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No Dia dos Povos Indígenas, conheça o casal guerreiro do RN que desafiou um exército europeu

Indígenas, Antônio Filipe Camarão, o Poti, e sua esposa, Clara Camarão, lutaram contra a invasão holandesa no Brasil em várias batalhas pelo Nordeste  |  Imagem gerada por IA

Publicado em 19/04/2026, às 06h00   Imagem gerada por IA   Anderson Barbosa

Hoje, domingo (19), é dia de celebrar os povos indígenas, oportunidade de reconhecer a importância histórica, cultural e social dos povos originários na formação do Brasil. No Rio Grande do Norte, um casal é símbolo dessa herança: o indígena Poti, que ficou marcado na história como Antônio Filipe Camarão, e sua esposa, Maria Clara Filipa Camarão, ou simplesmente Clara Camarão, também descendente das tribos potiguaras.

Mais do que um personagens históricos, Filipe e Clara Camarão representam a resistência e a contribuição decisiva e fundamental dos povos indígenas na construção do Rio Grande do Norte e do país.

O líder dos Potiguaras

Poti nasceu em terras potiguares por volta de 1600. Algumas fontes citam a região de Seri, próximo à atual cidade de Ceará-Mirim, na Grande Natal. O nome Poti tem origem na língua indígena tupi-guarani, e significa camarão. Daí os potiguares serem chamados de comedores de camarão. 

Figura representa Filipe Camarão, durante a Batalha dos Guararapes, em Pernambuco

O indígena se destacou como um estrategista e líder respeitado. Educado por missionários jesuítas, dominava diferentes idiomas e transitava com desenvoltura entre culturas distintas. Uma habilidade que se tornaria decisiva em tempos de guerra — dizem historiadores.

Durante as invasões promovidas pela Companhia das Índias Ocidentais no Nordeste brasileiro, ele assumiu papel central na resistência contra os holandeses. Ao lado de lideranças como Henrique Dias e André Vidal de Negreiros, participou de confrontos decisivos que ajudaram a conter o avanço estrangeiro.

Grandes batalhas pelo Nordeste

Com a chegada das forças da Companhia das Índias Ocidentais ao Nordeste, Filipe Camarão se apresentou ao comandante Matias de Albuquerque, passando a atuar ao lado das tropas luso-brasileiras. Em 1630, durante a invasão de Olinda, Filipe Camarão participou ativamente da defesa da cidade pernambucana.

Entre 1630 e 1635, Camarão ganhou notoriedade por sua bravura em combate e pela liderança sobre seus guerreiros, impondo respeito até mesmo aos inimigos. Em 1636, protagonizou uma ação decisiva ao evitar a derrota completa do exército no Recife. 

A ousadia do líder indígena chamou a atenção do comando holandês, que enviou o general Arrichofsk para enfrentá-lo. Após um confronto intenso, as tropas estrangeiras recuaram.

No ano seguinte, ao lado de Henrique Dias, Camarão enfrentou cerca de cinco mil soldados holandeses comandados por Johan Maurits de Nassau-Siegen, em Porto Calvo, um dos municípios mais antigos de Alagoas. A batalha terminou sem um vencedor definido.

Em 1638, Camarão atuou na Bahia, participando de ações de guerrilha e da defesa de Salvador, então sitiada pelas forças holandesas.

Sua atuação também foi fundamental na Insurreição Pernambucana, iniciada em 1645.

Potiguar tem participação marcante na Primeira Batalha dos Guararapes

A atuação de Filipe Camarão foi especialmente marcante na Primeira Batalha dos Guararapes, em 1648, em Pernambuco. Como aconteceu no dia 19 de abril, a data é considerada marco simbólico para o nascimento do Exército Brasileiro, além de representar a união de brancos, negros e indígenas contra o domínio holandês. Portanto, hoje também celebra-se o Dia do Exército Brasileiro.

Como reconhecimento pela atuação do indígena potiguar na batalha, o rei Filipe IV de Espanha concedeu a Camarão o hábito da Ordem de Cristo, o título de “Dom” e a patente de capitão-mor de todos os indígenas da costa brasileira, do Rio São Francisco até o Maranhão.

Antônio Filipe Camarão morreu em 1648, vítima de febre, antes da segunda Batalha dos Guararapes, que consolidou a expulsão definitiva dos holandeses do Brasil.

Clara Camarão, a primeira heroína indígena do Brasil

Igualmente convertida ao cristianismo, Clara Camarão teve papel relevante ao lado do marido na resistência contra os holandeses. Nasceu na Aldeia Velha, em Natal, por volta do século XVII. Não há registros históricos sobre sua morte. 

Coube a ela liderar grupos de mulheres indígenas em ações de apoio e até mesmo em combates, sendo reconhecida como símbolo de coragem e participação feminina nas lutas do período.

Clara Camarão / Ilustração de Hellen Fanucchi

Batizada como Maria Clara por jesuítas, também não se tem registros do seu nome de nascimento. Sabe-se apenas que ela adotou o sobrenome Camarão após o casamento com Poti.

Atuante nos conflitos, Clara participou de diversas batalhas ao lado de Filipe e teve papel de liderança desde a década de 1630, quando comandou a escolta de famílias refugiadas em Porto Calvo, em Alagoas.

Um dos episódios mais emblemáticos de sua trajetória ocorreu em 1646, no povoado de Tejucupapo, em Pernambuco. Ao lado de outras mulheres, ela enfrentou tropas holandesas com armas como arcos, lanças e tacapes, além de uma estratégia inusitada: o uso de água fervente com pimenta, cujo vapor desorientou os invasores e garantiu a vitória das guerreiras. O grupo ficou conhecido como “Heroínas de Tejucupapo”, símbolo de coragem e resistência feminina.

Pela relevância de sua atuação, Clara Camarão recebeu o título de “Dona” concedido pelo rei Filipe IV de Espanha.

Seu legado permanece vivo. No Rio Grande do Norte, ela dá nome à refinaria de petróleo de Guamaré, a Refinaria Clara Camarão — a primeira do Brasil a homenagear uma mulher.

Heróis e Heroínas da Pátria

Em 06 de agosto de 2012, Antônio Filipe Camarão foi declarado Herói da Pátria Brasileira pela Lei Federal nº 12.701. No dia 27 de março de 2017 o mesmo aconteceu com Clara Filipa Camarão, declarada Heroína do Brasil.

Em reconhecimento, ambos tiveram seus nomes inscritos no "Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria".  Também conhecido como "Livro de Aço", a obra fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília/DF.

O Livro de Aço – Heróis e Heroínas da Pátria é uma obra simbólica que reúne atualmente 99 nomes de brasileiros e brasileiras que se destacaram por suas contribuições significativas à construção da história e dos valores do país — sejam eles militares, civis, culturais ou sociais — e que marcaram a trajetória do Brasil com coragem, liderança, justiça e dedicação à liberdade.

O nome “Livro de Aço” não é apenas metafórico: ele é, de fato, confeccionado em aço inoxidável, representando a resistência e a durabilidade da memória desses heróis e heroínas nacionais.

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