Política

Site de criptomoeda divulga distribuição de "tokens" em perfil viralizado de Ong Africana que incentiva voto em Flávio Bolsonaro

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Especialistas questionam a combinação de incentivo financeiro e apoio político na distribuição dos tokens B22 durante a campanha  |   BNews RN - Divulgação Reprodução: Internet
Redação

por Redação

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Publicado em 08/10/2026, às 11h54



Uma iniciativa que combina criptomoeda, conteúdo produzido em Uganda e propaganda política passou a chamar a atenção durante a campanha presidencial de 2026.

O projeto Brasil 22 Token, conhecido como B22, oferece ativos digitais a usuários que promovam a iniciativa nas redes sociais, enquanto seus materiais de divulgação defendem o voto no candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

O projeto foi lançado na terça-feira (6) e ganhou alcance principalmente por meio do perfil HypersKidsAfrica, no Instagram, que reúne 12,9 milhões de seguidores e divulga ações para arrecadar recursos destinados à construção de casas para crianças em Uganda, na África.

Um dos vídeos publicados mostra crianças africanas usando camisetas amarelas com a inscrição “B22 token” e cantando uma música que pede voto no número 22, associado à candidatura de Flávio Bolsonaro. A publicação alcançou cerca de 1,2 milhão de visualizações.

Segundo a plataforma, parte dos recursos relacionados à comercialização do B22 seria destinada aos projetos das crianças em Uganda. Ao mesmo tempo, a iniciativa utiliza o apoio ao número 22 como uma das bases de sua identidade pública.

O projeto Brasil 22 Token, conhecido como B22, oferece ativos digitais a usuários que promovam a iniciativa nas redes sociais.
O projeto Brasil 22 Token, conhecido como B22, oferece ativos digitais a usuários que promovam a iniciativa nas redes sociais.

Projeto oferece tokens em troca de divulgação

O mecanismo de distribuição dos ativos digitais é chamado de airdrop. Para participar, o usuário precisa ter B22, compartilhar o projeto nas redes sociais, enviar o link da publicação para validação e informar uma carteira digital para receber os tokens.

O próprio site apresenta a iniciativa como um movimento que reúne duas propostas: apoiar o voto 22 e contribuir para a conclusão da casa das HypersKids em Kampala.

Na página dedicada ao projeto, o Brasil 22 Token afirma que defende o voto 22 por considerar que a proposta representa um caminho para um “Brasil melhor”. A manifestação é apresentada como uma posição do próprio movimento.

O site, porém, também afirma que a distribuição dos tokens não depende do voto ou da preferência eleitoral do participante. A plataforma sustenta que o recebimento dos ativos é independente da divulgação de propaganda eleitoral.

Essa combinação entre incentivo financeiro, compartilhamento de conteúdo e manifestação explícita de apoio a uma candidatura é justamente o ponto que passou a levantar questionamentos entre especialistas em direito eleitoral e democracia digital.

Vídeo com crianças de Uganda amplia alcance da campanha

A divulgação do B22 ganhou uma dimensão internacional com a participação do perfil HypersKidsAfrica. O projeto utiliza as redes sociais para mostrar crianças em Uganda e arrecadar recursos destinados à construção de moradias em Kampala.

Em um dos vídeos que passaram a circular com a marca da criptomoeda, as crianças aparecem vestindo camisetas amarelas com a inscrição “B22 token”. Além de cantar em defesa do número 22, elas incentivam a compra e o compartilhamento do ativo digital.

O conteúdo também cita os nomes de Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal. A mensagem apresentada no vídeo associa o projeto à ideia de ajudar o Brasil e pede que o público dê uma chance à proposta e “vote diferente”.

De acordo com o site do B22, parte da estrutura financeira do projeto está relacionada ao apoio à construção da casa das HypersKids em Kampala.

A página informa que 120 milhões de tokens B22 foram destinados ao grupo e que os ativos seriam vendidos gradualmente, com os recursos utilizados na conclusão da obra.

