Polícia
O crime organizado no Rio Grande do Norte vive uma transformação silenciosa, mas com potencial para mudar profundamente o cenário da segurança pública nos próximos anos. O enfraquecimento do Sindicato do Crime (SDC) e o avanço do Comando Vermelho (CV) sobre áreas antes controladas pela facção potiguar têm redesenhado o mapa das organizações criminosas no estado e acendido um alerta para as autoridades.
Em entrevista ao BNews RN, o promotor de Justiça Silvio Brito, da Promotoria de Justiça de Delitos de Organizações Criminosas do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), afirma que esse movimento já pode ser observado por meio de investigações e relatórios de inteligência e que seus reflexos vão muito além da disputa entre criminosos.
Segundo ele, o crescimento do Comando Vermelho representa um desafio muito maior para o poder público devido à estrutura nacional e internacional da organização.
"Alguns relatórios de inteligência elaborados pelo GAECO/MPRN e investigações conduzidas por unidades especializadas da Polícia Civil e Federal têm mostrado um avanço rápido e significativo do Comando Vermelho sobre áreas que até então eram dominadas pelo Sindicato do Crime. Dezenas de antigos integrantes do SDC, incluindo algumas lideranças, deixaram a facção e se associaram ao CV, acelerando esse processo de fragmentação", afirma.
O promotor acrescenta que esse avanço tem provocado reações violentas por parte da facção potiguar, alimentando novos confrontos entre os grupos criminosos.
Na avaliação de Silvio Brito, a diferença entre enfrentar o Sindicato do Crime e combater o Comando Vermelho vai muito além da quantidade de integrantes.
Enquanto o Sindicato possui atuação restrita ao Rio Grande do Norte, o CV mantém presença em diversos estados brasileiros e também em outros países, além de controlar rotas internacionais do tráfico de drogas e dispor de grande poder financeiro e bélico.
"O Comando Vermelho é a segunda maior organização criminosa do Brasil, centenas de vezes maior e mais organizada do que o Sindicato do Crime. Conta com dezenas de milhares de integrantes, acesso às principais fontes produtoras de drogas, vasto arsenal de grosso calibre e faturamento bilionário", explica.
Para o promotor, essa estrutura amplia significativamente a complexidade do combate às facções no estado.
Embora ataques coordenados como os registrados em anos anteriores não tenham voltado a ocorrer, Silvio Brito afirma que a disputa por territórios já produz reflexos diretos na violência.
Segundo ele, o aumento das mortes acontece principalmente nas periferias e, em sua maioria, envolve integrantes das próprias facções criminosas.
"Essa escalada de crimes violentos já vem ocorrendo. O número de mortes tem aumentado nas periferias. Porém, essa violência tem ficado circunscrita, em sua maioria, aos integrantes das facções em disputa, atingindo apenas episodicamente terceiros."
O promotor avalia que, diferentemente dos episódios registrados na última década — como o Massacre de Alcaçuz, em 2017, e as ondas de ataques a ônibus e prédios públicos conhecidas como "salves" —, as organizações criminosas passaram a concentrar esforços no enfrentamento direto aos rivais.
Na avaliação dele, essa estratégia reduz a repercussão pública dos confrontos e evita mobilizações mais intensas do Estado.
Para Silvio Brito, a maior preocupação não está apenas na disputa entre facções, mas na mudança do modelo de atuação do crime organizado.
Segundo ele, o Rio Grande do Norte pode seguir um caminho já observado em áreas dominadas pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro, onde organizações criminosas passaram a exercer controle territorial e cobrar taxas de moradores e comerciantes.
"É inevitável que, com o avanço do CV no RN, essas extorsões, que ainda são bem episódicas por aqui, comecem a ocorrer com maior frequência e grau de intensidade."
O promotor explica que, inicialmente, os valores cobrados costumam ser baixos e vêm acompanhados da promessa de proteção aos moradores — prática semelhante à adotada por organizações mafiosas.
Com o passar do tempo, porém, essas cobranças tendem a crescer.
"À medida que as extorsões forem aumentando, aqueles que se recusarem a pagar começarão a sofrer represálias, que vão desde ameaças e intimidações até roubos, expulsão da comunidade e até mesmo morte."
Para conter esse avanço, Silvio Brito defende uma atuação integrada entre diferentes órgãos públicos e afirma que o enfrentamento ao crime organizado não pode ficar restrito às polícias.
Na avaliação dele, é necessário um pacto nacional envolvendo governos, Poder Judiciário, Ministério Público, Congresso Nacional, instituições de fiscalização financeira e até empresas privadas.
Entre as medidas apontadas pelo promotor estão o fortalecimento do combate à lavagem de dinheiro, maior integração entre as forças policiais, criação de forças-tarefa permanentes nos estados, modernização das investigações e redução da burocracia que, segundo ele, ainda dificulta o trabalho policial.
Silvio Brito também defende o fortalecimento das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCO), modelo já existente na esfera federal, e a criação de estruturas semelhantes em âmbito estadual.
Apesar do diagnóstico preocupante, o promotor acredita que o avanço das organizações criminosas ainda pode ser contido.
Segundo ele, o Rio Grande do Norte tem condições de frear esse crescimento, desde que haja investimento, integração entre as instituições e prioridade política para o enfrentamento das facções.
"O governo do Estado pode sim conseguir estancar o avanço dessas organizações criminosas, mas é algo extremamente difícil sem o engajamento do governo federal."
Para ele, enquanto uma política nacional de combate ao crime organizado não é implementada, o estado pode adotar medidas imediatas, como ampliar a integração entre as polícias, fortalecer operações conjuntas, aumentar a presença policial em áreas dominadas pelas facções e identificar rapidamente suas lideranças.
A avaliação do promotor é de que o cenário exige atenção permanente. Mais do que uma troca de protagonismo entre organizações criminosas, o que está em curso, segundo ele, é uma transformação na forma de atuação das facções, com impactos que podem atingir diretamente a população caso o avanço não seja contido.
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