A violência psicológica é a forma de agressão mais frequentemente percebida por médicos ginecologistas e obstetras durante atendimentos a mulheres. O dado faz parte de um levantamento realizado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que investigou como esses profissionais lidam com situações de violência nos consultórios e serviços de saúde.
De acordo com o estudo, esse tipo de violência aparece como o mais relatado nas consultas médicas. Em seguida surgem os casos de violência sexual, seguidos por agressões físicas e, por último, episódios de violência patrimonial.
O levantamento também mostra que a maioria dos profissionais já atendeu mulheres em situação de violência. Entre os participantes, 57% afirmaram lidar com esses casos ocasionalmente, enquanto 15% relataram que esse tipo de atendimento ocorre com frequência em sua rotina clínica.
Médicos relatam dificuldades
Apesar da presença recorrente do problema nos consultórios, parte dos profissionais afirma não se sentir preparada para lidar com essas situações. Segundo a pesquisa, cerca de 23% dos médicos disseram sentir-se pouco ou nada preparados para acolher e orientar pacientes que enfrentam algum tipo de violência.
A abordagem do tema também ocorre de forma irregular nas consultas. Aproximadamente 46% dos entrevistados afirmaram que só abordam o assunto quando percebem sinais claros de agressão.
Outros 26,5% disseram conversar sobre o tema apenas quando a própria paciente relata espontaneamente alguma situação de violência. Já 14,48% afirmaram tratar da questão de forma rotineira durante as consultas, enquanto 12,41% disseram raramente ou nunca abordar o assunto.
Falta de rede de apoio
Entre as principais dificuldades relatadas pelos médicos estão a ausência de redes de apoio estruturadas e obstáculos legais ou burocráticos para encaminhamento dos casos.
O estudo ouviu 290 ginecologistas e obstetras de cinco estados brasileiros: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí e Rio Grande do Sul. O questionário foi composto por perguntas fechadas e de múltipla escolha, com participação voluntária e anônima.
Entre os respondentes, a maioria tem mais de 50 anos e cerca de 61% atuam simultaneamente nos sistemas público e privado de saúde.
Entidades defendem capacitação profissional
Com base nos resultados, a Febrasgo pretende desenvolver iniciativas voltadas à capacitação de profissionais para o atendimento de mulheres em situação de violência. Entre as ações previstas estão conteúdos educativos, cursos de formação e orientações para ajudar médicos a identificar sinais de agressão e oferecer suporte adequado às pacientes.
Outra iniciativa recente é o guia “Boas práticas no atendimento médico às mulheres vítimas de violência”, elaborado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). O documento reúne recomendações para tornar o atendimento mais acolhedor e respeitoso.
Segundo as orientações, o profissional deve adotar escuta qualificada, respeitar o tempo da paciente e evitar julgamentos durante o atendimento. Especialistas também alertam que vítimas podem apresentar explicações alternativas para lesões ou ferimentos, o que exige atenção redobrada dos profissionais de saúde na identificação de possíveis casos de violência.