Polícia
Um mistério de quase três décadas. Este é o caso das "Crianças do Planalto", como ficou conhecido o desaparecimento de três meninos e duas meninas na Zona Oeste de Natal, considerado até hoje um dos episódios mais enigmáticos e perturbadores da crônica policial potiguar.
Os cinco sumiços aconteceram entre os anos de 1998 e 2001, quando as crianças foram levadas de dentro de casas humildes, enquanto dormiam. Não restaram vestígios, suspeitos identificados ou respostas para as famílias.
O caso chegou a ser reaberto em 2011, com repercussão nacional após a criação da CPI do Tráfico Nacional e Internacional de Pessoas, que passou a exigir a entrada da Polícia Federal nas investigações. A ideia foi dar novo fôlego a um inquérito marcado por arquivamentos sucessivos, mudanças de delegados e prazos expirados. Ao todo, 12 delegados passaram pelo caso.
À época, o vice-presidente da CPI, o então senador Paulo Davim (PV-RN), afirmou que o colegiado reforçaria o pedido de federalização do caso e não descartava o acionamento da Interpol.
"É um caso intrigante e capcioso. As famílias convivem com uma dúvida atroz: não sabem se seus filhos estão vivos ou mortos”, declarou.
Dos cinco casos, apenas Joseane estava acordada no momento do desaparecimento.
“Ela estava na casa da vizinha, assistindo o DVD do Tiririca”, relembra Lindalva Florêncio da Costa, mãe da menina.
Lindalva carrega uma história marcada por perdas e problemas de saúde, mas afirma que nenhuma dor se compara ao sumiço da filha.
“Meu coração diz que ela está viva, em algum lugar fora do país”, diz, entre lágrimas. Se estivesse viva, Joseane teria hoje 35 anos.
O pai da menina, o feirante Geraldo Santos, também se agarra à fé.
“Acredito que ela foi levada para um casal que não podia ter filhos. Nunca pensei que minha filha tivesse sido morta. Um dia ainda vamos nos reencontrar”, afirma.
Ao longo dos anos, mais de uma dezena de delegados da Polícia Civil do Rio Grande do Norte assumiu o inquérito. Em diversos momentos, o procedimento foi arquivado por falta de provas conclusivas.
Uma das possibilidades levantadas pela CPI era a utilização de tecnologia de envelhecimento facial para atualizar as imagens das crianças, na tentativa de facilitar reconhecimentos. As fotos chegaram a ser encaminhadas para um laboratório no Paraná, mas não houve confirmação oficial sobre a divulgação dos retratos.
Em 2014, a Polícia Civil apresentou, em coletiva de imprensa, a projeção de envelhecimento de uma das cinco crianças desaparecidas. A imagem mostrava, como deveria aparentar, com 23 anos, Joseane Pereira dos Santos. Quando sumiu, em janeiro de 1999, a garota tinha 8 anos.
Segundo a polícia, não foi possível projetar o rosto das outras quatro crianças em razão da pouca idade delas.
Ainda à época dos desaparecimentos, pouco se falava em tráfico de pessoas. Passados 28 anos, as linhas de investigação incluem adoção ilegal, exploração sexual, trabalho forçado e até tráfico de órgãos. O Rio Grande do Norte, segundo ficou apurado pela CPI, integra uma das mais de 240 rotas de tráfico de pessoas identificadas no país.
Dados mais recentes mostram que o problema dos desaparecimentos segue atual. Em 2020, o Governo do RN criou o Núcleo de Investigação Sobre Pessoas Desaparecidas (NIPD). Somente no primeiro semestre de 2023, foram registrados 303 casos no estado, número superior ao mesmo período do ano anterior.
Em 2025, a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social do Rio Grande do Norte fechou o ano com o registro de 845 desaparecimentos em seu banco de dados. Destes, houve a localização de 521 pessoas, restando 324 pessoas a serem encontradas.
A SESED informou que desenvolve um sistema para cruzamento de dados de pessoas desaparecidas e encontradas sem identificação. A ferramenta promete mais transparência e agilidade nas investigações.
Enquanto novas tecnologias surgem e estatísticas são atualizadas, o mistério das Crianças do Planalto permanece sem solução. Um silêncio que atravessa décadas, desafia autoridades e mantém famílias presas à esperança.
Em julho de 2024, a Polícia Civil do RN investigou um vídeo de uma mulher em situação de rua em São Paulo. A jovem se assemelhava à progressão de idade de Joseane Pereira dos Santos. No entanto, exames descartaram a identidade.
Em 2025, o caso das Crianças do Planalto foi tema de um documentário jornalístico para Trabalho de Conclusão de Curso. Maria Louise Germano Silva de Souza e Carllos Daniel Silva da Costa produziram "PEDAÇO DE MIM: O CASO PLANALTO" como requisito para obtenção do diploma de Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O Brasil registrou 23.919 casos de crianças e adolescentes desaparecidos em 2025. As informações constam no painel apresentado pelo SINESP (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), que usa dados enviados pelos estados do país.
O número de mais de 20 mil ocorrências representa 66 desaparecimentos de menores de 18 anos por dia, média 8% maior que a de 2024.
Segundo a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal, o tráfico de pessoas é um crime que movimenta cerca de US$ 32 bilhões por ano em todo o mundo, sendo considerado pela ONU como a terceira atividade ilegal mais lucrativa do planeta.
A Polícia Federal alerta que organizações criminosas envolvidas com o tráfico de drogas estão migrando para o tráfico de imigrantes.
Estima-se que existam 27 milhões de vítimas, entre elas pessoas sequestradas para remoção de órgãos, adoção ilegal, exploração sexual, entre outras formas de abuso.
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