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O Chester, tradicional na ceia de Natal no Brasil, é na verdade uma marca registrada de uma linhagem de frangos desenvolvida para oferecer maior volume de carne, especialmente no peito e nas coxas, como alternativa ao peru, que tem custo de produção mais elevado.
Desenvolvido pela Perdigão nos anos 1970, o Chester surgiu após a importação de ovos dos Estados Unidos e anos de aprimoramento genético e nutricional, culminando em seu lançamento oficial em 1982 com a famosa campanha 'Habemus Chester'.
Atualmente, a produção do Chester se concentra principalmente em Goiás, e a ave continua a ser uma presença garantida nas ceias natalinas brasileiras, sem o uso de hormônios, sendo seu crescimento resultado de genética e nutrição balanceada.
Todo fim de ano, a mesma piada volta à mesa: “Mas afinal, alguém já viu um Chester vivo?”. O humor atravessou gerações e ajudou a criar uma aura quase lendária em torno de uma das aves mais tradicionais do Natal no Brasil.
Durante décadas, o mistério foi tão bem alimentado que muita gente chegou a acreditar que o Chester era um animal diferente de tudo o que se conhece — sem cabeça, exageradamente grande ou incapaz de se mover.
A realidade, porém, é bem menos fantasiosa — e muito mais interessante.
Chester não é uma espécie, é uma marca
Ao contrário do que muitos imaginam, o Chester não é uma espécie de ave, mas uma marca registrada. Ele pertence a uma linhagem especial de frangos desenvolvida a partir de melhoramento genético, com foco em maior volume de carne no peito e nas coxas — exatamente as partes mais valorizadas em datas festivas.
Essa característica não surgiu por acaso. Ela foi pensada como estratégia comercial e produtiva para disputar espaço com o tradicional peru natalino.
A rivalidade que deu origem ao Chester
Nos anos 1970, o mercado brasileiro de aves para o Natal era dominado pelo peru. A Sadia, à época, liderava esse segmento. Já a Perdigão buscava uma alternativa mais viável economicamente: o peru tem custo de produção mais elevado, ciclo mais longo e uma cadeia produtiva mais complexa.
A solução foi desenvolver uma ave diferente, mas que mantivesse a maciez do frango e entregasse um porte mais robusto.
Foi assim que, em 1979, a Perdigão enviou técnicos aos Estados Unidos em busca de uma linhagem que concentrasse carne exatamente onde o consumidor mais queria.
Dos ovos importados ao “Habemus Chester”
Os primeiros ovos chegaram ao Brasil vindos dos Estados Unidos e foram incubados no interior de Santa Catarina, na região de Videira. A adaptação não foi simples. No início, as aves demoravam até 84 dias para atingir o peso ideal e enfrentaram problemas estruturais, como fragilidade óssea.
Somente após anos de ajustes nutricionais, apoio técnico universitário e refinamento genético, o projeto ganhou estabilidade.
O lançamento oficial aconteceu em 1982, com uma campanha que entrou para a história da publicidade brasileira. O slogan “Habemus Chester” consolidou a ave como uma nova tradição natalina.
Por que o Chester é diferente do frango comum?
Apesar de ser um frango, o Chester apresenta diferenças claras em relação às aves convencionais:
• Maior porte e peso final
• Mais carne no peito e nas coxas
• Ciclo de criação mais longo
• Alimentação balanceada específica
• Abate em linhas separadas
Atualmente, o Chester é abatido com cerca de 55 a 58 dias, enquanto o frango comum costuma ser abatido por volta dos 40 dias. O peso final varia entre 4 e 4,5 kg.
Mito derrubado: não há uso de hormônios
Um dos boatos mais persistentes envolve o uso de hormônios para acelerar o crescimento das aves. Especialistas são categóricos: isso não acontece.
Além de proibida por lei no Brasil, a prática é biologicamente ineficaz e economicamente inviável.
Hormônios ingeridos seriam quebrados pelo sistema digestivo e aplicações individuais em milhares de aves tornariam o processo impraticável. O crescimento acelerado é resultado exclusivo de genética e nutrição balanceada.
