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Apostas Online: Saúde Pública em Debate no Brasil

Imagem Apostas Online: Saúde Pública em Debate no Brasil
A decisão do governo Lula sobre apostas online levanta questões sobre saúde pública, endividamento e responsabilidade social no Brasil.  |   BNews RN - Divulgação
Anna Paula Andrade

por Anna Paula Andrade

Publicado em 26/09/2026, às 11h00



  As bets deixaram de ser apenas uma discussão sobre apostas esportivas. Com a decisão recente do governo Lula de proibir as apostas online, o Brasil volta a discutir jogos de azar, dependência, publicidade, endividamento e os limites da responsabilidade do Estado. Dados da OMS e da pesquisa Atlas/Bloomberg mostram por que as bets são também uma questão de saúde pública.

  Existe uma discussão que o Brasil precisa ser capaz de fazer sem torcida organizada: as bets não deveriam ser uma bandeira de esquerda ou de direita.

  A discussão sobre apostas online, jogos de azar e bets deveria começar por uma pergunta mais importante: o que acontece quando uma atividade econômica é desenhada para explorar mecanismos conhecidos do comportamento humano e colocada dentro do celular de milhões de brasileiros, 24 horas por dia?

  A ciência oferece algumas respostas.

Bets e dependência: o que diz a OMS

  A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o transtorno do jogo entre os transtornos relacionados a comportamentos adictivos. Para a OMS, o problema envolve perda de controle sobre o jogo, prioridade crescente dada às apostas e continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.

  A questão é importante porque a dependência em apostas não pode ser reduzida à ideia de falta de disciplina.

  O comportamento de apostar envolve mecanismos relacionados à recompensa, à tomada de decisão e à expectativa de ganhos. Nas apostas online, esses mecanismos encontram uma plataforma especialmente acessível: o jogador pode apostar sozinho, pelo celular, a qualquer hora e de praticamente qualquer lugar.

  Segundo a OMS, aproximadamente 1,2% dos adultos no mundo apresentam transtorno do jogo. A organização também estima que, para cada pessoa que joga em níveis de alto risco, outras seis pessoas podem ser afetadas, geralmente familiares ou pessoas próximas que não apostam.

  Isso significa que o impacto das bets não termina no apostador. Ele pode chegar à família, normalmente chega ao orçamento doméstico, à saúde mental, o que consequentemente chega às relações pessoais, forma de alimentação, moradia e  educação.

  A OMS relaciona os danos associados ao jogo a problemas financeiros, pobreza, sofrimento psicológico, conflitos familiares, violência, negligência de crianças e suicídio. É justamente por isso que tratar as bets apenas como entretenimento é insuficiente.

Apostas online e a promessa de renda fácil

  Outro problema aparece quando as bets são apresentadas como forma de ganhar dinheiro. A propaganda transforma a aposta em diversão, oportunidade, pertencimento e, muitas vezes, em promessa de mudança de vida. Mas uma aposta não é investimento, e apostar não é uma estratégia de renda.

  O modelo econômico das casas de apostas depende de uma vantagem matemática para o operador. Isso não significa que a banca ganhe todas as apostas. Significa que, no conjunto das apostas e ao longo do tempo, a empresa precisa manter uma margem que permita a existência do negócio.

Por isso, a pergunta deveria ser: por que uma atividade cujo modelo depende da perda dos apostadores passou a ser apresentada como uma possibilidade de complementar a renda familiar? A resposta da população brasileira parece bastante clara.

Pesquisa Atlas/Bloomberg mostra rejeição às bets

A pesquisa Atlas/Bloomberg sobre bets, divulgada em setembro de 2026, mostra que a preocupação com as apostas online não está restrita a um grupo político. Segundo a pesquisa, 75% dos brasileiros são favoráveis à proibição das bets: 71% concordam totalmente e 4% concordam parcialmente.

O levantamento também mostra que 79% defendem limites para a publicidade das bets. Mais expressivo ainda: 88% discordam da ideia de que apostas sejam uma forma válida de complementar a renda familiar.

Os números ajudam a compreender que o debate sobre proibição das bets no Brasil não pode ser tratado apenas como uma disputa entre governo e oposição. Existe uma preocupação social mais ampla com os efeitos das apostas online.

A pesquisa também encontrou diferenças entre grupos demográficos. O apoio à proibição foi maior entre mulheres, pessoas que se identificam como de esquerda, pessoas com ensino superior e moradores do Centro-Oeste.

