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Seca deixa 16 reservatórios do RN abaixo de 10% e coloca abastecimento de cidades em alerta

Foto: Anderson Barbosa e Fred Carvalho/G1
Levantamento do Igarn revela que 16 reservatórios estão com menos de 10% da capacidade, afetando o abastecimento em várias regiões  |   BNews RN - Divulgação Foto: Anderson Barbosa e Fred Carvalho/G1
Giovana Gurgel

por Giovana Gurgel

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Publicado em 07/11/2026, às 12h00



O Rio Grande do Norte enfrenta um cenário de preocupação com a segurança hídrica, principalmente nas regiões Seridó e Alto Oeste, onde reservatórios estão praticamente secos e municípios já convivem com medidas para preservar o abastecimento.

Levantamento divulgado pelo Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn) aponta que 16 dos reservatórios monitorados no Estado estão com menos de 10% da capacidade. Em Ouro Branco, a situação já levou a Companhia de Águas e Esgotos (Caern) a implantar um calendário de abastecimento por setores, com seis dias consecutivos de suspensão do fornecimento após cada período de três dias com água.

Apesar da situação preocupante em parte do território potiguar, as reservas hídricas superficiais do Estado acumulam aproximadamente 2,42 bilhões de metros cúbicos, o equivalente a 45,78% da capacidade total, estimada em 5,29 bilhões de metros cúbicos, segundo o levantamento do Igarn divulgado no início de novembro. O percentual revela uma situação desigual: enquanto grandes barragens ainda mantêm volumes expressivos, açudes menores, especialmente no Seridó, apresentam níveis extremamente baixos.

O quadro mais crítico está em três reservatórios que possuem menos de 1% da capacidade. A Passagem das Traíras, em São José do Seridó, registra apenas 0,03%. O Açude Dourado, em Currais Novos, está com 0,06%, enquanto o Itans, em Caicó, apresenta 0,36%. Outros mananciais também estão próximos do esgotamento, como o Jesus Maria José, em Tenente Ananias, com 1,20%; o Mundo Novo, em Caicó, com 1,24%; e o Alecrim, em Santana do Matos, com 1,37%.

Municípios sob maior risco de desabastecimento

Um dos principais alertas envolve nove municípios do Seridó: Currais Novos, Equador, Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, São João do Sabugi, Ipueira, São José do Seridó e Ouro Branco. Um levantamento da Caern encaminhado ao Governo do Estado apontou que cinco reservatórios responsáveis pelo atendimento dessas cidades poderiam chegar ao esgotamento até o final de 2026, com impacto potencial sobre mais de 63 mil pessoas.

Entre os mananciais relacionados estão o Dourado, que atende Currais Novos; o Mamão, responsável pelo abastecimento de Equador; o Boqueirão de Parelhas, que atende Parelhas, Jardim do Seridó e Carnaúba dos Dantas; o Santo Antônio, em São João do Sabugi; e o Martelo, em Ipueira. A situação exige atenção porque a redução das reservas pode comprometer os sistemas que dependem desses açudes.

Currais Novos é um dos exemplos mais emblemáticos. Com o Açude Dourado praticamente seco, a Caern passou a contar com o Açude Marechal Dutra, conhecido como Gargalheiras, localizado em Acari, para garantir o atendimento da população. O reservatório de Gargalheiras, portanto, ganhou importância estratégica para a segurança hídrica do município.

Ouro Branco e São João do Sabugi foram apontados pela companhia como localidades especialmente vulneráveis por não disporem de sistemas emergenciais de abastecimento. Em Ouro Branco, a população já dependia de poços rasos diante da redução das reservas disponíveis. A situação se agravou a ponto de a Caern anunciar, em 3 de novembro, a implantação de um sistema de manobras para distribuir a água entre três setores da cidade.

Grandes barragens ainda mantêm reservas

O cenário estadual, entretanto, não é de esgotamento generalizado. Alguns dos maiores reservatórios potiguares ainda apresentam volumes importantes, embora também estejam longe da capacidade máxima.

A barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, considerada o maior reservatório do RN, acumula aproximadamente 856,4 milhões de metros cúbicos, correspondentes a 36,09% da capacidade. Localizada na região do Vale do Açu, a barragem é estratégica para o abastecimento humano, a produção agrícola e outras atividades econômicas.

Outros grandes mananciais apresentam condições relativamente mais favoráveis. A barragem de Oiticica, em Jucurutu, registra 68,37% da capacidade, enquanto a barragem de Santa Cruz do Apodi está com 66,76%. Já o reservatório Umarí, em Upanema, acumula 55,84%.

No total, nove reservatórios monitorados pelo Igarn estão acima de 80% da capacidade, e três chegaram a 100%: Flechas e Arapuã, em José da Penha, e Lagoa de Pium, em Nísia Floresta. Os números demonstram que a crise hídrica não atinge todas as regiões da mesma maneira. A disponibilidade de água depende não apenas do volume total armazenado no Estado, mas também da localização dos reservatórios e da estrutura necessária para levar água às cidades.

