Política
Comunidades online que promovem hostilidade contra mulheres têm se organizado há décadas, contribuindo para a disseminação de discursos misóginos e comportamentos violentos, como evidenciado por um recente caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro que reacendeu o debate sobre a influência desses grupos.
Esses ambientes digitais são caracterizados por uma linguagem própria e a defesa de privilégios masculinos, com a misoginia sendo vista como uma manifestação de desigualdade de gênero que se articula em várias esferas sociais, culturais, econômicas e políticas.
A mobilização em torno de ataques misóginos levou à criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes desse tipo na internet, resultando em prisões e destacando a necessidade de medidas mais eficazes contra a violência de gênero.
Comunidades que promovem hostilidade contra mulheres vêm se organizando há décadas em fóruns digitais, redes sociais e outros ambientes virtuais.
Segundo pesquisadores e ativistas, esses espaços não apenas reproduzem discursos de desigualdade de gênero, mas também ajudam a estimular comportamentos violentos.
Para especialistas, a circulação contínua de mensagens de ódio nesses ambientes pode contribuir para episódios extremos de violência.
Um exemplo recente citado por pesquisadores foi o caso de estupro coletivo contra uma adolescente ocorrido no Rio de Janeiro, que reacendeu o debate sobre a influência desses grupos.
Fenômeno é associado à misoginia estrutural
Os movimentos que difundem esse tipo de discurso são frequentemente relacionados ao conceito de misoginia — entendido como o desprezo ou ódio direcionado às mulheres.
Para estudiosos do tema, a misoginia também se manifesta na defesa da manutenção de privilégios historicamente associados aos homens em diferentes esferas da sociedade.
Esses privilégios aparecem em dimensões diversas:
Formas de privilégio historicamente associadas aos homens
- social
- cultural
- econômica
- política
De acordo com pesquisadores, comunidades misóginas se articulam online com linguagem própria, símbolos e códigos que facilitam a identificação entre os integrantes.
Estratégias de discurso e tentativa de equivalência
Uma das estratégias adotadas por esses grupos é o uso do termo “misandria”, apresentado como se fosse o equivalente ao ódio contra homens.
Essa narrativa é utilizada para sustentar a ideia de que políticas públicas voltadas à proteção das mulheres ou o próprio movimento feminista representariam uma ameaça à masculinidade.
Entre os argumentos mais frequentes nesses ambientes virtuais está a afirmação de que leis de proteção às mulheres ou iniciativas de igualdade de gênero seriam formas institucionais de discriminação contra homens.
Masculinismo surge como reação ao feminismo
Como contraponto ao feminismo — movimento que defende igualdade de direitos entre homens e mulheres — esses grupos passaram a adotar um conjunto de ideias conhecido como masculinismo.
Essa corrente defende uma visão de “masculinidade tradicional”, frequentemente baseada na ideia de papéis sociais distintos e hierarquizados para homens e mulheres.
Especialistas alertam que, em algumas vertentes mais radicais, o masculinismo se transforma em um ambiente de incentivo à hostilidade e à violência de gênero.
Caso de ataques virtuais levou à criação de lei federal
A escritora e ativista feminista Lola Aronovich é uma das vítimas mais conhecidas de ataques misóginos na internet no Brasil.
Desde 2008, quando criou o blog “Escreva Lola Escreva”, ela relata sofrer campanhas de assédio e perseguição online organizadas em fóruns digitais.
Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Todos apoiam lideranças como Bolsonaro e Trump. Esses homens sempre carregam um combo de preconceitos. Não são apenas machistas. São também racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos, capacitistas”, avalia Lola.
A mobilização em torno do caso contribuiu para a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribuiu à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes misóginos cometidos na internet.
As investigações resultaram inclusive na prisão de um dos agressores envolvidos nos ataques virtuais contra a ativista.
Perfil semelhante entre agressores
Segundo Lola Aronovich, os indivíduos envolvidos em ataques misóginos nas redes costumam apresentar comportamentos e características bastante semelhantes.
Para pesquisadores que estudam o fenômeno, a atuação coordenada desses grupos demonstra como ambientes digitais podem funcionar como espaços de radicalização e reforço de discursos de ódio direcionados às mulheres.
