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"Espelhos d’água" freiam erosão em praia de Natal e reforçam defesa do Morro do Careca, diz secretário

Em série de reportagens do BNews Natal, secretário do Meio Ambiente e Urbanismo de Natal apresenta explicações técnicas sobre a eficácia da engorda  |  Morro do Careca atualmente, após a engorda, e antes da obra, quando a maré causava erosão na base da duna - Reprodução

Publicado em 02/05/2026, às 06h00   Morro do Careca atualmente, após a engorda, e antes da obra, quando a maré causava erosão na base da duna - Reprodução   Anderson Barbosa

A cada período de chuvas surgem críticas de que a obra da engorda de Ponta Negra, em Natal, apresenta falhas na drenagem e até presença de esgoto na praia. Em outras palavras, a narrativa é uma só: basta chover que aparecem sinais de que o serviço foi mal feito, que o escoamento da água é insuficiente e que a praia fica repleta de fezes. É isso mesmo?  

"Essa é uma narrativa completamente insustentável".

A resposta é do secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (SEMURB), Thiago Mesquita. Com exclusividade, ele apresentou ao BNews Natal posicionamentos técnicos sobre o passado, o presente e o futuro da engorda. O detalhamento faz parte de uma série de reportagens.

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Na primeira matéria, publicada na sexta-feira (01), o secretário explicou o processo de licenciamento ambiental e negou ter havido invasão ao prédio do IDEMA. Ele também disse que não houve qualquer tentativa de pressão para que o órgão acelerasse a liberação das licenças ambientais exigidas para o início das obras.

Nesta segunda matéria, Mesquita defende a eficácia dos chamados “espelhos d’água”, que têm surgido na faixa de areia, e trata também da qualidade dos sedimentos retirados do fundo do mar para a execução da engorda. 

Na última matéria, que será publicada neste domingo (03), estão na pauta os desafios que a Prefeitura de Natal precisa vencer para melhorar a engorda em toda sua plenitude, de modo que a população possa usufruir ao máximo da praia, como resultado da total eficácia da intervenção.

A engorda de Ponta Negra

A engorda da praia de Ponta Negra — obra que custou aproximadamente R$ 100 milhões em recursos federais e municipais — cobriu cerca de 4 km de orla, do Morro do Careca até o início da Via Costeira.

Ao todo, foram utilizados mais de 1 milhão de metros cúbicos de sedimentos, retirados de uma jazida localizada no fundo do mar, a cerca de 10 km de distância da costa. A intervenção aumentou a faixa de areia da praia em aproximadamente 100 metros na maré baixa e 50 metros na maré cheia.

Um fenômeno temporário

Segundo o secretário, o novo sistema implantado pela engorda foi projetado para desacelerar a água da chuva, evitando enxurradas que antes agravavam a erosão e levavam a água diretamente ao mar. Com a requalificação, foram instalados dissipadores que reduzem a velocidade do fluxo, criando os chamados “espelhos d’água”.

De acordo com o secretário, esses espelhos são compostos por água da chuva, e não por esgoto. Eles tendem a desaparecer rapidamente por infiltração. Ele reconhece que podem existir ligações clandestinas, mas afirma que isso é um problema comum em cidades litorâneas.

O gestor também destaca que a água acumulada ocupa apenas uma parte da faixa de areia e não compromete o uso da praia, além de ser um fenômeno temporário.

Por fim, Mesquita afirma que, após a obra, houve aumento significativo na área útil da praia e na sua utilização pela população, inclusive após períodos de chuva. Ele explica: 

"Esses espelhos são de água de chuva, não é esgoto"

"A concepção da nova drenagem é desacelerar a descida da água da chuva, como era lá em 2023, antes da drenagem da engorda. A água descia como uma enxurrada, contribuindo para a erosão, e se comunicava diretamente com o mar. A gente não percebia. Chovia tanto que o mar batia na Av. Erivan França. Vinha aquela enxurrada de água de chuva e havia uma comunicação direta, e ninguém percebia a descida dessa água, a não ser pelas cachoeiras e, depois, pelas voçorocas que se formavam na areia da praia. Ninguém percebia isso porque havia toda essa problemática da ausência da faixa de areia e também da metodologia da drenagem, que era terrível. Ela mesma contribuía para a erosão da praia", disse o secretário.

Praia de Ponta Negra após chuvas, com trecho da faixa de areia com espelho d'água / Foto: @livecamnatal

No vídeo abaixo, Thiago Mesquita mostra uma recente visita que ele fez à praia de Ponta Negra. No início do vídeo, ele aparece na Rota do Sol, onde começa a bacia de drenagem que desce para a praia de Ponta Negra. Nas imagens, também é possível ver enxurradas e os danos que as águas das chuvas causavam à orla antes das obras da engorda. Veja:

"Com a requalificação da drenagem, nós colocamos 16 dissipadores com obstáculos, com chicanes, que reduzem drasticamente a velocidade dessa água. E, quando esses dissipadores entram nessas caixas, nesses reservatórios, a água sai lateralmente, de forma espraiada, bem vagarosamente, formando os espelhos d’água. Repetindo: esses espelhos são de água de chuva, não é esgoto in natura que desce", disse.

Pode haver ligação de esgoto clandestina na drenagem? 

"Pode. E há. Infelizmente, é uma realidade de qualquer litoral, de qualquer cidade brasileira, que, inclusive, a SEMURB tem combatido bastante. Foram 52 ações realizadas entre 2025 e 2026 pela secretaria, com cerca de 120  estabelecimentos/imóveis vistoriados. Resultado das ações: 73 autos de infração lavrados. Destes, 42 foram resolvidos e os outros estão em mitigação ou defesa. Foram aplicados ainda cerca de R$ 500 mil em multas", revelou Thiago Mesquita.

