Alugada no Lago Sul, área nobre de Brasília, uma casa de 497 metros quadrados se transformou em ponto estratégico de encontros políticos, tratativas empresariais e, segundo relatos obtidos pelo Estadão, até na montagem de um dossiê com informações falsas para influenciar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social (CPMI do INSS).
O imóvel foi alugado até dezembro de 2025 pelo ex-sócio da Fictor, Luiz Philippe Rubini, hoje credor da empresa em R$ 35 milhões. Investigada pela Polícia Federal e com dívidas que somam R$ 4 bilhões, a Fictor utilizava o espaço como base de operações em Brasília.
Com portão pintado de verde, cor da identidade visual da empresa, e rede de internet identificada como “Piscina Fictor”, a mansão virou palco de reuniões com parlamentares, ministros e dirigentes de estatais.
Tentativa de aproximação com Itaipu
Entre as investidas relatadas está a tentativa de aproximação com a Usina Hidrelétrica de Itaipu para gerir recursos da binacional. O consultor da Fictor, Felipe Alcântara, confirmou que houve agendamento técnico e troca de e-mails com o jurídico da estatal.
Pessoas que acompanharam a negociação afirmaram que a proposta previa a gestão de até R$ 1 bilhão em recursos de Itaipu. A iniciativa, segundo esses relatos, teria partido de Rubini.
A tratativa não avançou. Itaipu argumentou que, por impedimentos legais, os recursos só poderiam ser aplicados em bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.
Evento com ministros e dirigentes do PT
A mansão também sediou evento com a presença de lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT). Participaram o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, a então presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o diretor-geral de Itaipu, Ênio Verri.
Verri não quis se manifestar. Pessoas próximas confirmaram que ele esteve no local. Gleisi declarou que participou de encontro com integrantes da Fictor, mas afirmou que não ouviu nem discutiu qualquer proposta do grupo.
Alexandre Padilha afirmou que nunca participou de reuniões em que o tema da Fictor ou da gestão de recursos de Itaipu tenha sido tratado. Segundo Alcântara, após a repercussão do caso, petistas teriam se afastado da empresa.
A ofensiva na CPMI do INSS
Além das articulações empresariais, a casa foi usada, segundo depoimentos, para reunião envolvendo a CPMI do INSS. O foco era o advogado Eli Cohen, que denunciou fraudes bilionárias no INSS.
Cohen criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve embates com parlamentares governistas e passou a ser tratado por integrantes do PT como alinhado à oposição. Nesse contexto, surgiu a tentativa de produzir material para descredenciá-lo.
O ex-policial civil Rogério Giglio afirmou ao Estadão que foi pago por representantes da Fictor para gravar Cohen e produzir conteúdo falso. Ele diz que mentiu ao acusar o advogado de pedir R$ 5 milhões à oposição para depor contra o governo.
Reunião com Paulo Pimenta
Em 24 de setembro de 2025, Giglio foi levado à mansão para reunião com o deputado federal Paulo Pimenta, do PT-RS, então líder da bancada na CPMI do INSS.
Segundo Giglio e Alcântara, o parlamentar avaliou que as declarações eram graves, mas careciam de provas robustas. Ainda assim, o áudio gravado por Giglio foi utilizado posteriormente para pedir nova convocação de Cohen.
Paulo Pimenta confirmou presença no encontro, mas afirmou que não sabia que o imóvel era ligado à Fictor. Disse ainda que Alcântara não se apresentou como representante da empresa e que só consideraria relevante um depoimento formal à Polícia Federal.
Ofertas de dinheiro e versões conflitantes
Giglio relatou que foi procurado pelo advogado Renato de Matteo Reginatto, que teria oferecido trabalho de inteligência para a Fictor, com remuneração de até R$ 30 mil mensais por dois anos. Parte da tarefa seria reunir informações contra Cohen.
Ele afirma ter sido orientado a sustentar versão falsa em cartório. Reginatto nega ter oferecido emprego e diz que não pode comentar detalhes por dever de sigilo profissional. Rubini declarou, por nota, que deixou a Fictor em dezembro de 2024 e negou envolvimento nos fatos.
Felipe Alcântara admitiu ter prometido valores ao ex-policial. Segundo ele, ofereceu até R$ 50 mil mensais caso Giglio conseguisse comprovar irregularidades envolvendo Cohen. Também afirmou ter pago passagem para que ele fosse a Brasília.
Ascensão e queda da Fictor
A Fictor ganhou projeção nacional em novembro de 2025 ao anunciar acordo para compra do banco Master em consórcio com investidores dos Emirados Árabes Unidos. No dia seguinte, o banco foi liquidado, seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal, e a empresa passou a ser investigada.
Antes disso, a companhia era pouco conhecida no mercado financeiro, apesar de patrocinar o clube Palmeiras. Com a operação policial, vieram à tona dívidas bilionárias e suspeitas sobre sua atuação em Brasília.
Eli Cohen afirmou que, se confirmadas as narrativas, os fatos revelam quadro de extrema gravidade institucional, com fabricação de versões, coação de depoentes e tentativa de obstrução da Justiça. Ele defende apuração rigorosa e responsabilização dos envolvidos.