Conheça, abaixo, outras palavras e expressões comuns utilizadas por grupos misóginos na internet:
Principais grupos e comunidades:
Machosfera: termo que engloba fóruns na internet, canais de YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais voltados para defesa da masculinidade tóxica, o ódio às mulheres e a oposição aos direitos femininos.
Chans: fóruns anônimos que são frequentemente espaços para discursos extremistas, vazamento de fotos íntimas e ataques coordenados contra mulheres.
Incels: contração das em inglês involuntary celibates (celibatários involuntários). São homens que alegam, de forma ressentida e violenta, não conseguir parceiras sexuais ou românticas por culpa das mulheres ou de padrões sociais.
Redpill: termo inspirado no filme Matrix, em que o protagonista toma uma pílula vermelha que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera, descreve homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa.
MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que pregam o afastamento total de relacionamentos com mulheres, alegando que as leis e a sociedade moderna são injustas com o sexo masculino.
Pick Up Artists (PUA): na tradução livre, significa “artistas da sedução”. Homens que utilizam técnicas psicológicas e de manipulação para obter sexo. Tratam mulheres como objetos ou prêmios a serem conquistados.
Tradwife: mulheres que defendem o retorno aos papéis tradicionais de gênero, nos quais elas serão exclusivamente donas de casa e submissas ao marido.
Arquétipos e hierarquias:
Blackpill (pílula preta): enquanto o redpill prega que o homem deve acordar e agir, o blackpill afirma que o destino de um homem é determinado exclusivamente pela sua genética (aparência, altura, estrutura óssea). Para eles, se você não nasceu com características físicas superiores, não há esforço ou confiança que mude o fracasso social e amoroso.
Bluepill (pílula azul): termo pejorativo para descrever homens que acreditam na igualdade de gênero ou que buscam relacionamentos saudáveis, vistos pelos grupos misóginos como “alienados” ou “fracos”.
Chad: é o homem visto como geneticamente perfeito, atraente, confiante e sexualmente ativo. Na visão desses grupos, é o único tipo que as mulheres realmente desejam, independentemente do caráter.
Alfa: é o topo da hierarquia social masculina. É a idealização do homem dominante, líder, fisicamente forte, financeiramente bem-sucedido e sexualmente atraente. Diferente do Chad (que nasce com genética privilegiada), o Alfa é visto como status que pode ser alcançado por esforço e mudança de mentalidade.
Beta: é o homem comum, visto como submisso, cooperativo e sem dominância social. São frequentemente ridicularizados por serem, na visão da machosfera, usados pelas mulheres apenas por estabilidade financeira.
Sigma: popularizado em redes como o TikTok, é o homem visto como um “alfa solitário”, que não precisa de validação social e foca apenas no próprio sucesso. O termo é frequentemente usado para mascarar isolamento e desprezo pelas mulheres.
Stacy: contraparte feminina do Chad. É o termo usado para descrever mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status social, que supostamente só se interessariam por Chads, desprezando todos os outros homens.
White Knight (Cavaleiro Branco): termo pejorativo para descrever homens que defendem mulheres ou causas feministas de forma mentirosa, apenas como estratégia desesperada para tentar conseguir atenção feminina ou sexo.
Becky: mulher considerada de aparência mediana e comum, situada abaixo da Stacy na hierarquia visual criada por essas comunidades misóginas.
Termos e gírias comuns:
Depósito: gíria ofensiva usada em fóruns e redes sociais para se referir às mulheres como um todo, tratando-as meramente como recipientes para o prazer sexual masculino.
80/20: teoria pseudocientífica que afirma que 80% das mulheres competem por apenas 20% dos homens (os mais atraentes ou ricos), deixando o restante dos homens sem opções.
Hypergamy (Hipergamia): crença de que as mulheres buscam apenas parceiros de status social ou financeiro superior ao delas para tirar vantagem.
AWALT (All women are like that): sigla, em inglês, para “todas as mulheres são assim”, usada para estereotipar comportamentos femininos.
Femoids ou FHOs: significa “organismo humanóide feminino”, um termo ofensivo que sugere que mulheres são inferiores aos homens, e até mesmo subumanas.
Classificação Indicativa: Livre
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Notebook Poderoso
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