de assédio eleitoral contra pessoas que votaram em determinado partido político foi um dos assuntos que ganhou as redes sociais e as paginas de notícias nesta semana, no pós segundo turno das Eleições 2026.
No RN, alguns exemplos podem ser citados, de empresários bolsonaristas que disseram e ameaçaram não comprar produtos, contratar serviços e até demitir funcionários que votaram no Partido dos Trabalhadores (PT).
Caso envolvendo proprietário do Hot Dog do Negão
O empresário Victor Cunha, proprietário do Hot Dog do Negão, em Natal, publicou um vídeo, em seu perfil pessoal no Instagram, afirmado que funcionários petistas deveriam pedir demissão se o patrão fosse bolsonarista.
Durante as declarações iniciais, o proprietário também mencionou a intenção de substituir profissionais que atendiam à mulher, como a "Moça dos Cílios" e cancelar as aulas de reforço das filhas por causa de posicionamentos políticos. As falas geraram comentários nas redes sociais. Esse foi o caso de maior repercussão na onda dos boicotes aos petistas.
A empreendedora Lohana Maya, do @studiolohanamaia da Zona Norte de Natal, a "moça dos cílios", é a profissional citada pelo empresário dono da lanchonete em uma tentativa de boicote aos clientes e comerciantes petistas de Natal.
Apesar de ter declarado voto e ter comemorado o resultado das eleições em Lula, Lohana disse que todos os clientes são bem-vindos e o dinheiro não tem partido.
A resposta ao boicote do empresário foi uma onda contrária a esse tipo de intimidação, que levou a designer de cílios sair dois quase 3 mil seguidores para 41 mil pessoas que agora seguem o perfil de Lohana Maya, até o final desta última semana de outubro, como checado pelo portal BNEWS RN.
Após a repercussão negativa, o empresário gravou um vídeo na terça-feira (27) para se retratar de declarações sobre trabalhadores que votaram no PT.
Demissão
Em outra situação, uma empregada doméstica em Natal foi demitida após os empregadores descobrirem que ela votou no PT. O BNews RN, tentou contato com a mulher, mas diante da exposição do caso preferiu não dar entrevista, mas confirmou a saída do emprego.
Indignação com o resultados das eleições
Um outro caso, que gerou grande repercussão e diversos comentários negativos foi um pronunciamento do CEO do salão de beleza Hegley, localizado em Natal. Ele publicou stories alegando estar indignado com o resultado das eleições. Segundo o empresário, ele só aceitaria dialogar com pessoas que trabalha muito igual a ele, por se considerar um “empresário de futuro”.
"Imagina se as pessoas pensassem igual a ele. Não frequentariam o seu estabelecimento" disse um usuário no X.
"Esses empresários estão nessa que quem é de esquerda votou exclusivamente com o intuito de prejudicar e ataca-los? Os caras estão literalmente vindo esfregar na cara o quão ricos e poderosos eles são e apontando como os empregados estão lasc@dos, mas querem que votem para favorece-los?", questionou outro perfil.
O que dizem os cientistas e especialistas em política, sociologia e marketing?
Em entrevista ao portal BNews, um renomado cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fez um raio-x final das Eleições 2026, destacando o reconhecimento do resultado das urnas pelo TSE e diferentes classes da sociedade, alertando que o movimento contra esse resultado por grandes e pequenos empresários e o comportamento deles com tom de ameaças aos eleitores da esquerda são indefensáveis.
"O Tribunal Superior Eleitoral, que é dirigido inclusive por um aliado da família Bolsonaro, aliado do próprio Flávio Bolsonaro, que foi quem batalhou para indicar o ministro Cássio Nunes
Marques para o STF, e agora está na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral, reconheceu, que a eleição foi correta, foi tranquila, reconheceu a eleição do presidente, a reeleição do presidente Lula", com a palavra José Antônio Spinelli, pós-Doutor em Relações Internacionais, professor da UFRN e cientista político.
"As vozes mais lúcidas da oposição estão reconhecendo que são águas passadas", disse Spinelli, se referindo ao resultado das Eleições.
Sobre a onda de boicote aos petistas, o professor pontua:
"Essa atitude de alguns empresários discriminando eleitores do PT, eleitores de esquerda, é absolutamente indefensável e não é bom para eles, não é bom para eles próprios, que podem perder clientes e podem até ser submetidos a algum tipo de processo criminal", costurou José Spinelli.
