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Cannabis medicinal no RN: pacientes enfrentam barreiras para conseguir tratamento

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A falta de informação e resistência familiar são barreiras que dificultam a prescrição de medicamentos à base de cannabis no Brasil  |   BNews RN - Divulgação Reprodução/Montagem/BNews RN
Giovana Gurgel

por Giovana Gurgel

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Publicado em 31/10/2026, às 12h00



O custo dos medicamentos, a falta de profissionais habilitados para prescrever e a desinformação ainda dificultam o acesso à cannabis medicinal no Rio Grande do Norte. Apesar do aumento da procura por tratamentos à base da planta, pacientes e familiares enfrentam obstáculos para obter acompanhamento e manter a terapia.

Para Felipe Farias, da Associação Reconstruir Cannabis, a ampliação do fornecimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) representa uma oportunidade de democratizar o acesso, embora a cobertura inicial contemple um número limitado de condições de saúde.

Segundo Farias, a dificuldade não se restringe ao território potiguar, mas faz parte de um cenário nacional. Entre os principais entraves está o preço dos produtos disponíveis nas farmácias, além das alternativas importadas e dos medicamentos fornecidos por associações brasileiras que trabalham com cannabis medicinal.

“A grande maioria das famílias não tem condições de arcar com os custos esse remédio, das opções que tem na farmácia. Temos também os importados e aqueles produzidos através de associações de cannabis aqui no Brasil, como também é o caso da Reconstruir. Então, a informação de como ter acesso, ela é muito necessária, porque ainda encontramos até profissionais de saúde que nem sabem que já é possível comprar remédios à base de Cannabis no Brasil. Esse é um ponto crucial, é o que a gente mais debate, que é o acesso democrático à Cannabis no RN”, afirma.

Ansiedade lidera procura entre pacientes atendidos pela associação

Dados da Associação Reconstruir Cannabis, conforme o levantamento apresentado por Farias a partir da experiência de atendimento da entidade, indicam que os transtornos de ansiedade passaram a liderar a procura por tratamentos à base da planta no período posterior à pandemia de covid-19.

Antes desse período, segundo ele, a principal demanda era relacionada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). A mudança no perfil dos pacientes é associada pelo representante ao aumento da procura por alternativas terapêuticas, inclusive entre pessoas que já utilizam outros medicamentos e buscam melhores resultados ou menos efeitos adversos.

Além dos transtornos de ansiedade e do autismo, a associação atende pessoas com dor crônica, epilepsia, doença de Alzheimer, distúrbios do sono, fibromialgia e doenças oncológicas. Farias ressalta, porém, que a cannabis medicinal não deve ser apresentada como uma cura. O tratamento pode atuar como recurso complementar, conforme a indicação clínica, para o controle de sintomas de determinadas condições.

Felipe Farias, da Associação Reconstruir Cannabis
Felipe Farias, da Associação Reconstruir Cannabis

Falta de prescritores e desinformação ampliam barreiras

A dificuldade para encontrar profissionais que prescrevam medicamentos à base de cannabis é outro obstáculo apontado por Farias. Segundo ele, a formação insuficiente sobre a terapia canabinoide nas universidades e a falta de informação entre profissionais contribuem para limitar o acesso dos pacientes.

O representante da Reconstruir cita um relatório da Kaya Mind, empresa de inteligência de mercado voltada ao setor de cannabis, segundo o qual o Brasil teria cerca de 2,6 médicos prescritores para cada 10 mil habitantes. 

A resistência de parte das famílias também aparece entre os desafios. O receio de utilizar um medicamento derivado da cannabis pode dificultar a busca pelo tratamento, especialmente em contextos nos quais persistem dúvidas sobre seus efeitos, indicações e segurança.

Para Farias, ampliar o conhecimento sobre a terapia canabinoide exige preparar não apenas médicos, mas também outros profissionais envolvidos no cuidado, como enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos e fisioterapeutas. A orientação adequada pode ajudar a identificar indicações, contraindicações e possíveis interações medicamentosas.

"Muitas vezes esse número é pequeno por falta de informação, por não ter acesso à educação na academia, na universidade e também, às vezes, o próprio receio dentro das famílias também existe, de fornecer um remédio à base de maconha para algum familiar", afirma.

Fornecimento pelo sus abre perspectiva, mas cobertura é restrita

A implantação de um protocolo de fornecimento de cannabis medicinal na rede pública estadual é vista pela associação como um passo inicial para ampliar o acesso no Rio Grande do Norte. Farias avalia que a iniciativa poderá contribuir para estruturar o atendimento, estimular a capacitação dos profissionais e permitir uma avaliação mais concreta dos resultados da política pública.

"A SESAP iniciou um protocolo de fornecimento via SUS, por mais que ainda seja tímido, pois somente três síndromes serão beneficiadas: Lennox Gastaut, Dravet e a esclerose tuberosa, apesar da demanda ser muito maior no Rio Grande do Norte para outras patologias", analisa.

Segundo ele, entretanto, a previsão inicial contempla condições específicas, enquanto a procura registrada pela associação abrange um conjunto mais amplo de doenças e sintomas. Por isso, a expectativa é que a experiência inicial contribua para o debate sobre possíveis ampliações futuras.

O representante também defende a capacitação de profissionais do SUS. A expectativa apresentada por ele é alcançar pelo menos 500 trabalhadores da rede, incluindo tanto profissionais habilitados a prescrever quanto integrantes de outras áreas da assistência.

A formação, na avaliação de Farias, deve abordar aspectos jurídicos, históricos, técnicos e científicos da cannabis medicinal. O objetivo é permitir que as equipes compreendam em quais situações o tratamento pode ser indicado, quando deve ser evitado e quais cuidados são necessários durante o acompanhamento dos pacientes.

Reprodução/Magnific
Reprodução/Magnific

Tratamento também impacta a rotina das famílias

Os efeitos de um tratamento, segundo Farias, não se limitam ao paciente. Em famílias que precisam organizar a rotina em torno dos cuidados com crianças ou pessoas com condições crônicas, a possibilidade de melhorar determinados sintomas pode repercutir na vida doméstica, no trabalho e na relação com os profissionais que acompanham o caso.

“A cannabis não vem para tratar somente o sintoma, mas também quem cuida daquele paciente”, afirma.

O representante da Reconstruir destaca que familiares, professores, fisioterapeutas e outros integrantes da rede de apoio também podem ser impactados pelas mudanças na condição clínica e na rotina da pessoa em tratamento. Os resultados, contudo, dependem de fatores individuais, da indicação adequada e do acompanhamento profissional.

Diante desse cenário, a ampliação do acesso à cannabis medicinal no RN envolve desafios que vão além da oferta de medicamentos. A redução dos custos, a formação de prescritores, a orientação das famílias e a estruturação da assistência pública são apontadas como medidas necessárias para que mais pacientes possam avaliar e acessar essa alternativa terapêutica com segurança.

Para Farias, o fornecimento pelo SUS pode representar o início de uma mudança, desde que seja acompanhado por informação, capacitação e acolhimento. A efetividade dessa perspectiva dependerá, entre outros fatores, do alcance do protocolo, das condições de acesso e da capacidade da rede pública de atender às necessidades dos pacientes potiguares.

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