Projeto nega vínculo oficial com campanha

Apesar de assumir publicamente uma posição favorável ao voto 22, o próprio site faz uma série de ressalvas sobre sua relação com a eleição.

A plataforma afirma que o Brasil 22 Token não é oficial, não possui endosso e não mantém vínculo com Flávio Bolsonaro, partidos políticos, candidatura ou campanha eleitoral. Também declara que a iniciativa não constitui uma forma de doação eleitoral.

O projeto sustenta ainda que a distribuição dos tokens é independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda.

A explicação, entretanto, não elimina os questionamentos levantados por especialistas. O material de divulgação do ativo associa diretamente o número 22 à candidatura presidencial e oferece uma forma de recompensa a quem ampliar a circulação do projeto nas redes sociais.

O site também apresenta o B22 como uma memecoin, ativo digital de caráter especulativo e sujeito a forte volatilidade. A própria plataforma informa que não existe garantia de valorização ou retorno financeiro.

O site também apresenta o B22 como uma memecoin, ativo digital de caráter especulativo e sujeito a forte volatilidade.
O site também apresenta o B22 como uma memecoin, ativo digital de caráter especulativo e sujeito a forte volatilidade.

Especialista vê semelhança com estratégia usada por Pablo Marçal

O advogado eleitoral Hélio Silveira, que integrou a equipe jurídica da então candidata à Prefeitura de São Paulo Tabata Amaral em 2024, identificou semelhanças entre o funcionamento do B22 e os campeonatos de cortes promovidos pelo então candidato Pablo Marçal.

Segundo Silveira, a lógica seria semelhante porque existe uma vantagem econômica associada à divulgação de conteúdo relacionado a uma candidatura.

“Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia –oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato”, afirmou.

Na avaliação do advogado, a situação também levanta a possibilidade de caracterização de uma doação de pessoa jurídica para uma campanha eleitoral. Isso ocorreria, segundo ele, caso a empresa responsável pela iniciativa esteja utilizando sua estrutura e recursos para estimular a propaganda em favor do número 22.

O questionamento jurídico está relacionado justamente à oferta de benefício econômico em troca da disseminação de conteúdo de natureza eleitoral.

Caso Marçal serve de precedente para o debate

A comparação com Pablo Marçal está relacionada a uma decisão da Justiça Eleitoral sobre os chamados campeonatos de cortes realizados durante a campanha de 2024.

Naquele modelo, participantes eram incentivados a produzir e divulgar vídeos relacionados à campanha e aqueles que obtivessem maior alcance poderiam receber prêmios em dinheiro.

A Justiça Eleitoral considerou que a iniciativa violava as regras que impedem a concessão de vantagem econômica para estimular pessoas a veicularem propaganda eleitoral na internet.

Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve a inelegibilidade de Marçal por oito anos no processo relacionado ao concurso de cortes realizado durante sua campanha à Prefeitura de São Paulo.

É esse precedente que especialistas utilizam como referência para discutir o modelo adotado pelo B22, embora a caracterização jurídica do novo caso dependa da análise específica de sua estrutura, dos responsáveis e da relação entre os incentivos oferecidos e a propaganda eleitoral.

Pesquisadora aponta mistura entre ação social e campanha

A pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, avalia que o caso reúne diferentes elementos que tornam a operação particularmente complexa.

“Vemos é uma operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”, afirmou.

Segundo ela, a utilização de uma estrutura empresarial para impulsionar conteúdo político-eleitoral pode representar um problema sob a legislação brasileira.

“Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido”, disse.

A pesquisadora também chama atenção para a forma como a ação social e o conteúdo político aparecem associados.

“Além disso, essa operação, por mais que, supostamente, leve dinheiro para crianças africanas, atrela isso a um aumento de visibilidade de materiais que estão claramente pedindo votos a um dos candidatos”, afirmou.

