Política
A Justiça Eleitoral determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar uma pesquisa de intenção de voto que colocou o ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias (PL), na liderança da corrida pelo Governo do Rio Grande do Norte.
A decisão foi tomada pela desembargadora eleitoral Sulamita Pacheco, do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN), após a Procuradoria Regional Eleitoral apontar indícios de possíveis irregularidades na realização e fiscalização do levantamento.
Entre as suspeitas que passarão a ser investigadas estão a suposta divulgação de pesquisa fraudulenta, falsidade ideológica eleitoral e eventual embaraço à fiscalização por parte dos partidos políticos. A apuração envolve o levantamento registrado na Justiça Eleitoral sob o número RN-09520/2026, realizado pela Ipsensus Pesquisas.
A decisão não significa que houve comprovação de fraude ou responsabilização dos envolvidos, mas autoriza a instauração de investigação criminal para verificar se houve prática de crimes eleitorais relacionados à pesquisa.
Pesquisa contrariou tendência das demais sondagens
O levantamento investigado foi realizado entre os dias 18 e 22 de junho, ouvindo, segundo o instituto, 1.500 eleitores distribuídos por todas as regiões do Rio Grande do Norte.
A pesquisa foi registrada com margem de erro de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
Contratada pela empresa Candeeiro Comunicação Integrada e Tecnologia Ltda., que atua comercialmente como Candeeiro – Marketing Digital, a sondagem chamou atenção por apresentar um cenário diferente daquele registrado pela maior parte dos institutos que pesquisaram a disputa estadual até agora.
No cenário estimulado divulgado pela Ipsensus, Álvaro Dias apareceu com 32,5% das intenções de voto, seguido por Allyson Bezerra (União Brasil), com 27,3%, enquanto Cadu Xavier (PT) figurava na terceira posição, com 16,8%.
Os números destoaram das demais pesquisas divulgadas ao longo da pré-campanha, que, em sua maioria, apontam Allyson Bezerra na liderança, algumas delas com vantagem considerada confortável sobre os demais concorrentes.
Pedido de fiscalização deu origem ao processo
A investigação começou após a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP — partidos que apoiam a candidatura de Allyson Bezerra — solicitar à Justiça Eleitoral acesso ao sistema utilizado pela Ipsensus para controlar e armazenar os dados da pesquisa.
A legislação eleitoral garante a partidos, candidatos, coligações, federações e ao Ministério Público o direito de fiscalizar pesquisas registradas, incluindo a conferência da documentação utilizada durante a coleta das entrevistas, desde que seja preservado o sigilo da identidade dos entrevistados.
Ao analisar o pedido, a desembargadora Sulamita Pacheco determinou que o instituto disponibilizasse uma série de documentos considerados essenciais para a fiscalização.
Os materiais solicitados:
Além disso, a empresa deveria participar de uma videoconferência para permitir o acesso ao sistema eletrônico utilizado durante o levantamento.
Justiça afirma que acesso ao sistema não foi concluído
A primeira reunião virtual ocorreu em 10 de julho, mas, segundo os autos, a fiscalização não pôde ser concluída.
Conforme registrado no processo, os formulários utilizados na pesquisa estavam vinculados ao aplicativo ODK, cujo acesso dependia da geração de um código por um técnico da empresa.
Ainda de acordo com a documentação judicial, esse profissional não estaria disponível em razão de um feriado na localidade onde funcionava o instituto.
Diante da situação, a magistrada concedeu novo prazo de cinco dias para cumprimento da decisão.
Uma segunda videoconferência foi realizada em 13 de julho.
Mesmo após a nova tentativa, a Federação União Progressista informou à Justiça que continuava sem conseguir acessar o sistema interno nem os formulários utilizados na pesquisa.
Ao analisar o caso, a desembargadora concluiu que a ordem judicial não havia sido integralmente cumprida e encaminhou os autos à Procuradoria Regional Eleitoral para análise de eventual prática de crime eleitoral.
Procuradoria aponta indícios de irregularidades
No parecer encaminhado ao TRE-RN, o procurador regional eleitoral Fernando Rocha de Andrade afirmou que a documentação analisada apresentava elementos que justificavam a abertura de investigação criminal.
Entre os pontos destacados pelo Ministério Público Eleitoral está a hipótese de que a Ipsensus possa ter sido utilizada como pessoa jurídica interposta para ocultar a atuação da empresa Média Inteligência em Pesquisa.
