Geral
por José Nilton Jr.
Publicado em 09/02/2026, às 15h47
Os medicamentos que utilizam GLP-1 inauguraram uma nova etapa no combate à obesidade e, em pouco tempo, transformaram profundamente a forma como a perda de peso é encarada. Substâncias como semaglutida e tirzepatida, conhecidas por nomes comerciais como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound (canetas emagrecedoras), deixaram de ser restritas ao tratamento do diabetes.
Uma pesquisa da Kaiser Family Foundation, divulgada em novembro do ano passado, mostrou que um em cada oito adultos nos Estados Unidos já usou algum medicamento com GLP-1 para emagrecer, tratar diabetes ou outra condição de saúde. A tendência é de crescimento, sobretudo após o Wegovy passar a ser oferecido em versão comprimido, o que amplia o acesso.
O impacto desses fármacos está diretamente ligado à sua eficácia. A capacidade de promover uma redução de 15% a 20% do peso corporal colocou os GLP-1 entre as estratégias não cirúrgicas mais eficientes já disponíveis contra a obesidade.
O GLP-1 é o chamado peptídeo semelhante ao glucagon-1, um hormônio produzido naturalmente no intestino após as refeições. Ele atua regulando os níveis de glicose no sangue e o apetite, estimulando a liberação de insulina pelo pâncreas e retardando o esvaziamento do estômago, o que gera sensação de saciedade mais rápida e prolongada.
Os medicamentos modernos potencializam esse mecanismo natural. Como resultado, muitos pacientes alcançam melhor controle glicêmico e perda de peso significativa, algo que antes era difícil de obter apenas com mudanças de estilo de vida.
O sucesso, porém, trouxe novas dúvidas. Milhões de pessoas passaram a se perguntar o que acontece depois que o peso é perdido e, principalmente, como agir quando o emagrecimento para mesmo com o uso contínuo do medicamento.
Do ponto de vista clínico, a terapia com GLP-1 pode ser transformadora, mas ela não substitui os pilares básicos da saúde. Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios, sono adequado e cuidado com a saúde mental continuam sendo essenciais para preservar massa muscular e óssea, evitar o reganho de peso e manter a saúde cardiovascular e metabólica no longo prazo.
Qualquer estratégia de emagrecimento precisa ser individualizada. Não existe um plano único que funcione da mesma forma para todas as pessoas, mesmo com medicamentos altamente eficazes.
Estudos já realizados desde a metade do século 20 demonstram que o reganho de peso a longo prazo é comum após dietas e programas de emagrecimento. O motivo está na chamada adaptação metabólica.
Quando o corpo perde peso, o cérebro reage aumentando a liberação de grelina, o hormônio da fome, e reduzindo a leptina, que sinaliza saciedade. Ao mesmo tempo, o organismo passa a gastar menos energia, tornando-se mais eficiente do ponto de vista metabólico.
Na prática, a pessoa sente mais fome, se satisfaz menos com as refeições e queima menos calorias do que antes. Somado a um ambiente dominado por alimentos ultraprocessados, porções grandes, estresse elevado e pouco tempo para atividade física, o retorno do peso perdido torna-se um risco constante.
Ensaios clínicos com medicamentos à base de GLP-1 seguem um padrão claro. Um dos mais conhecidos, o estudo STEP 1, publicado em 2021 e realizado com mais de 1.900 adultos, consolidou o uso da semaglutida para emagrecimento.
Já o estudo STEP 4 trouxe um alerta importante. Após interromperem o uso do medicamento, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido em até 48 semanas. Em contrapartida, aqueles que continuaram o tratamento seguiram emagrecendo ou mantiveram o peso.
Embora a obesidade seja reconhecida como uma doença crônica, muitas diretrizes médicas ainda estão se ajustando à realidade dos GLP-1. Para boa parte dos pacientes, a estratégia mais eficaz para manter o peso é continuar o medicamento na menor dose capaz de controlar o apetite e estabilizar o peso.
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