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Negócios

Economia do RN cresce acima do Brasil, mas perde força e acende alerta para próximos meses

Apesar do crescimento de 1,7%, RN enfrenta desaceleração econômica em comparação ao Nordeste e Brasil  |  © Paulo Pinto/Agência Brasil

Publicado em 08/09/2026, às 15h28   © Paulo Pinto/Agência Brasil   Giovana Gurgel

A economia do Rio Grande do Norte cresceu 1,7% nos 12 meses encerrados em junho de 2026, resultado superior ao avanço de 1,5% registrado no Brasil, mas abaixo dos 2,4% do Nordeste. O desempenho coloca o Estado na terceira posição entre os cinco estados nordestinos analisados, mas também revela uma perda de ritmo que pode aumentar a pressão sobre a atividade econômica nos próximos meses.

O resultado faz parte de levantamento elaborado pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), área de pesquisas do Banco do Nordeste. Na comparação regional, o RN ficou atrás de Pernambuco, que registrou expansão de 3,1%, e Maranhão, com 2,2%. Ceará, com 1,6%, e Bahia, com 1,5%, apresentaram taxas inferiores à potiguar.

Apesar de permanecer acima da média brasileira, o desempenho do Estado ocorre em um cenário de desaceleração. A atividade econômica nordestina chegou a apresentar crescimento acumulado de 2,8% em março e abril, mas recuou para 2,6% em maio e 2,4% em junho. No Brasil, a perda de velocidade foi ainda mais evidente: o indicador passou de 2,2% em janeiro para 1,5% no encerramento do primeiro semestre.

Comércio segura resultado

Um dos principais motores do desempenho potiguar está no comércio. O volume de vendas do varejo do RN cresceu 5,9% nos 12 meses encerrados em junho, muito acima da média nacional, de 1,6%. Com esse resultado, o Estado registrou o segundo maior crescimento do setor entre os estados nordestinos considerados no levantamento, ficando atrás apenas de Pernambuco, que avançou 6,1%.

O desempenho acumulado, porém, esconde uma mudança recente no ritmo das vendas. De acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o varejo potiguar recuou 0,1% em junho na comparação com maio, já considerados os efeitos sazonais. Foi a terceira queda mensal consecutiva.

Mesmo com a sequência negativa no curto prazo, o comércio ainda apresentou crescimento expressivo no balanço do primeiro semestre. Entre janeiro e junho, as vendas acumularam alta de 4,5% em relação ao mesmo período de 2025. A diferença entre os números de curto e longo prazo mostra que o desempenho acumulado ainda é sustentado pelos resultados obtidos anteriormente.

Entre as atividades comerciais que registraram crescimento no cenário nacional estão os segmentos de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos, com alta de 4,4%; equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, com 3,7%; veículos, motocicletas, partes e peças, com 3,3%; e móveis e eletrodomésticos, com 2,4%.

Na outra ponta, tecidos, vestuário e calçados apresentaram retração de 1,4%, enquanto o comércio de materiais de construção caiu 0,1%. O comportamento desses segmentos ajuda a explicar como o consumo pode reagir de maneiras diferentes ao ambiente econômico, principalmente diante de crédito mais caro e maior cautela das famílias.

Indústria aparece como aposta 

O cenário reforça a necessidade de ampliar a participação de atividades capazes de sustentar o crescimento para além do consumo. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do RN (Fiern), Roberto Serquiz, a indústria de transformação e setores ligados aos recursos naturais têm potencial para ampliar as bases da economia potiguar.

“A indústria de transformação vem apresentando um crescimento gradual e, quando olhamos para o potencial dos nossos recursos naturais, destacamos as energias renováveis, o petróleo, a mineração, a pesca, a fruticultura e o sal”, afirma Serquiz.

As atividades citadas possuem diferentes características e podem movimentar cadeias produtivas distintas. Energia, petróleo e mineração exigem investimentos elevados e planejamento de longo prazo. Já segmentos como fruticultura, pesca e indústria de transformação podem gerar impactos sobre fornecedores, transporte, processamento, comércio e mercado de trabalho.

Segundo Serquiz, a expansão dessas áreas também depende das condições oferecidas pelo poder público.

“O desenvolvimento desses setores depende também da capacidade do Estado de atender às suas demandas e criar as condições necessárias para que possam avançar”, afirma.

O presidente da Fiern aponta segurança jurídica, funcionamento das instituições e agilidade do poder público como fatores importantes para atrair e manter investimentos. “Para que o crescimento seja estável, é preciso compreender que essa condição não depende apenas do setor privado”, diz.

Na avaliação de Serquiz, empresas precisam encontrar um ambiente capaz de dar previsibilidade aos investimentos. “Apoio, segurança jurídica, agilidade e cumprimento de suas responsabilidades institucionais” estão entre os fatores necessários para que os setores produtivos consigam avançar.

Juros elevados 

A indústria aparece justamente como um dos pontos de atenção. No Brasil, o setor apresentou crescimento de apenas 0,7% no acumulado de 12 meses até junho, segundo o estudo do Etene. O desempenho ficou abaixo do registrado por serviços e agropecuária.

Para o RN, a expansão de segmentos ligados às energias renováveis, petróleo, mineração e produção de alimentos pode ajudar a criar uma economia menos dependente do comportamento do consumo. A diversificação também tende a aumentar o número de setores capazes de gerar emprego, renda e demanda por serviços e fornecedores locais.

Outro fator que pode influenciar o desempenho daqui para frente é o custo do crédito. Juros elevados dificultam principalmente compras financiadas e investimentos de maior valor, o que pode afetar tanto consumidores quanto empresas. A evolução do emprego e da renda também será determinante para definir a capacidade das famílias de manter o ritmo de consumo.

O indicador utilizado no estudo é o IBC, acompanhado mensalmente pelo Banco Central. A medida funciona como uma espécie de sinalizador antecipado do nível de atividade e não substitui o PIB, calculado pelo IBGE.

De acordo com o pesquisador do Etene e autor do estudo, Biagio de Oliveira Mendes Junior, os dados disponíveis não permitem identificar diretamente quais setores foram responsáveis pelos 1,7% de crescimento registrado no Estado. Segundo ele, isso ocorre em razão da escassez de dados e da demora na análise.

A leitura conjunta de outros indicadores, entretanto, permite observar que o comércio tem sido um dos principais pontos positivos da economia potiguar, enquanto a indústria aparece como uma área estratégica para ampliar e diversificar o crescimento.

No fim do primeiro semestre, o RN conseguiu manter uma taxa de expansão superior à brasileira, mas ficou 0,7 ponto percentual abaixo do desempenho médio nordestino. O desafio agora é evitar que a perda de velocidade observada nos últimos meses se intensifique e transformar os resultados de setores específicos em um crescimento mais amplo e sustentável.

Classificação Indicativa: Livre


TagsComércioIndústriaAtividade econômica