Interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Mederi revelam diálogos entre sócios de uma distribuidora de medicamentos sobre a possível distribuição de propina a agentes públicos, entre eles o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, filiado ao União Brasil e pré-candidato ao Governo do Estado.
As conversas indicam que o prefeito teria direito a um repasse de R$ 60 mil, valor correspondente a 15% de um contrato estimado em R$ 400 mil firmado com a Prefeitura de Mossoró. O modelo de divisão dos recursos foi apelidado pelos próprios empresários de “Matemática de Mossoró”.
Os diálogos foram captados entre os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, ambos sócios ligados à empresa Dismed, apontada como peça central no suposto esquema investigado.
“Matemática de Mossoró” detalha esquema
Em um dos áudios, gravado em maio de 2025, os empresários discutem que apenas metade dos produtos contratados seria efetivamente entregue ao município, apesar do pagamento integral previsto no contrato.
Segundo o diálogo interceptado, de uma ordem de compra de R$ 400 mil, apenas R$ 200 mil em medicamentos seriam entregues, enquanto o restante seria usado para viabilizar a divisão dos valores entre propinas, comissões e lucro empresarial.
No mesmo áudio, Oseas Monthalggan descreve que, desse montante, R$ 100 mil seriam destinados ao pagamento de propina, sendo R$ 60 mil atribuídos a Allyson Bezerra. Outros R$ 70 mil ficariam com os sócios como comissão, enquanto R$ 30 mil permaneceriam com a empresa.

Pagamentos em dinheiro e outros envolvidos
As conversas também mencionam percentuais adicionais e citam uma mulher chamada Fátima, ainda não identificada oficialmente pelos investigadores, que faria parte da engrenagem de distribuição dos valores ilícitos.
De acordo com a Polícia Federal, o esquema funcionaria como um modelo fixo de retorno financeiro aplicado de forma sistemática aos contratos da Dismed com órgãos públicos, sustentado por superfaturamento, emissão de notas fiscais frias e entrega parcial de medicamentos e insumos médicos.
A investigação aponta ainda que os pagamentos de propina eram feitos majoritariamente em dinheiro vivo, com o objetivo de dificultar o rastreamento bancário. Decisão judicial cita que Oseas Monthalggan foi flagrado realizando saques de aproximadamente R$ 49 mil em agências bancárias de Mossoró para viabilizar os repasses em espécie.
Dinheiro em caixa de isopor e operação no RN
Os áudios embasaram a deflagração da Operação Mederi nesta terça-feira (27), conduzida pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria Geral da União (CGU). A ação busca desarticular um suposto esquema criminoso de desvio de recursos públicos e fraudes em licitações na área da saúde.
Ao todo, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão em municípios do Rio Grande do Norte, além da adoção de medidas cautelares e patrimoniais determinadas pela Justiça.
Segundo balanço divulgado pela Polícia Federal às 18h, foram apreendidos 33 celulares, 34 dispositivos eletrônicos, entre notebooks, discos rígidos e tablets, quatro veículos, 117 documentos e R$ 251 mil em espécie.
Parte do dinheiro foi encontrada dentro de uma caixa de isopor na residência de Oseas Monthalggan Fernandes Costa, um dos sócios da Dismed. O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, também foi alvo da operação, tendo um celular, dois discos rígidos e um notebook apreendidos em sua residência.
Fraudes em outros municípios
Além de Mossoró, as investigações apontam que o suposto esquema teria ocorrido em outros cinco municípios potiguares, José da Penha, São Miguel, Serra do Mel, Paraú e Tibau. Mandados também foram cumpridos em Natal e Upanema.
Segundo a Polícia Federal, a operação teve como base auditorias realizadas pela Controladoria Geral da União, que identificaram falhas graves na execução dos contratos, com indícios de compra de materiais não entregues, fornecimento inadequado de insumos e sobrepreço nos valores pagos pelo poder público.