Polícia

51 anos depois da chacina, "O Monstro de Capim Macio" ainda marca a história policial de Natal

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Chacina aconteceu em agosto de 1975 e chocou a capital potiguar, quando "O Monstro" executou uma família alemã a tiros de espingarda  |   BNews RN - Divulgação Reprodução
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

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Publicado em 09/08/2026, às 06h00



Há crimes que ultrapassam as páginas policiais e permanecem na memória de uma cidade por décadas. Em Natal, um dos casos que mais chocaram a população na década de 1970 está completando 51 anos. A imprensa batizou o caso de "O Monstro de Capim Macio”, apelido dado a José Vilarim Neto, um jovem de 25 anos que trabalhava como caseiro. A tiros de espingarda, ele matou uma família alemã.

O crime aconteceu na noite de 8 de agosto de 1975, em uma propriedade rural localizada em Capim Macio, na Zona Sul de Natal. À época, o lugar era uma região isolada da cidade, cheio de granjas e chácaras. Décadas depois, a paisagem mudou completamente e a região se transformou em um dos bairros mais valorizados da capital. 

"O Monstro de Capim Macio"

O homem apontado como responsável pela chacina foi identificado como José Vilarim Neto, mais conhecido apenas como Vilarim. Ele já havia trabalhado como caseiro na propriedade da família que ele matou.

De acordo com a imprensa, o jovem era baixo e moreno, e extremamente tímido, calado. Vilarim teria invadido a residência empunhando uma arma longa, uma espingarda calibre 22. As circunstâncias e as motivações que levaram ao crime nunca foram esclarecidas. Sabe-se apenas que ele invadiu a granja e iniciou uma sequência sangrenta de assassinatos.

"Lembro também do assassino José Vilarim Neto, de 25 anos, chamado de O Monstro de Capim Macio. Na noite de 8 agosto de 1975, chacinou uma família na granja de mesmo nome usando um rifle calibre 22. À época, a região era um ambiente silvestre, retiro de famílias em finais de semana e, claro, um ótimo lugar para moradia de quem quisesse sossego e paz. Mas foi naquele paraíso que se deu a tragédia que chocou Natal, transformando Vilarim numa espécie de besta assassina, figura pavorosa que permeava de medo o imaginário popular".

O relato acima consta na obra 'Memórias do Jornalismo no Rio Grande do Norte', do jornalista Emanoel Barreto, obra organizada por Gustavo Sobral e Juliana Bulhões.

Ainda sobre Vilarim, Barreto acrescentou: "Quando preso, mais de uma semana depois, cheguei a entrevistá-lo: deu declarações confusas e não explicou o acesso de fúria que resultou na morte de Alexe Flena, de sessenta anos, e suas netas Carla, treze anos, e Anthonieta, onze anos, além da empregada doméstica Ana Lídia, de quatorze anos, grávida. Praticou necrofilia com uma das crianças e atirou os corpos num buraco que havia cavado nos fundos da casa. Tentou matar a mãe, a professora alemã Ruth Looman, que chegou à granja após a tragédia. Mas Ruth, mesmo ferida a tiros no ombro, conseguiu enfrentá-lo, refugiar-se em casa e salvar a vida de Astrid, a filha que a acompanhava". 

O pai de Ruth, avô das crianças, também sobreviveu. Ele não estava na propriedade no momento do crime porque participava de um compromisso relacionado à Maçonaria.

Ilustração da matéria especial de Alice Lima, na revista Bzzz, sobre o caso do Monstro de Capim Macio
Ilustração da matéria especial de Alice Lima, na revista Bzzz, sobre o caso d'O Monstro de Capim Macio

A caçada ao "Monstro"

A dimensão da chacina provocou uma forte mobilização policial. Natal ficou chocada com a brutalidade do episódio.

José Vilarim Neto foi preso dias depois do crime. Entre os policiais envolvidos na investigação estava Maurílio Pinto de Medeiros, que ainda iniciava sua trajetória na segurança pública do estado. Ele ainda se tornaria uma das figuras mais conhecidas da história policial potiguar, ficando marcado como “Xerife”.

Sobre a prisão de Vilarim, em matéria especial publicada em 2014 pela jornalista Alice Lima, da revista Bzzz, ela conta o drama:

Dias depois do crime, Vilarim foi encontrado em uma granja próxima à cidade de Macaíba, na região metropolitana. Repórteres que cobriram o caso lembram da frieza e da aparente desorientação do bandido. Ele não conseguia demonstrar emoção, ou mesmo explicar o porquê da barbárie.

Pela agilidade e pela força, pareceu ao fazendeiro que tinha encontrado um ótimo funcionário. Quando chegaram ao local, os policiais, disfarçados, o encontraram com uma enxada na mão. Pediram o objeto como se também fossem trabalhar a terra e só depois o prenderam. Até entre os profissionais da segurança, o medo da fúria mortal daquele homem assustava. Como se ele fosse mesmo um personagem de filme de terror.

Anos se passaram, quase cinco, até o dia do julgamento do assassino, que estava com 29 anos. Foi julgado pelos quatro homicídios, necrofilia e lesão corporal. Após 12 horas, a sentença: condenado a 132 anos de prisão e mais dois anos de medida de segurança. Calado e indiferente, o réu ouviu seu destino ser traçado e nada comentou, nem quis falar com a imprensa.

Fuga ou morte no "Caldeirão do Diabo”?

Depois de condenado, Vilarim foi encaminhado para a antiga Penitenciária João Chaves, em Natal, presídio que ficou historicamente conhecido pelo apelido de “Caldeirão do Diabo”, em referência às condições severas do sistema prisional da época. 

Mesmo dentro da prisão, a história de Vilarim continuou provocando reações. Um dos episódios que ficaram registrados nos relatos sobre o período de confinamento envolve partidas de futebol disputadas dentro da penitenciária. Em uma dessas ocasiões, Vilarim teria entrado em campo usando um uniforme completamente preto. A partida teria sido acompanhada por uma forte reação dos demais detentos, com vaias e escolta de policiais armados com fuzis.

E ainda há versões distintas sobre o fim de Vilarim. Parte da imprensa chegou a noticiar que o preso havia fugido alguns anos após a condenação, acompanhado de outros dois detentos. Porém, também houve relatos de que "O Mostro" teria sido assassinado dentro da cadeia.

O fato é que as administrações que passaram pelo Calderão do Diabo jamais esclareceram o que de fato aconteceu. Não se sabe até hoje o destino final de Vilarim nem dos outros dois internos.

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