Cidades
Publicado em 26/04/2026, às 18h08 Foto: Reprodução Mayane Bezerra
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve discutir, ao longo desta semana, uma proposta de instrução normativa que estabelece novos procedimentos e requisitos técnicos para medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1 — popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. A medida ocorre em meio ao crescimento acelerado do uso desses medicamentos e ao avanço de um mercado paralelo que preocupa autoridades sanitárias.
As chamadas canetas emagrecedoras, que podem ter como princípios ativos substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, ganharam popularidade nos últimos anos, principalmente pelo efeito na perda de peso e no controle da glicose. Apesar disso, a venda desses medicamentos segue condicionada à apresentação de receita médica. Ainda assim, o aumento da demanda tem impulsionado o uso indiscriminado e a comercialização irregular, incluindo versões manipuladas sem autorização.
Diante desse cenário, a Anvisa intensificou ações de fiscalização e criou grupos de trabalho voltados ao controle sanitário desses produtos. Neste mês, a agência também firmou uma carta de intenção com o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), com o objetivo de promover o uso racional e seguro dessas substâncias. A iniciativa prevê troca de informações, alinhamento técnico e ações educativas para reduzir riscos à saúde da população.
Dados recentes apontam a dimensão do problema. Apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos farmacêuticos destinados à manipulação dessas medicações, quantidade suficiente para cerca de 20 milhões de doses. No mesmo período, autoridades apreenderam aproximadamente 1,3 milhão de medicamentos por irregularidades relacionadas ao transporte, armazenamento ou comercialização.
Especialistas destacam que, embora eficazes no tratamento da obesidade e do diabetes, esses medicamentos exigem acompanhamento médico rigoroso. Entre os benefícios, estão a redução do apetite, o aumento da saciedade, o controle da glicose e a diminuição do risco cardiovascular. Em alguns casos, a perda de peso pode chegar a até 25%, dependendo da substância e do perfil do paciente.
Por outro lado, o uso inadequado pode trazer riscos. Os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, vômitos e desconfortos gastrointestinais. Em situações mais graves, há registros de complicações como pancreatite, especialmente quando o medicamento é utilizado sem orientação ou adquirido de forma irregular.
Diante do cenário, cresce a discussão sobre medidas mais rigorosas, incluindo a possibilidade de restrições temporárias à manipulação dessas substâncias. Especialistas apontam que o volume atual de circulação dificulta a fiscalização e reforçam a necessidade de controle mais rígido.
Autoridades de saúde também orientam a população a seguir quatro pilares básicos de segurança: utilizar medicamentos regularizados, com registro no Brasil; ter prescrição e acompanhamento médico; adquirir o produto em farmácias confiáveis; e respeitar as doses indicadas. A recomendação é clara: evitar o mercado paralelo e desconfiar de ofertas fora dos canais oficiais.
A discussão na Anvisa ocorre em um momento decisivo para o controle sanitário desses medicamentos, em meio ao desafio de equilibrar os benefícios clínicos com os riscos associados ao uso indiscriminado.