Cidades
por Lavínia Manso
Publicado em 23/07/2026, às 09h22
O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP) contra o Município de Natal e a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) para cobrar medidas diante de um passivo de R$ 41.735.174,96 acumulado no setor cultural. A ação, proposta pela 49ª Promotoria de Justiça de Natal, busca regularizar o pagamento de cachês, garantir o cumprimento de emendas parlamentares impositivas e ampliar a transparência sobre os credores e os pagamentos pendentes.
A investigação começou após denúncias apresentadas por produtores culturais, artistas locais e parlamentares. Os relatos apontaram problemas como a ausência de editais democráticos para cadastramento e fomento, a falta de transparência na ordem cronológica de pagamentos e o não repasse de recursos previstos em emendas parlamentares impositivas.
Entre as medidas solicitadas à Justiça está a divulgação de uma lista cronológica e unificada dos credores, além da elaboração de um cronograma para o pagamento dos valores em atraso. O MPRN também pede a apresentação de um planejamento específico para a publicação de editais durante o exercício de 2026.
A apuração realizada pela 49ª Promotoria de Justiça de Natal contou com dois relatórios contábeis elaborados pelo Laboratório de Orçamento e Políticas Públicas do Ministério Público do Rio Grande do Norte (Lopp/MPRN). Um dos documentos analisou a execução orçamentária da Funcarte em 2025 e identificou forte concentração dos recursos em eventos.
Segundo o levantamento, 96,3% dos recursos empenhados pela fundação para festividades foram destinados à realização de eventos, o equivalente a R$ 60,6 milhões. Em contrapartida, a política de editais recebeu R$ 2,34 milhões.
O segundo relatório detalhou a composição do passivo e os valores referentes às emendas parlamentares. A análise identificou que R$ 7.585.809,75, correspondentes a 18,18% do débito total, estão relacionados a emendas parlamentares impositivas que não foram pagas pela Funcarte e pela Secretaria Municipal de Cultura de Natal.
A maior parcela do passivo, R$ 34.149.365,21, equivalente a 81,82% do total, corresponde a liquidações operacionais da Funcarte com serviços atestados, mas ainda pendentes de pagamento.
Dentro desse montante, 79,04% estão relacionados a contratos de valores elevados. Outros 17,41% correspondem a despesas decorrentes de dispensas de licitação, enquanto 3,55% são obrigações de menor valor devidas a produtores culturais e artistas.
Na ação, o Ministério Público afirma que a falta de transparência sobre a ordem de pagamentos, associada à concentração de recursos em festividades, contribui para a retenção de valores devidos a credores e para o descumprimento de normas orçamentárias e da legislação municipal.
Além da divulgação da lista unificada de credores, a 49ª Promotoria de Justiça de Natal solicita que a Prefeitura de Natal apresente um plano estruturado para quitar os débitos. A proposta deve estabelecer prioridade para obrigações de menor valor e para o pagamento das emendas parlamentares impositivas.
O MPRN também requer que o Município apresente um planejamento detalhado para a publicação de editais culturais ao longo de 2026, com o objetivo de fortalecer mecanismos de fomento e ampliar a transparência na distribuição dos recursos.
Em caráter liminar, o órgão pede ainda que a Justiça determine a suspensão de novas contratações por inexigibilidade com cachês individuais superiores a R$ 500 mil até que o passivo do setor cultural seja regularizado.
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