E sobre os espelhos os espelhos d’água? "São uma solução de drenagem. Eles formam uma camada muito rasa de água lateralmente, que corresponde de 20% a 25% do aterro hidráulico. De 70% a 75%, a areia continua intacta, sem qualquer presença de água, a não ser a umidade da chuva que cai do céu", explicou.

Ainda de acordo com o titular da Secretario de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal, os espelhos d’água que se formam ao longo da costa da Erivan França são, em sua grande maioria, de 80% a 90%, infiltrados quando a chuva para. "Eles se infiltram completamente no aterro hidráulico. Choveu 136 mm em Ponta Negra na semana passada, e eu estive na praia pela manhã. Nós vimos que quase 80% de todo o espelho d’água já havia infiltrado. Depois, recebemos imagens mostrando que praticamente 100% da água — restando apenas uma pocinha ou outra — já havia infiltrado, demonstrando, de fato, a eficiência do sistema. A formação desses espelhos d’água é temporária. Rapidamente, eles desaparecem", destacou.

Praia de Ponta Negra sem o espelho d'água / Foto: @livecamnatal

"Essa é a solução adotada, até porque ninguém vai à praia quando está chovendo. Vale lembrar que, anteriormente, tínhamos pouquíssimas horas para desfrutar de uma pequena faixa de areia, em torno de 6 a 8 metros, por apenas 4 a 6 horas por dia. E, quando chovia, era ainda pior, porque desciam enxurradas pela drenagem ineficiente da época. O mar batia na Erivan França, invadia a avenida e a água chegava à pista. Então, ninguém frequentava. E ninguém frequenta, em lugar nenhum do mundo, quando está um toró, chovendo como foi na sexta-feira da semana passada", acrescentou.

"A formação dos espelhos d’água, nesse contexto, infiltra muito rápido e tem comprometido muito pouco o uso da praia. Pelo contrário. No ano passado, em 2025, tivemos 333 dias sem chuva em Natal. Ou seja, tivemos praticamente 24 horas de uso do aterro hidráulico, com uma faixa de areia entre 50 e 80 metros em toda a extensão de Ponta Negra. Houve uma mudança significativa, além da função de conter a erosão. A função social também foi resgatada e as pessoas voltaram a frequentar Ponta Negra. Eu estive lá após a chuva. A praia estava lotada, com famílias jogando bola. Ponta Negra voltou para o natalense e tem sido muito utilizada também pelos turistas", finalizou Mesquita.

Sobre a jazida e a qualidade da areia

O secretário Thiago Mesquita também rebateu críticas sobre a qualidade da areia utilizada na nova jazida (o banco de areia no fundo do mar de onde foi retirado o material utilizado na engorda). Segundo ele, estudos técnicos apontaram que o material possui granulometria adequada — com predominância de areia média a grossa — o que garante maior resistência ao transporte pelas correntes marítimas.

“A jazida apresenta volume suficiente não só para a obra atual, mas também para futuras manutenções, que são naturais em projetos desse tipo”, disse.

Sobre as alegações de que a drenagem não funcionou e que as chuvas teriam comprometido a obra, o secretário afirma que o sistema implantado tem operado conforme o previsto. Ele sustenta que, mesmo diante de períodos de chuvas intensas em Natal, o aterro hidráulico e os dispositivos de drenagem cumpriram sua função.

Nesse contexto, Mesquita reforça a importância dos “espelhos d’água” como solução para o escoamento e controle da água pluvial na faixa de areia, mecanismo que, segundo ele, tem apresentado resultados positivos.

Por fim, o secretário argumenta que a obra foi executada com acompanhamento técnico contínuo e dentro dos parâmetros estabelecidos no licenciamento ambiental.

"Não foi uma intervenção improvisada. Houve planejamento, controle e monitoramento antes, durante e após a execução”, afirmou.

"A nova jazida, que foi fruto de um decreto emergencial em setembro de 2024, por causa de um grande problema que nós tivemos, uma chuva, uma maré alta, é uma jazida que foi acompanhada também por uma empresa chamada Caruso, empresa de engenharia de Florianópolis, que fez todos os estudos de quatro praias de Santa Catarina, das engordas recentes, a mais famosa ali de Camboriú, do Balneário Camboriú. E essa empresa, ela que fez análise da jazida, fez análise da granulometria da areia, e concluiu que a jazida era muito boa, excepcional do ponto de vista de volume, de quantidade, porque nós iríamos precisar em torno de 1 milhão e 300 mil metros cubos de areia. Foi isso que nós colocamos em Ponta Negra. Mas a jazida ela tem um volume superior a 13 milhões, ou seja, ela poderá ser utilizada eternamente para fazer as manutenções que são necessárias em qualquer obra de oceanografia e de dinâmica costeira, porque nenhuma dessas obras são definitivas, elas precisam de intervenções e manutenções o tempo todo, como acontece em Fortaleza, que foi a engorda em 2019, na praia de Iracema, e nas praias de Santa Catarina, que são as engordas mais receitas, as que são mais próximas à Ponta Negra", detalhou.

Ainda de acordo com o secretário, a empresa Caruso também confirmou, através de relatórios, que a qualidade da areia retirada da jazida e lançada sobre a praia de Ponta Negra "era excepcional, porque era uma areia média e grossa, que tinha uma capacidade de resistência muito grande a ser colocada em um ambiente para impedir que esses grãos, eles fossem arrastados com facilidade. Então não procede a informação de que a nova jazida que o município encontrou, ela não é adequada para esta engorda", finalizou.

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