Política
Os presidentes Xi Jinping e Donald Trump iniciam nesta semana, em Pequim, uma rodada de negociações considerada estratégica para evitar uma escalada das tensões entre China e Estados Unidos. A agenda oficial prevê cerimônia de recepção, reunião bilateral, visita ao Templo do Céu e um banquete de Estado na quinta-feira (14), além de um almoço reservado antes do retorno de Trump a Washington.
A reunião acontece em meio ao agravamento da crise no Oriente Médio, disputas por inteligência artificial, guerra comercial, conflitos envolvendo minerais estratégicos e pressão econômica sobre os dois governos. A cúpula marca o primeiro encontro presencial entre os líderes em mais de seis meses.
O presidente norte-americano chega à China pela primeira vez em nove anos enfrentando desgaste político interno e pressão para apresentar resultados econômicos e diplomáticos ao eleitorado dos Estados Unidos. A expectativa é que Trump tente usar o encontro como demonstração de força em um momento de queda de popularidade.
O encontro entre os líderes teve seu planejamento alterado após o agravamento do conflito envolvendo o Irã. Inicialmente prevista para março, a reunião foi adiada depois que Trump concentrou esforços na gestão da crise no Oriente Médio, fator que passou a influenciar diretamente a relação entre Washington e Pequim.
Analistas avaliam que o cenário regional fortaleceu a posição estratégica chinesa. Atualmente, a China absorve cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano, comprando aproximadamente 1,4 milhão de barris por dia, o que amplia a dependência energética de Pequim em relação ao Irã.
Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Feliciano de Sá Guimarães, o conflito acabou favorecendo os interesses chineses. Segundo ele, os Estados Unidos atingiram diretamente um fornecedor fundamental de petróleo para a economia da China. O especialista também destacou o papel estratégico do Paquistão na mediação regional devido à forte dependência militar e econômica do país em relação aos chineses.
Além da crise geopolítica, os governos devem discutir a ampliação da atual trégua comercial firmada em outubro do ano passado. Apesar disso, especialistas avaliam que Pequim deve buscar apenas avanços pontuais, sem expectativa de normalização ampla das relações bilaterais.
As tensões tarifárias seguem elevadas após medidas adotadas por Trump contra produtos chineses. Em resposta, o governo chinês intensificou o uso de mecanismos considerados estratégicos, incluindo a venda de títulos do Tesouro norte-americano e o controle do mercado global de terras raras, minerais essenciais para semicondutores, armamentos e ligas metálicas.
Segundo Vinicius Vieira, pesquisador da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), a China controla entre 80% e 90% da capacidade global de processamento de terras raras, transformando o setor em instrumento de pressão geopolítica contra os Estados Unidos.
Trump também deve pressionar Xi Jinping para ampliar novamente as compras chinesas de produtos agrícolas norte-americanos, especialmente soja, setor estratégico para a base eleitoral republicana nos Estados Unidos.
Esse movimento pode gerar reflexos no Brasil, que consolidou posição como principal fornecedor de soja para a China durante os últimos anos, ocupando parte do espaço perdido pelos norte-americanos ao longo da guerra comercial.
Especialistas ainda relacionam a recente reunião entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao interesse dos Estados Unidos nas reservas brasileiras de terras raras. O Brasil possui atualmente a segunda maior reserva mundial desses minerais e passou a ser visto por Washington como alternativa à dependência chinesa.
Outro tema central da reunião será a corrida tecnológica envolvendo inteligência artificial. Analistas apontam que o avanço recente de empresas chinesas no setor aumentou a pressão sobre os Estados Unidos e pode abrir espaço para acordos mínimos entre as potências.
Trump desembarcou em Pequim acompanhado de empresários da área de tecnologia, entre eles Elon Musk, ligado à Tesla e à SpaceX, além de Tim Cook, da Apple.
Para Feliciano de Sá Guimarães, um eventual entendimento sobre limites e princípios éticos ligados à inteligência artificial poderia representar um dos poucos avanços concretos da cúpula. A avaliação predominante entre especialistas, no entanto, é que o encontro deve produzir apenas acordos pontuais, sem alterar a lógica de rivalidade estrutural entre China e Estados Unidos.
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