Segundo o parecer, pessoas identificadas como Augusto e Thales, que participaram das reuniões representando a Ipsensus, possuíam vínculos documentados com a Média Inteligência em Pesquisa.
O documento também afirma que os seis entrevistadores apresentados pela Ipsensus seriam os mesmos utilizados anteriormente pela Média em outra pesquisa eleitoral, coincidindo nomes e números de CPF.
Estatística e registros também foram questionados
Outro ponto mencionado pela Procuradoria envolve a estatística responsável pelo levantamento, Giovana Rillary.
Segundo o parecer, ela teria aparecido em documentos utilizando dois números diferentes de registro profissional.
De acordo com a manifestação do Ministério Público, um desses registros pertenceria ao estatístico Augusto da Silva Rocha, citado como profissional ligado à Média Inteligência em Pesquisa.
A Procuradoria também apontou inconsistências relacionadas ao trabalho de campo.
Conforme o parecer, um único código de entrevistador teria sido responsável pela realização de 620 entrevistas em 26 municípios, durante apenas cinco dias.
Outro identificador teria registrado 477 entrevistas distribuídas por 45 municípios, também no mesmo período.
Além disso, foram encontrados 11 identificadores repetidos em 24 registros, situação tratada pelo Ministério Público como possível indício de clonagem de questionários.
O parecer acrescenta ainda que a base de dados analisada não continha registros de geolocalização das entrevistas.
Polícia Federal ficará responsável pela investigação
Com base nos elementos apresentados pela Procuradoria Regional Eleitoral, a desembargadora Sulamita Pacheco acolheu o pedido para instauração de inquérito policial.
Como as pessoas inicialmente investigadas não possuem foro por prerrogativa de função, a investigação deverá tramitar sob supervisão de uma das zonas eleitorais de Natal.
Após o encaminhamento dos documentos à Polícia Federal, o procedimento cível que tramitava no Tribunal Regional Eleitoral será arquivado, permanecendo apenas a investigação criminal destinada à apuração dos fatos.
Estatístico citado já havia sido alvo de questionamentos
O nome do estatístico Augusto da Silva Rocha, citado no parecer da Procuradoria, já apareceu anteriormente em questionamentos relacionados a pesquisas eleitorais.
Em outubro de 2020, reportagem publicada pelo jornal O Globo informou que ele seria investigado pelo Conselho Regional de Estatística após ter supervisionado 937 pesquisas eleitorais realizadas por 72 institutos diferentes durante as eleições municipais daquele ano.
Na ocasião, o então presidente do Conselho Regional de Estatística da 4ª Região classificou o volume de levantamentos supervisionados como "irreal".
Em entrevista ao jornal, Augusto da Silva Rocha afirmou que trabalhava com uma equipe de cinco pessoas, era responsável apenas pela elaboração técnica e pelo plano amostral das pesquisas e não participava da área comercial nem da utilização dos levantamentos pelos institutos.
Reportagem relacionou empresa a ex-integrante da gestão Álvaro Dias
Em julho deste ano, a agência Saiba Mais publicou reportagem sobre a empresa Média Inteligência em Pesquisa, criada em junho de 2025.
Segundo a publicação, a empresa é administrada por Tales da Silva Vale, ex-ocupante de cargo comissionado na Secretaria Municipal de Comunicação durante a gestão de Álvaro Dias na Prefeitura do Natal.
A reportagem também informou que outro levantamento realizado pela Média, registrado sob o número RN-08092/2026, igualmente colocou Álvaro Dias na liderança da disputa pelo Governo do Estado, resultado que também divergiu da maioria das pesquisas divulgadas no Rio Grande do Norte.
Ainda de acordo com a reportagem da Saiba Mais, essa pesquisa teria sido contratada pelo portal O Potengi, que funcionaria no mesmo espaço de coworking onde estava sediada a empresa.
A publicação acrescenta que Augusto da Silva Rocha teve o registro profissional suspenso por 12 meses pelo Conselho Regional de Estatística da 3ª Região, em decisão tomada em outubro de 2023, relacionada à sua atuação durante as eleições de 2022.
Segundo o conselho, as irregularidades apontadas naquele processo envolviam pesquisas assinadas para empresas em situação irregular, inconsistências técnicas em questionários e falhas na elaboração dos planos amostrais.
A Ipsensus Pesquisas ainda não se manifestou sobre a decisão do TRE-RN até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento da empresa ou dos demais citados.
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