Política
Publicado em 29/03/2026, às 06h00 Imagem criada por Inteligência Artificial Bnews Natal
Allyson Bezerra (União Brasil) enfrenta um dos momentos mais delicados de sua trajetória política. Após renunciar ao cargo de prefeito de Mossoró para disputar o governo do estado nas eleições deste ano, ele se vê no epicentro de investigações, denúncias e acusações. Sem foro privilegiado, benefício que o mandato lhe conferia, ele agora está mais exposto que nunca às apurações da Polícia Federal.
Estamos falando da Operação Mederi, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação apura um suposto esquema de corrupção envolvendo recursos na área da saúde pública de Mossoró e região. A ofensiva ocorreu na manhã do dia 27 de janeiro, quando agentes federais e da Controladoria-Geral da União (CGU) cumpriram mandados de busca e apreensão na residência do ex-prefeito. No local, foram recolhidos celulares, computadores, HDs e outros materiais considerados relevantes para o processo.
Segundo a investigação, Allyson estaria "no topo" da suposta estrutura criminosa. Áudios interceptados indicariam que ele seria beneficiário de um esquema de propina de até 15% sobre pagamentos realizados pela Prefeitura à empresa DisMed Distribuidora de Medicamentos. Os valores desviados, de acordo com as investigações, poderiam ter sido utilizados em campanhas eleitorais.
Nos bastidores da política potiguar, a renúncia de Allyson ao cargo de prefeito é vista como um movimento de alto risco. Ao deixar o mandato para disputar o Governo do Estado, ele perde o chamado foro privilegiado — mecanismo que define instâncias superiores para julgamento de autoridades.
Sem essa prerrogativa, decisões relacionadas à Operação Mederi podem sair do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), em Recife, e passar a tramitar na Justiça Federal de primeira instância no Rio Grande do Norte, o que, na avaliação de especialistas, pode acelerar o andamento dos processos.
Mesmo diante do cenário, Allyson tem sinalizado que manterá o projeto político. Em suas redes sociais, afirmou que seguirá como pré-candidato ao governo estadual e iniciará, a partir deste final de semana, uma agenda de viagens pelo Rio Grande do Norte para ampliar sua base eleitoral.
O ex-prefeito conta com o apoio da federação União Progressistas -- formada pelos partidos União Brasil e Partido Progressista -- e pelas legendas Partido Social Democrático (PSD), Solidariedade e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O vice-governador Walter Alves (MDB), rompido politicamente com a governadora Fátima Bezerra (PT), indicou o deputado estadual Hermano Morais (MDB) como candidato a vice na chapa.
A seguir, conheça as principais denúncias e investigações que pesam contra Allyson:
A Operação Mederi é a investigação de maior impacto. Deflagrada em janeiro, apura suspeitas de fraude em licitações e desvio de recursos públicos destinados à saúde.
A investigação ganhou repercussão após apontar indícios de irregularidades que teriam ligação direta com a Prefeitura de Mossoró.
Em uma das transcrições colocadas na decisão judicial, dois empresários explicam o que chamam de "Matemática de Mossoró". Na conversa, eles citam um possível pagamento de propina ao então prefeito Allyson Bezerra. Na transcrição do áudio captado em uma das empresas investigadas, os empresários citam um contrato em Mossoró com uma ordem de compra de R$ 400 mil e que, desse total, R$ 200 mil dos produtos seriam entregues oficialmente. Dos R$ 200 mil que não seriam entregues, R$ 100 mil seriam de propina, sendo R$ 60 mil para Allyson (o que significa 15% do total do contrato), R$ 70 mil de comissão dos sócios e R$ 30 mil seriam das empresas.
Na decisão, o desembargador federal Rogério Fialho Moreira diz que os trechos revelam um esquema montado para o recebimento de propina. Allyson Bezerra e Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, até então seu vice, estariam "no topo do esquema". Allyson e Marcos Medeiros negam tudo.
Em outro trecho captado pela investigação, um dos empresários diz que Allyson tenta manter o esquema em sigilo no âmbito municipal. O investigado chega a debochar do gestor. "ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não".
No dia 10 de março a gestão do então prefeito Allyson voltou ao centro de questionamentos envolvendo contratos da área da saúde. Desta vez, a denúncia foi protocolada no Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN), apontando possíveis irregularidades em um processo licitatório da Secretaria Municipal de Saúde.
A representação foi feita pela empresa TM Soluções Integradas EIRELI. O documento questiona o Pregão Eletrônico nº 07/2025, aberto pela Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró, e cujo processo licitatório tem como finalidade contratar serviços de engenharia clínica e manutenção de equipamentos médico-hospitalares utilizados na rede municipal.
Segundo a denunciante, diversas concorrentes foram desclassificadas ao longo da disputa sob justificativas relacionadas a documentos e planilhas. A empresa sustenta que tais exigências não estariam previstas no edital, o que teria restringido a concorrência.
Após a reeleição de Allyson, em 2024, o Ministério Público Eleitoral abriu investigação por suposto abuso de poder político, econômico e midiático. Embora o caso tenha sido arquivado em primeira instância, houve recurso da decisão. O MPE-RN opina pela quebra de sigilo fiscal das agências de publicidade que trabalham para Allyson.
O MPE também pede perícia técnica em conteúdo publicitário. A investigação foi dividida em três núcleos: contábil financeiro, conteúdo (abuso de poder político) e engajamento digital (impacto e gravidade).
As investigações podem apontar, conforme a denúncia inicial, para uso do dinheiro público e uso de influenciadores e blogueiros para potencializar a candidatura do ex-prefeito, além da existência de Caixa 2 (com gastos eleitorais não declarados) e falsidade e emissão de notas fiscais com objetos genéricos de forma a esconder serviços de propaganda política. A ação tramita na 33ª Zona Eleitoral de Mossoró.
Denúncias anônimas passaram a ser apuradas pelo Ministério Público Estadual em março de 2024. O caso também está sob análise do Ministério Público Federal. As instituições investigam possíveis irregularidades em contratos e procedimentos da Prefeitura de Mossoró, com a cobrança de propinas ligadas a contratos de obras. O pagamento ilegal chegaria a 26% do valor das obras, sendo destinados 4% somente para o então prefeito Allyson Bezerra.
Recentemente, o Ministério Público de Contas do Rio Grande do Norte recomendou a desaprovação das contas de 2023 da Prefeitura de Mossoró, sob a gestão do prefeito Allyson Bezerra. O parecer, encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), aponta indícios de irregularidades que podem configurar atos de improbidade administrativa.
Entre os problemas destacados pelo procurador Ricart César Coelho dos Santos estão falhas na execução orçamentária, inconsistências em demonstrativos contábeis e a abertura de créditos suplementares acima do limite legal autorizado pela Câmara Municipal.
Allyson Bezerra nega todas as acusações. O ex-prefeito afirma que sua gestão sempre colaborou com os órgãos de controle e destaca medidas adotadas para garantir transparência, como a implantação do Sistema Hórus para controle de medicamentos, oficializado por decreto em 2023.
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