16 açudes estão abaixo de 10%

Além dos três reservatórios com menos de 1%, outros mananciais apresentam volumes considerados preocupantes. O Zangarelhas, em Jardim do Seridó, está com 1,97%; o Totoró, em Currais Novos, com 2,31%; o Esguicho, em Ouro Branco, com 3,92%; e o açude de Currais Novos, com 3,85%.

Também aparecem na relação o reservatório 25 de Março, em Pau dos Ferros, com 4,51%; o Boqueirão de Parelhas, com 6,67%; o Caldeirão de Parelhas, com 6,78%; o Sabugi, em São João do Sabugi, com 6,90%; o Santo Antônio de Caraúbas, em Caraúbas, com 8,59%; e o São Gonçalo, em São Francisco do Oeste, com 9,34%.

A situação desses mananciais reforça a preocupação com a continuidade do abastecimento em localidades que possuem poucas alternativas de captação. Quando um açude perde sua capacidade de atender à demanda, as companhias precisam recorrer a poços, adutoras, transferências de água entre sistemas e, em situações mais graves, carros-pipa.

Ouro Branco já enfrenta racionamento

A situação de Ouro Branco mostra como a redução da disponibilidade hídrica pode chegar diretamente à rotina dos moradores. A Caern iniciou, em 3 de novembro, o abastecimento por meio de manobras, dividindo o município em três setores. Cada área recebe água durante três dias consecutivos e passa os seis dias seguintes sem fornecimento.

A medida foi adotada após a redução do volume de água disponível nos poços tubulares que atendem à cidade. O objetivo é prolongar a disponibilidade hídrica até a próxima quadra chuvosa. A companhia orientou os moradores a acompanhar os calendários de distribuição, armazenar água para os períodos de interrupção e evitar desperdícios.

A dependência de soluções emergenciais também aparece nas áreas rurais. Dados considerados pelo Governo do Estado no decreto de emergência por estiagem apontam que 77 municípios potiguares possuem comunidades rurais atendidas pela Operação Carro-Pipa, executada pelo Exército Brasileiro. O número corresponde a aproximadamente 46,1% dos municípios do Estado.

Governo reconhece situação de emergência

Em setembro, o Governo do RN decretou situação de emergência em 123 municípios por causa da estiagem prolongada. O Decreto Estadual nº 35.925 considerou a redução das chuvas, a falta de recarga de reservatórios e os impactos sobre a segurança hídrica da população.

O documento também destacou a irregularidade das precipitações ao longo de 2026. Embora alguns meses tenham registrado chuvas acima da média, a distribuição foi desigual entre as regiões. Entre março e agosto, o acumulado médio estadual ficou 6,8% abaixo do esperado, com déficits mais expressivos nas regiões Central, com 18,7%, e Agreste, com 16,5%.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), entretanto, afirmou, em setembro, que o abastecimento dos nove municípios apontados pela Caern estaria garantido até o fim de 2026, mesmo sem novas chuvas, por meio de alternativas de captação e medidas preventivas. A avaliação da secretaria demonstra que o risco de esgotamento de um reservatório não significa, necessariamente, interrupção imediata do fornecimento à população.

Situação dos principais reservatórios do Rio Grande do Norte:

Reservatório Município Volume armazenado
Passagem das Traíras São José do Seridó 0,03%
Dourado Currais Novos 0,06%
Itans Caicó 0,36%
Jesus Maria José Tenente Ananias 1,20%
Mundo Novo Caicó 1,24%
Alecrim Santana do Matos 1,37%
Zangarelhas Jardim do Seridó 1,97%
Totoró Currais Novos 2,31%
Esguicho Ouro Branco 3,92%
25 de Março Pau dos Ferros 4,51%
Boqueirão Parelhas 6,67%
Caldeirão Parelhas 6,78%
Sabugi São João do Sabugi 6,90%
Santo Antônio de Caraúbas Caraúbas 8,59%
São Gonçalo São Francisco do Oeste 9,34%

Fonte: Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (Igarn). Dados do início de novembro de 2026. Percentuais referentes à capacidade total de cada reservatório.

Municípios sob maior alerta de desabastecimento:

Município Situação / manancial relacionado
Currais Novos Açude Dourado com volume crítico
Equador Açude Mamão sob risco
Parelhas Boqueirão com apenas 6,67%
Carnaúba dos Dantas Dependência do sistema do Boqueirão
Jardim do Seridó Dependência do sistema do Boqueirão
São João do Sabugi Açude Santo Antônio sob risco
Ipueira Açude Martelo sob risco
São José do Seridó Passagem das Traíras com 0,03%
Ouro Branco Abastecimento por rodízio

Fonte: Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) e Igarn. Situação referente aos levantamentos divulgados no início de novembro de 2026.

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