A operação policial nos complexos do Alemão e da Penha revelou uma realidade que o país evita encarar. É o que aponta o especialista Murillo de Aragão, advogado, jornalista, cientista político e palestrante. Para ele, não se trata de apenas mais um confronto, mas de incursões em áreas dominadas por facções que revidam com violência a ação do Estado.
Mesmo com o total de mortes ainda em confirmação, a natureza do episódio difere de casos como o do Carandiru. Aragão explica que no primeiro caso houve um massacre contra presos desarmados, situação distinta do enfrentamento entre agentes públicos e grupos criminosos fortemente armados no Rio de Janeiro.
Ao escancarar o domínio territorial de facções capazes de paralisar bairros inteiros, impor toques de recolher e interromper serviços essenciais, o episódio resgata uma constatação conhecida e ao mesmo tempo negligenciada no Brasil.
“Há zonas aonde o Estado chega apenas em expedições, sem continuidade, sem presença capaz de substituir o domínio armado por normalidade institucional”, observa Aragão.
O impacto direto recai sobre quem não dispõe de segurança privada, blindagem ou tecnologia para se proteger.
Murillo de Aragão também é professor adjunto da Columbia University (Nova York)
Segurança como política de Estado
A omissão prolongada do país diante desse poder paralelo vai além da violência armada. Aragão aponta que a legislação atual se mostra ultrapassada frente a uma criminalidade que evoluiu tecnologicamente.
Para ele, o tema deveria superar divergências ideológicas. A esquerda, diz o especialista, precisa considerar os mais vulneráveis, que convivem diariamente com o medo. Já a direita deve entender a segurança como política permanente, não discurso de palanque.
Sem essa convergência mínima, reforça Aragão, o debate se fragmenta em disputas tribais que apenas favorecem o crime. O especialista destaca que a fusão entre ilegalidades diversas cria um ambiente de risco ampliado no Brasil.
“A fusão entre fuzil e planilha, milícia e sistema financeiro ilegal prospera à sombra do país paralisado”, afirma.
Combate exige coordenação permanente
Até mesmo países desenvolvidos convivem com o crime organizado, mas, segundo Aragão, a diferença está na postura firme de governos, sociedade e agentes econômicos.
Investimentos em prevenção baseada em evidências, metas públicas claras e fronteiras mais protegidas fazem parte de estratégias contínuas adotadas internacionalmente.
No Brasil, o caminho ainda envolve a construção de um pacto duradouro contra a violência, sem bravatas e sem interrupções. Somente com integração entre polícias, Justiça e políticas sociais será possível estender a presença efetiva do Estado para territórios hoje dominados pelo medo.
“A lei precisa voltar a ser regra, e não exceção, no território nacional”, conclui Murillo de Aragão.