Na avaliação de Nina, existe uma relação entre o alcance dos conteúdos, a comercialização da moeda e o potencial de arrecadação destinado ao projeto social. “Ou seja, quanto mais o vídeo é compartilhado e quanto mais a tal moeda (que em si já é propaganda política) vende, mais dinheiro, supostamente as crianças ganham”, completou.

Perfis nas redes sociais promovem o B22

Outro personagem associado à divulgação da iniciativa é Kevim Flores. Perfis com esse nome passaram a publicar no X e no Instagram informações sobre o lançamento do B22, atualizações do projeto e conteúdos relacionados a Flávio Bolsonaro e às crianças de Uganda.

Flores, no entanto, não se apresenta de maneira clara como proprietário do site. A reportagem que revelou o caso informou ter procurado o usuário por meio de mensagens enviadas pelo X e pelo Instagram.

Registros públicos relacionados ao domínio também não identificam abertamente o responsável pela página. Os dados aparecem protegidos por sigilo.

Nas redes sociais, Flores publicou imagens de urnas eletrônicas acompanhadas do número 22 e da identidade visual da criptomoeda. Em outras mensagens, relacionou a possível valorização do ativo ao desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro no segundo turno.

Em uma das publicações, o usuário afirmou esperar uma valorização superior a 3.000% do ativo até uma eventual vitória do candidato. A mensagem também comparou a possibilidade de ganho com o comportamento de pessoas que buscam retornos elevados em investimentos especulativos.

B22 é uma memecoin de alto risco

O Brasil 22 Token é classificado pelo próprio projeto como uma memecoin, categoria de criptoativos normalmente associada a temas, memes ou comunidades específicas e marcada por elevada volatilidade.

O site informa que o B22 opera na rede Solana e possui oferta total de 1 bilhão de tokens. Parte dos ativos é destinada à liquidez, enquanto outras parcelas são direcionadas a marketing, equipe, airdrop e ao grupo HypersKids.

O site informa que o B22 opera na rede Solana e possui oferta total de 1 bilhão de tokens. Parte dos ativos é destinada à liquidez, enquanto outras parcelas são direcionadas a marketing, equipe, airdrop e ao grupo HypersKids.
O site informa que o B22 opera na rede Solana e possui oferta total de 1 bilhão de tokens. Parte dos ativos é destinada à liquidez, enquanto outras parcelas são direcionadas a marketing, equipe, airdrop e ao grupo HypersKids.

A plataforma divulga ainda metas de capitalização de mercado, incluindo objetivos de US$ 22 milhões e US$ 222 milhões. O próprio site ressalva que essas metas são objetivos da comunidade e não representam previsão ou garantia de valorização.

Também há um alerta de que o ativo pode perder valor e de que sua aquisição não constitui recomendação de investimento.

Essa característica acrescenta uma dimensão financeira ao caso: além da discussão sobre propaganda eleitoral e possível benefício econômico, usuários que compram o token estão expostos à variação de preço de um ativo especulativo.

Campanha de Flávio foi procurada

A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada para responder aos questionamentos relacionados à iniciativa e à eventual existência de vínculo entre o candidato e o projeto B22.

Segundo as informações divulgadas pela reportagem que revelou o caso, a campanha informou que responderia aos questionamentos nesta quinta-feira (7).

Até o momento da publicação das informações, não havia manifestação pública da campanha que estabelecesse vínculo formal com o site ou com a criação da criptomoeda.

O próprio B22 mantém a posição de que não possui ligação oficial com político, partido ou candidatura. Ao mesmo tempo, o projeto declara expressamente apoio ao voto 22 e utiliza esse posicionamento como parte de sua identidade.

É justamente essa combinação — uma criptomoeda temática, incentivo ao compartilhamento, conteúdo explicitamente favorável a um candidato e uma iniciativa social associada — que está no centro da discussão sobre a legalidade da operação durante o processo eleitoral de 2026.

Classificação Indicativa: Livre

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