Segundo as analises do cientista político, mesmo após se expor contra o posicionamento político de funcionários, clientes ou outros empresários, o melhor a se fazer é se retratar, deixar no passado o resultado e evitar processos jurídicos, já que o TSE é imparcial quanto ao resultado.
"Deve ser imparcial, é isso que se espera da justiça, particularmente da Suprema Corte, do Tribunal Superior Eleitoral e de outras instâncias de justiça. Então, essa atitude que esses empresários estão tomando, é absolutamente inaceitável. É bom que eles revejam essa posição, o mercado abriga todas as tendências, e portanto, se eles se colocam do lado de uma tendência apenas, se discriminam outra, eles podem perder, do ponto de vista do mercado, do ponto de vista, inclusive, jurídico", concluiu Spinelli.
O Presidente do Sindicato dos professores da UFRN, Oswaldo Negrão, fez críticas ao movimento de certos empresários.
"Nos causa muita preocupação e ao mesmo tempo indignação os relatos de assédio eleitoral e de abuso de poder que a gente tem observado com empresários, com parlamentares e também com detentores de mandatos municipais e estaduais, cometendo várias formas de assédio contra trabalhadores, depois do resultado final das eleições presidenciais", alertou o professor do campo da saúde coletiva, Oswaldo.
O especialista e professor da UFRN, também chamou atenção para o risco a democracia em uma sociedade com posições politicas divergentes.
"Quando nós temos uma eleição disputada da forma como aconteceu, nós precisamos entender o que que leva, primeiro, a uma disputa tão acirrada, mas principalmente a importância da civilidade e a importância de entendermos que no espectro democrático, saber lidar com a vitória assim como saber lidar com a derrota, são elementos fundamentais dentro de um ambiente democrático".
O professor e sindicalista, Oswaldo Negrão, também refletiu sobre o futuro que o brasileiro quer daqui para frente.
"Precisamos pensar numa sociedade que acolha as divergências dentro do espaço democrático. Isso é saudável, mas o como nós fazemos é fundamental, principalmente porque nós precisamos preservar a qualidade de vida, a qualidade de saúde das pessoas e as pessoas precisam sair sem medo nas ruas e ter uma livre expressão, uma livre possibilidade de expressão das suas opções políticas e sem que isso impacta no seu risco de vida ou de assassinato ou mesmo de qualquer forma de violência", disse o professor.
Repercussão para as marcas e ótica do marketing
No visão mercadológica, há um risco para empresários que deixam suas questões politicas influenciarem nos negócios, como explicou o Consultor de marketing e estrategista político, Bruno Oliveira ao BNews.
“Eu aprendi com os mais antigos que quem tinha um negócio não podia se envolver na política com um lado, porque perdia os clientes do outro lado. Me parece que, atualmente, alguns empresários mais emocionados estão deixando de lado essa máxima. Deixar de contratar um eleitor de Lula, especialmente num estado predominantemente lulista, ultrapassa qualquer possibilidade do razoável e mostra como a nossa educação política é frágil".
Alongo prazo: "se, para além do preconceito, o empresário estivesse apostando num reposicionamento para o atender o nicho bolsonarista, até poderia fazer algum sentido, mas sacrificar a qualificação e as capacidades, pela cor partidária, me parece pouco inteligente e pouco eficiente no médio e longo prazo para qualquer negócio”, concluiu Bruno Oliveira.
Casos denunciados e ações do MPT e Governo Federal
Durante o segundo turno, um dos caso que foi denunciado ao Tribunal Regional Eleitoral e que chamou atenção aconteceu na UFRN, quando uma manifestação de apoiadores da direita na Universidade terminou em confusão após um confronto com pessoas identificadas como integrantes de um grupo ligado à esquerda. O episódio ocorreu durante um ato no campus da instituição e foi registrado em imagens.
O Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT-RN) disse nesta semana que apura possíveis demissões e ameaças de dispensa motivadas pela escolha de candidatos nas eleições. A investigação busca identificar retaliações de empregadores contra trabalhadores no estado após o resultado das urnas. Até a tarde da quarta-feira (28), o órgão contabilizava 60 denúncias de assédio eleitoral.
Já o Governo Federal avalia restringir o acesso a crédito público de empresas que pratiquem assédio eleitoral contra trabalhadores.
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