Essas diferenças descrevem o perfil das respostas encontradas pela pesquisa; não transformam a questão das bets em propriedade de qualquer campo político.A Atlas/Bloomberg possui uma amostra de 5.015 entrevistados e utiliza a metodologia de recrutamento digital aleatório (Atlas RDR). A margem de erro é de 1 ponto percentual para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. As respostas foram coletadas entre os dias 17 e 22 de setembro, e a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo código BR-04739/202

Bets, publicidade e comportamento humano

A publicidade das apostas online é uma parte central desse debate. Durante os últimos anos, as bets passaram a ocupar espaços importantes no futebol, nas redes sociais, na publicidade digital e no entretenimento. Influenciadores e celebridades passaram a apresentar as apostas para públicos que, muitas vezes, não tinham contato anterior com esse tipo de atividade.

A OMS alerta justamente para o efeito da comercialização e da normalização dos jogos de azar. Quanto mais o jogo aparece associado a esporte, diversão, sucesso e vida cotidiana, mais ele deixa de ser percebido como uma atividade de risco.

Esse ponto é especialmente relevante quando falamos de jovens. Uma criança não precisa necessariamente apostar para ser impactada pelas bets. Ela pode crescer em um ambiente no qual apostas esportivas são apresentadas como parte natural do futebol, do entretenimento e da cultura digital.

Por isso, a discussão sobre publicidade de bets não é apenas uma discussão comercial. É também uma discussão sobre formação de comportamento.

O que muda com a proibição das bets anunciada por Lula?

  Em 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online.

  É importante dizer corretamente: trata-se de uma Medida Provisória, e não de uma lei aprovada definitivamente pelo Congresso. A medida produz efeitos imediatos, mas ainda precisa seguir o processo legislativo para permanecer definitivamente em vigor. A decisão representa uma mudança significativa porque o próprio Brasil havia escolhido recentemente outro caminho: o da regulamentação das bets.

Agora, o país tenta fazer o caminho inverso. A proibição das apostas online também cria desafios. Fechar o mercado legal não significa necessariamente eliminar a demanda por apostas. Parte dos usuários pode tentar migrar para plataformas clandestinas, o que aumenta a importância da fiscalização, do bloqueio de sites ilegais e do controle dos meios de pagamento.

Esse será um dos grandes testes da política pública.

A proibição das bets resolve o problema?

  Essa é uma pergunta que precisa ser respondida com cautela, como quase tudo nesse debate. A proibição das bets pode reduzir a exposição legal e publicitária às apostas online, mas não elimina automaticamente o comportamento de apostar.

Se houver demanda, pode haver mercado ilegal. Por isso, uma política de combate aos danos causados pelas apostas precisa envolver mais do que simplesmente retirar aplicativos do ar.

É necessário pensar em fiscalização, prevenção, tratamento da dependência em apostas, educação financeira, proteção de crianças e adolescentes, controle de publicidade e acompanhamento das famílias afetadas.

A própria OMS recomenda políticas de proteção que incluem restrições à publicidade, mecanismos de autoexclusão, limites de apostas e perdas, identificação dos jogadores e fiscalização efetiva.

As bets não são apenas uma questão política

Existe uma profunda crise ética quando uma sociedade precisa transformar um problema de saúde pública em uma disputa partidária.

Bets não são de esquerda. Bets não são de direita. Apostas online são uma atividade econômica. E seus efeitos podem ser estudados pela psicologia, pela neurociência, pela economia, pela saúde pública e pelas ciências sociais.

É perfeitamente possível reconhecer que o governo Lula tomou uma decisão política controversa sem transformar essa decisão em uma disputa de torcida.

Também é possível reconhecer que as bets podem produzir danos sem defender que toda pessoa que aposta seja dependente. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

O Brasil precisa fazer esse debate com menos paixão partidária e mais evidências. Porque o problema não é alguém apertar o botão “apostar” uma vez.

O problema aparece quando uma indústria transforma a expectativa de uma recompensa incerta em produto permanente, disponível no bolso de milhões de pessoas, associando bets, dinheiro fácil, esporte, entretenimento e sucesso.

E quando os custos dessa aposta chegam à família, à renda, à saúde mental e à vida cotidiana de outras pessoas, já não estamos falando apenas de uma escolha individual.

Estamos falando de uma questão coletiva.

Classificação Indicativa: Livre

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