Cidades
Publicado em 30/03/2026, às 10h31 Reprodução internet Redação
O crescimento no uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras já começa a impactar o setor gastronômico em Natal, alterando hábitos de consumo e reduzindo o valor gasto por clientes em bares e restaurantes.
Empresários do setor relatam mudanças claras: clientes comendo menos, dividindo pratos e reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas — um movimento que acompanha uma tendência mais ampla de busca por alimentação equilibrada.
Queda no consumo e mudança no perfil do cliente
No Zeh Cozinha, os sócios Eimard Fernandes e Maria Cláudia Valle já perceberam mudanças no comportamento dos clientes dentro do restaurante.
Segundo Eimard, pratos que antes eram apenas entradas passaram a ser consumidos como refeição principal:
Nós temos alguns pratos que servimos que inicialmente eram entrada, mas que naturalmente foram passando para o prato principal. Um exemplo é o camarão com purê de limão, que é uma porção generosa de proteína de camarão. Muita gente pede como refeição, embora seja uma entrada.”
Maria Cláudia reforça que o impacto é direto no faturamento:
“Hoje, muitas vezes, um prato é compartilhado com 3, 4 pessoas. No consumo de bebida alcoólica, também houve redução; as pessoas foram consumindo menos álcool. Consequentemente, isso reduz o ticket médio.”
Tendência também afeta outros restaurantes da capital
No restaurante Gennarí, o proprietário Paolo Passariello afirma que a mudança já vem sendo observada há mais tempo:
Já faz um tempo que eu observo essa tendência de mudança de hábito provocada por essas canetas emagrecedoras e, por isso, tivemos uma redução no ticket médio; as pessoas gastam menos em relação ao que gastavam antigamente.”
Segundo ele, tornou-se comum clientes pedirem um único prato para dividir.
Estabelecimentos começam a adaptar cardápios
Diante desse novo cenário, os restaurantes já iniciam adaptações para atender a nova demanda.
No Gennarí, mudanças no cardápio estão em planejamento:
“Já está planejado que a gente vai mudar um pouquinho o cardápio e vai incluir a meia porção e aumentar, talvez, a quantidade de proteína dentro do nosso cardápio. Porque, com esse uso, as pessoas estão precisando consumir mais proteína.”
No Zeh Cozinha, a estratégia inclui também orientação ao cliente no momento do pedido, informando quando os pratos são bem servidos e podem ser compartilhados.
Consumo de álcool cai e bebidas sem álcool ganham espaço
Outro reflexo direto é a queda no consumo de bebidas alcoólicas, tradicionalmente responsáveis por elevar o ticket médio.
No Zeh, a resposta foi ampliar o cardápio de bebidas:
“É um novo cenário. Não é só menos comida. As pessoas estão mais preocupadas com a funcionalidade dos alimentos”, afirma Maria Cláudia Valle.
A casa passou a investir em mocktails — coquetéis sem álcool — e em opções sem glúten.
A mesma percepção é relatada por Paolo Passariello:
“Eu converso muito com nossos clientes; o uso da caneta inibe tanto a comida quanto a bebida.”
Comportamento também reflete mudança cultural
Para Eimard Fernandes, a transformação vai além do uso de medicamentos e revela uma mudança de mentalidade:
“Essa eu diria que é uma evolução no hábito das pessoas de tentar ser mais saudáveis e não necessariamente tira as pessoas da convivência social. Ninguém deixa de vir para o restaurante. Apenas ele vem de outra forma.”
No Manary Gastronomia & Arte, o chef Francisco Gasteasoro também observa esse novo perfil:
“Hoje a gente não vai só para o restaurante com o propósito de se alimentar, e sim com o propósito de uma experiência.”
Segundo ele, clientes têm priorizado entradas e refeições mais leves, principalmente nos fins de semana.
Busca por proteína e alimentação funcional cresce
Os chefs também identificam uma mudança nas escolhas nutricionais dos clientes.
“O que eu tenho ouvido é que as pessoas estão querendo migrar para uma alimentação com mais proteína do que acompanhamento”, afirma Francisco Gasteasoro.
Essa tendência está associada ao aumento da prática de atividades físicas e à busca por uma alimentação mais funcional.
Como funcionam as canetas emagrecedoras
As chamadas canetas emagrecedoras atuam aumentando a sensação de saciedade, reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico.
De acordo com a nutricionista Christiane Potter:
“O Mounjaro reduz significativamente o apetite, o que faz com que haja a perda de peso; a ação da tirzepatida é imitar hormônios que nosso corpo produz.”
Especialistas alertam: comer menos não é sinônimo de comer melhor
Apesar dos benefícios no controle de peso, a especialista faz um alerta importante:
“Comer menos não significa uma alimentação saudável; a qualidade da dieta não está relacionada apenas à quantidade de comida.”
Ela destaca que a redução no consumo exige atenção redobrada à qualidade nutricional.
“Comer menos volume e aumentar densidade e qualidade nutricional é o melhor a fazer; a adequação é indispensável e deve ser feita por um nutricionista.”
Cuidados são essenciais durante o uso dos medicamentos
Entre as recomendações estão:
- Priorizar proteínas
- Manter consumo de frutas, legumes e verduras
- Garantir ingestão de vitaminas e minerais
- Evitar bebidas alcoólicas
- Buscar acompanhamento profissional
A nutricionista alerta que escolhas inadequadas podem levar a fadiga, perda de massa muscular e deficiências nutricionais.
Setor gastronômico se ajusta a um novo padrão de consumo
Mesmo com a redução no volume consumido, os restaurantes não registram queda na frequência de clientes — apenas uma mudança na forma de consumir.
No Manary, por exemplo, ainda não há aumento significativo de sobras nos pratos, segundo o chef.
O cenário indica uma transformação estrutural: comer fora continua sendo uma experiência social relevante, mas agora alinhada a escolhas mais conscientes.