Onde o Chester é produzido hoje?
Embora tenha sido desenvolvido em Santa Catarina, a produção atual do Chester se concentra principalmente no estado de Goiás, especialmente na região de Mineiros.
A BRF, controladora das marcas Perdigão e Sadia, não divulga dados detalhados sobre volumes e granjas específicas. Mesmo assim, mais de quatro décadas após seu lançamento, o Chester segue como presença garantida nas ceias brasileiras.
Tradição, curiosidade e mesa farta
Criar aves maiores para ocasiões especiais não é novidade na história da humanidade. Em diferentes culturas, frangos, perus e outras aves foram selecionados ao longo dos séculos para banquetes, celebrações religiosas e datas simbólicas.
O Chester é, essencialmente, a versão brasileira dessa tradição — combinando indústria, marketing e costume popular.
Receita especial: Chester assado com ervas e laranja
Receita clássica, fácil e perfeita para a ceia:
Chester Assado Natalino
Ingredientes:
• 1 Chester inteiro (4 a 5 kg)
• Suco de 2 laranjas
• 4 dentes de alho amassados
• 2 colheres de sopa de manteiga
• Sal e pimenta-do-reino a gosto
• Ramos de alecrim e tomilho
• 1 cebola grande cortada em quartos
Modo de preparo:
Descongele o Chester completamente.
Tempere com o suco de laranja, alho, sal e pimenta.
Espalhe a manteiga sob a pele do peito.
Recheie a cavidade com a cebola e as ervas.
Cubra com papel-alumínio e leve ao forno a 180 °C por cerca de 2h30.
Retire o papel nos últimos 30 minutos para dourar.
Sirva com farofa, arroz com castanhas ou legumes assados.
A família por trás do Chester: a viagem aos EUA e o nascimento da ave no Brasil
A criação do Chester não foi apenas uma decisão empresarial, mas também uma história familiar que atravessou fronteiras. No fim da década de 1970, a direção da Perdigão enviou dois técnicos aos Estados Unidos com uma missão clara: encontrar uma ave alternativa ao peru, que fosse mais viável economicamente e atendesse ao gosto do consumidor brasileiro.
A busca levou o diretor do setor agropecuário Edésio Brandalise e o veterinário Mário Ricciardi até o estado de Maryland, onde conheceram um geneticista que havia desenvolvido uma linhagem especial de frangos com maior deposição de carne no peito e nas coxas. Dali vieram entre 3 mil e 5,5 mil ovos, importados para o Brasil e incubados no interior de Santa Catarina.
O ponto de partida foi a localidade de Passo da Felicidade, hoje pertencente ao município de Tangará, na região de Videira — cidade que concentrava as operações da Perdigão naquele período. Coube ao veterinário Vitor Hugo Brandalise, sobrinho de Edésio, a responsabilidade por uma das etapas mais delicadas do projeto: a nutrição das primeiras aves.
Recém-formado e com apenas 28 anos, Vitor Hugo desenvolveu uma ração à base de milho e soja, ajustando cuidadosamente níveis de proteína, energia, vitaminas e minerais. O começo, porém, foi marcado por desafios. As aves demoravam até 84 dias para atingir o peso esperado e, em alguns casos, o crescimento muscular superava a resistência óssea.
O projeto quase naufragou após um surto da doença de Newcastle, que levou à eliminação de um dos primeiros lotes. A virada veio com a contratação de zootecnistas e o apoio técnico da Universidade Federal de Viçosa, que ajudaram a ajustar o programa de melhoramento genético.
Após cerca de quatro a cinco anos de testes e correções, a Perdigão conseguiu chegar a uma ave com cerca de 4 quilos de carne, abatida com pouco mais de 60 dias, mantendo boa conversão alimentar e custo competitivo. Estava criado, definitivamente, o Chester — um produto nascido de ciência, persistência e de uma história familiar que moldou a ceia de milhões de brasileiros.
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