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Negócios

Mesmo afastados, desembargadores acumulam quase R$ 2 milhões em um ano com salários e penduricalhos

O levantamento foi realizado com base em dados do Portal da Transparência do tribunal e considera os ganhos dos desembargadores entre 2025 e 2026  |  Reprodução/Montagem

Publicado em 22/04/2026, às 14h20   Reprodução/Montagem   José Nilton Jr.

No começo deste ano, dois desembargadores foram afastados do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) por razões distintas, um sob acusação de abuso sexual e outro investigado por suposto favorecimento em um processo envolvendo a empresa 123 Milhas. Apesar disso, ambos receberam juntos R$ 1.496.994,16 em benefícios adicionais ao longo de um ano.

O levantamento foi realizado com base em dados do Portal da Transparência do tribunal e considera os ganhos de Magid Nauef Láuar e Alexandre Victor de Carvalho entre abril de 2025 e março de 2026, período em que ainda estavam parcialmente em atividade. Láuar foi afastado em fevereiro, enquanto Carvalho deixou o cargo em março.

Mesmo fora de suas funções, os magistrados continuaram recebendo seus salários integrais, conforme permite uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Durante o afastamento, eles ficam impedidos de exercer atividades no tribunal e de utilizar benefícios do cargo, mas seguem com os vencimentos depositados regularmente.

Valores extras elevam ganhos

Os dados mostram que Magid Láuar recebeu R$ 739.290,64 em benefícios adicionais, enquanto Alexandre de Carvalho acumulou R$ 757.703,52 no mesmo período em questão. Esses valores incluem vantagens pessoais, adicionais por tempo de serviço, quintos, decisões judiciais ou administrativas e abono de permanência.

De acord com o tribunal, embora exista um teto constitucional de R$ 46.366,19 para a remuneração mensal, determinados valores não entram nesse limite por terem caráter indenizatório ou por serem pagamentos retroativos.

Na prática, ao somar salários e benefícios, os rendimentos totais dos dois magistrados se aproximaram de R$ 2 milhões em um ano. Láuar recebeu R$ 979.105,62, enquanto Carvalho totalizou R$ 991.865,87 no período analisado.

Benefícios superam salário base

Grande parte dos ganhos veio de vantagens pessoais. No caso de Láuar, esse tipo de verba chegou a R$ 654.621,52. Já Carvalho recebeu R$ 673.034,36 na mesma categoria.

Em alguns meses, os benefícios ultrapassaram o próprio salário base. Em junho do ano passado, por exemplo, Láuar recebeu R$ 39.753,21 de salário e R$ 88.793,57 em vantagens pessoais.

Situação semelhante ocorreu com Carvalho, que em janeiro deste ano teve R$ 100 mil pagos como vantagens pessoais, valor superior ao salário do mês, que foi de R$ 41.845,49.

Entenda os afastamentos

Magid Láuar foi afastado em fevereiro por determinação do CNJ, após denúncias de abuso sexual. O caso ganhou repercussão nacional após uma decisão polêmica em que ele absolveu um homem acusado de estuprar uma menina de 12 anos, classificando o episódio como relação consensual, decisão que posteriormente foi revista.

Além disso, surgiram relatos de outras possíveis vítimas. Pelo menos cinco pessoas procuraram autoridades para denunciar supostos abusos cometidos pelo magistrado ao longo de sua carreira.

Uma das denúncias foi feita por um parente do desembargador, que relatou ter sofrido tentativa de abuso quando era adolescente, enquanto trabalhava para ele.

Investigação sobre decisões judiciais

Já Alexandre Victor de Carvalho foi afastado em março em meio a investigações sobre sua atuação em processos relacionados à 123 Milhas, empresa envolvida em disputas judiciais após crise financeira.

As suspeitas indicam que ele teria favorecido a empresa em decisões judiciais. Pouco após ser notificado do afastamento, o magistrado solicitou aposentadoria.

Ele já havia sido suspenso anteriormente, em dezembro de 2024, dentro do mesmo contexto investigativo. Levantamentos apontam ainda que decisões dele vêm sendo utilizadas como base por outros juízes, dificultando a cobrança de valores da empresa.

O CNJ informou que os processos seguem sob sigilo e não há prazo definido para conclusão das investigações.

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