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Publicado em 26/07/2026, às 09h38 Reprodução/Dra. Daiane Ferla Manzato José Nilton Jr.
Mulheres que já passaram por uma cesariana podem ter um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um tipo raro de câncer que se origina nas células da placenta. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que analisou dados de quase três mil pacientes ao longo de 20 anos.
A pesquisa identificou que o histórico de cesárea aumenta de forma independente as chances de evolução da mola gestacional para câncer, mesmo após o controle de outros fatores de risco já conhecidos. O trabalho ganha relevância em um país como o Brasil, que possui uma das maiores taxas de partos cesáreos do mundo.
A neoplasia trofoblástica gestacional representa a forma mais grave da doença trofoblástica gestacional, popularmente conhecida como mola gestacional. A condição surge quando ocorre uma fecundação anormal, formando uma placenta alterada, que pode se desenvolver sem feto ou com um feto inviável.
O estudo foi desenvolvido em parceria entre a UFRJ e o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, vinculado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ao todo, foram analisados os dados de 2.904 mulheres atendidas entre 2002 e 2022.
Do total de pacientes, 83,9% nunca haviam realizado cesariana, enquanto 468 tinham histórico de pelo menos uma cirurgia. Entre as mulheres que passaram pelo procedimento, 26,5% desenvolveram o câncer, contra 20,8% daquelas sem cesárea anterior.
De acordo com a coordenadora da pesquisa, Gabriela Paiva, a principal hipótese é que a cicatriz deixada pela cirurgia provoque alterações no útero que favoreçam a instalação das células da mola gestacional.
Os pesquisadores destacam que o resultado tem impacto especial para o cenário brasileiro. Atualmente, cerca de 55% dos partos no país são realizados por cesariana, percentual muito acima dos 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para Antônio Braga, coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica da UFRJ, a descoberta reforça a necessidade de que a cirurgia seja indicada apenas quando realmente necessária.
Os pesquisadores estimam que uma redução da taxa de cesarianas para 35% poderia evitar aproximadamente 177 novos casos da doença por ano, o equivalente a uma diminuição de 6,1% na incidência anual da neoplasia no país.
Apesar da associação encontrada entre cesariana e maior risco de câncer, os cientistas ressaltam que o estudo não indica a adoção de tratamentos mais agressivos para pacientes com histórico de cirurgia.
A principal recomendação é intensificar o acompanhamento das mulheres diagnosticadas com mola gestacional, permitindo identificar precocemente uma possível evolução para neoplasia.
Atualmente, o tratamento envolve a retirada do conteúdo uterino por aspiração, sessões de quimioterapia e monitoramento contínuo dos níveis do hormônio HCG. A retirada do útero é reservada apenas para casos específicos.
No Brasil, a doença trofoblástica gestacional ocorre em cerca de uma a cada 200 a 400 gestações, resultando em aproximadamente 2,9 mil casos de neoplasia trofoblástica gestacional por ano.