Geral
Publicado em 26/09/2026, às 11h00 Reprodução/Viaje Natal José Nilton Jr.
Quem circula por Natal talvez passe todos os dias por lugares que parecem fazer parte apenas da paisagem. Uma praça, uma igreja, uma rua movimentada, uma duna ou um prédio à margem do Rio Potengi. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para descobrir que esses espaços guardam histórias que atravessam séculos.
A capital potiguar nasceu, cresceu e se transformou ao redor de lugares que continuam presentes na rotina dos moradores. Alguns mudaram de função. Outros ganharam novos significados. Há ainda aqueles cuja paisagem foi modificada pelo tempo e pela ação humana.
No coração da Cidade Alta está um dos espaços mais simbólicos da capital: a Praça André de Albuquerque, considerada o marco zero de Natal. O nome é uma homenagem a André de Albuquerque, personagem ligado à Revolução de 1817. Sua trajetória terminou de forma trágica e deixou uma marca na história do local.
Ferido durante os conflitos, André de Albuquerque foi levado para a Fortaleza dos Reis Magos. Posteriormente, teria sido arrastado, ainda ensanguentado, até a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação.
O episódio está relacionado ao antigo nome pelo qual a praça ficou conhecida: Praça Vermelha. Mas a história do espaço não se resume à Revolução de 1817. Ao longo dos séculos, a praça desempenhou diferentes funções. Já foi cemitério, palco de execuções públicas e cenário de manifestações políticas.
Hoje, quem passa pelo local encontra igrejas, estabelecimentos comerciais e construções históricas em meio ao movimento cotidiano do centro de Natal.
A poucos metros da praça está outro dos lugares mais antigos de Natal. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação é considerada a igreja mais antiga do Rio Grande do Norte.
Sua inauguração ocorreu em 25 de dezembro de 1599, durante a missa que marcou a fundação da cidade. Desde então, o templo atravessou diferentes períodos da história de Natal. A cidade cresceu ao seu redor, governos mudaram, conflitos aconteceram e gerações passaram pelas ruas do centro.
Durante o domínio holandês, entre 1633 e 1654, a igreja chegou a ser utilizada pelos protestantes. O templo também está relacionado à memória dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, entre eles o padre Ambrósio Francisco Ferro, martirizado junto a outros fiéis por se recusarem a abandonar a fé católica.
Assim, uma construção que pode parecer apenas mais uma igreja histórica no centro da cidade funciona, na verdade, como uma espécie de testemunha de mais de quatro séculos da história potiguar.
Se a Praça André de Albuquerque e a Igreja Matriz ajudam a contar a história mais antiga de Natal, o Beco da Lama mostra como a cidade também transforma seus espaços ao longo do tempo.
A Rua Vaz Gondim, nome oficial do local, tornou-se um dos tradicionais pontos de encontro da boemia natalense. Bares, botecos e pequenos restaurantes dividem espaço com manifestações artísticas e culturais. Mas o apelido que tornou a rua famosa tem uma origem bem menos glamourosa.
A passagem era estreita e, durante o século 19, frequentemente ficava tomada pela lama. Daí surgiu o nome que acabou entrando para a identidade cultural da cidade.
Décadas depois, o espaço ganhou outro significado. O Beco passou a ser associado ao encontro de intelectuais, artistas e boêmios. A rua deixou de ser apenas um caminho no centro histórico e passou a fazer parte da vida cultural de Natal.
Em 2019, uma revitalização realizada pela Prefeitura ajudou a transformar novamente o espaço. As paredes ganharam cores e grafites. Entre as homenagens estão referências a personalidades como o folclorista Câmara Cascudo, além de elementos ligados à identidade potiguar.
É justamente essa mistura que faz do Beco da Lama um lugar peculiar: o passado permanece presente, mas aparece ao lado de uma produção cultural contemporânea.
Às margens do Rio Potengi existe outro lugar que ajuda a explicar por que Natal ocupou uma posição estratégica durante um dos períodos mais importantes da história mundial no século 20.
O Complexo Cultural Rampa foi construído em uma área ligada à operação de hidroaviões e hoje preserva a memória da participação da capital potiguar na história da aviação e da Segunda Guerra Mundial.
O local foi restaurado, equipado e transformado em espaço cultural. Por ali passaram hidroaviões em uma época em que Natal se tornou um ponto estratégico para as rotas aéreas internacionais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a importância da capital aumentou ainda mais. Natal sediou uma grande base aérea americana e ocupou uma posição estratégica no deslocamento de aeronaves e tropas.
O complexo foi criado justamente para preservar essa memória. As exposições apresentam diferentes aspectos da história da aviação e da participação de Natal no contexto da Segunda Guerra Mundial. Mas o local também oferece uma experiência que vai além do acervo histórico.
Às margens do Potengi, o visitante tem uma visão privilegiada do rio e da Ponte Newton Navarro. O espaço também se tornou conhecido pela paisagem do pôr do sol. É uma combinação curiosa: um lugar que preserva memórias de guerra e aviação transformou-se também em um dos pontos de contemplação da paisagem de Natal.