Polícia
Publicado em 13/09/2026, às 06h00 MPRN Anderson Barbosa
O combate à criminalidade não é uma tarefa exclusiva das forças de segurança. Embora policiais civis e militares estejam na linha de frente da prevenção, investigação e repressão aos crimes, o Ministério Público Estadual exerce papel fundamental para que esse trabalho avance e resulte na responsabilização dos envolvidos.
No Rio Grande do Norte, a atuação do Ministério Público -- em especial por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) -- tem sido decisiva. Mais do que prender criminosos, o enfrentamento aos delitos exige operações com investigação qualificada e produção de provas.
Importante destacar que o MPRN, juntamente com a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Secretaria de Estado da Fazenda (SEFAZ) e Secretaria de Tributação (SET), integram o Grupo de Atuação Especial de Combate à Sonegação Fiscal (GAESF), que também vem atuando de forma insisiva para combater fraudes fiscais, sonegação de tributos e lavagem de dinheiro.
Somente este ano, segundo levantamento realizado pelo BNews RN no portal do MPRN, foram 26 grandes operações deflagradas em território potiguar. Juntas, elas somam 173 buscas e 45 prisões.
A mais recente aconteceu na manhã desta sexta-feira (11), com a Operação Catálise. A ação cumpriu mandados de busca e apreensão em Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e João Câmara.
Segundo o MP, as investigações apontam para um forte esquema de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, associação criminosa e falsidade documental envolvendo uma rede de lojas de autopeças. A rede teria utilizado um esquema de fracionamento de faturamento para ocultar a movimentação financeira do grupo econômico.
Participaram dos cumprimentos dos mandados 13 promotores de Justiça, 56 servidores do MPRN, quatro delegados e 24 agentes de Polícia Civil, 30 servidores da Secretaria da Fazenda e 56 policiais militares, totalizando mais de 180 profissionais.
Foram apreendidos documentos, mídias digitais, computadores, telefones celulares, equipamentos eletrônicos, dinheiro, armas e munições, além do sequestro e bloqueio de um prédio comercial avaliado em R$ 6 milhões situado no bairro Dix-Sept Rosado, na capital potiguar.
A operação também possibilitou a identificação de um fluxo de sonegação e movimentações suspeitas que ultrapassa a cifra de R$ 2,8 milhões reinjetados na empresa líder, além da blindagem fraudulenta de imóvel milionário.
Com base no volume de recursos financeiros movimentados e fraudados pelos grupos criminosos, o BNews RN listou as três maiores operações realizadas pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte somente este ano. São elas:
Operação Conto da Sorte
Deflagrada no dia 18 de junho. Coordenada pelo MPRN, ocorreu simultaneamente nos estados de Pernambuco, São Paulo e Ceará. O objetivo foi colher provas sobre um esquema de exploração irregular de apostas de quotas fixas e jogos de azar na internet, as chamadas bets. A investigação que resultou na operação teve atuação conjunta da Receita Federal.
As investigações apontam que o grupo utilizava como âncora o órgão Lotseridó, criada pela Prefeitura de Bodó, no RN, para dar aparência de legalidade a dezenas de plataformas de apostas online em âmbito nacional.
Seis promotores de Justiça e 19 servidores dos MPs do RN e de Pernambuco, 16 policiais civis, 12 policiais militares e 10 servidores do Ministério da Fazenda acompanharam o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra sete pessoas físicas e seis pessoas jurídicas em imóveis residenciais e comerciais.
As pessoas entravam nos golpes induzidas a erro por meio de artifícios digitais. O grupo realizava a invasão de sistemas de computadores de órgãos públicos e injetava códigos em páginas de boa reputação, como sites com finais “.gov.br” e “edu.br”. Essa adulteração criava arquivos de indexação forjados que direcionavam o robô de buscas da internet e os usuários para os sites ilegais de apostas, transmitindo uma falsa credibilidade.
O grupo apresentou um crescimento patrimonial expressivo e movimentou grandes volumes de recursos financeiros. A própria Prefeitura de Bodó demonstrou em manifestações públicas que as empresas arrecadaram cerca de R$ 415 milhões em apenas 10 meses de funcionamento, gerando um repasse de R$ 8,3 milhões para os cofres municipais. Além disso, uma das empresas envolvidas obteve créditos de R$ 4,6 bilhões no ano de 2025.
Operação Emirados
Data de 23 de junho. A missão foi apurar crimes de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, associação criminosa e falsidade ideológica. A investigação identificou um esquema estruturado para obter vantagens financeiras ilegais em prejuízo dos cofres públicos.
O trabalho apontou ainda que os envolvidos utilizavam mecanismos para esconder bens e valores obtidos por meio de ilícitos fiscais.
Além do mandado de prisão, a operação cumpriu 33 mandados de busca e apreensão pessoal e domiciliar contra os alvos. Também foram aplicadas 75 medidas cautelares diversas da prisão. Os mandados foram cumpridos nas cidades potiguares de Natal, Parnamirim e São Gonçalo do Amarante.
No âmbito patrimonial, a Justiça determinou o sequestro de 18 imóveis e de uma lancha, com o objetivo de assegurar eventual reparação dos danos e impedir a dissipação do patrimônio investigado. Ao todo, 4 promotores de Justiça, 9 servidores do MPRN e mais de 120 policiais civis, entre delegados e agentes. Nove auditores fiscais integrantes da Secretaria da Fazenda (Sefaz) também participaram da ação. Na casa do chefe do esquema, foram apreendidos mais de R$ 90 mil, dólares e euros em espécie, joias, documentos, celulares e computadores.
Também ficou constatado que as empresas vinculadas ao grupo econômico acumulavam juntas um passivo tributário global de quase R$ 73 milhões inscritos na Dívida Ativa do Estado do Rio Grande do Norte. Do total sonegado, duas distribuidoras de alimentos respondiam pelas maiores fatias da dívida fiscal.
Um dos fatos que motivou a abertura de uma linha de investigação específica foi a compra de um carro importado de luxo avaliado em cerca de R$ 800 mil. O veículo foi registrado em nome de um funcionário que exercia a função de auxiliar de contabilidade e contador com uma remuneração inferior a R$ 2.000,00. O mesmo funcionário também aparecia como comprador formal de uma residência de alto padrão em um condomínio fechado no valor declarado de R$ 2,5 milhões.
Operação Oxigênio Financeiro
Foi deflagrada no dia 27 de agosto. A missão foi desarticular um esquema de lavagem de dinheiro alimentada por recursos desviados da atenção domiciliar (home care). Os investigados usavam dinheiro público desviado para comprar estabelecimentos comerciais e constituir empresas de blindagem patrimonial.
Foi apurado que o patrimônio erguido ilegalmente financiou uma cafeteria, um salão de beleza, uma clínica popular e firmas para proteção de bens. O dinheiro lavado era obtido por meio dos crimes de falsidade ideológica e fraude em contratação pública.
O grupo utilizava laudos médicos superdimensionados para obter decisões judiciais de urgência e apresentava orçamentos combinados entre empresas parceiras, pertencentes ao mesmo grupo familiar. Com essa simulação de disputa de preços, o grupo monopolizava os contratos, ocasionando o desvio de mais de R$ 37 milhões do Estado e do Município de Natal. Os recursos das decisões judiciais alimentavam a rede mantida pelos líderes da organização criminosa.
A estrutura contava com o suporte de um advogado, um contador e gerentes administrativos para operacionalizar os pagamentos e mascarar as contas.
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