Mesmo recebendo salários menores que os homens, as mulheres continuam pagando mais caro por diversos produtos do cotidiano. Estudos nacionais e internacionais mostram que itens direcionados ao público feminino frequentemente têm preços mais altos, mesmo quando são praticamente idênticos às versões destinadas aos homens.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a renda média feminina corresponde a cerca de 78% da masculina, diferença superior a 20%. Apesar disso, a desigualdade se amplia no consumo, onde produtos destinados às mulheres costumam custar mais.
Já um levantamento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) mostra que roupas de bebê destinadas a meninas são, em média, 23% mais caras do que as voltadas a meninos. A diferença também aparece no setor de brinquedos, em que produtos femininos chegam a custar 26% a mais.
O fenômeno da chamada “taxa rosa”
Essa diferença de preços é conhecida internacionalmente como pink tax, ou “taxa rosa”, prática de mercado em que produtos voltados às mulheres são vendidos por valores maiores. Em alguns casos, a distinção está apenas na cor ou no marketing direcionado ao público feminino.
Um exemplo identificado na pesquisa da ESPM é o kit de lâmina de barbear. A versão rosa pode custar até 100% mais do que a masculina, apesar de possuir características praticamente iguais. No geral, o estudo indica que mulheres pagam cerca de 12,3% a mais por itens equivalentes.
O fenômeno não se restringe ao Brasil. Um levantamento realizado pelo Departamento de Assuntos do Consumidor de Nova York, conhecido como Consumer Affairs (DCA), analisou mais de 800 produtos de 90 marcas diferentes em 35 categorias. O resultado apontou que produtos destinados ao público feminino são mais caros em 42% dos casos.
Mercado global reforça desigualdade
A mesma tendência foi observada em outros países. Pesquisa publicada pelo jornal britânico The Times apontou que produtos considerados femininos podem custar, em média, 37% a mais do que equivalentes masculinos.
Itens como canetas, roupas e lâminas de barbear aparecem entre os exemplos em que a diferença de preço está diretamente associada ao público-alvo feminino, muitas vezes marcada apenas pela cor rosa ou por estratégias de marketing.
Especialistas apontam que a prática está relacionada a fatores históricos e comerciais. Segundo análises de mercado, ao longo do século XX o setor de consumo passou a desenvolver estratégias específicas para estimular compras entre mulheres, inclusive com diferenciação de design e posicionamento de produtos.
Explicações e críticas à prática
Pesquisadores destacam que não existe uma única causa para o fenômeno. Para especialistas em consumo e marketing, a chamada taxa rosa faz parte de um contexto amplo de desigualdades econômicas e sociais entre homens e mulheres.
Além das estratégias de marketing, empresas costumam justificar as diferenças de preços com argumentos como custos de produção, materiais distintos, marketing especializado e variações tributárias. No entanto, estudiosos afirmam que esses fatores nem sempre explicam a discrepância.
Outro ponto apontado por especialistas é que a prática impacta principalmente mulheres negras, pardas e indígenas, que historicamente enfrentam maiores barreiras econômicas e sociais.
Debate político e defesa do consumidor
No Brasil, a discussão sobre a taxa rosa vem ganhando espaço em projetos legislativos. A deputada Natália Bonavides apresentou um projeto de lei que busca incluir essa prática no rol de condutas abusivas do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
A proposta prevê a aplicação de multas e sanções a empresas que pratiquem diferenciação de preços baseada apenas em gênero. Para entidades de defesa do consumidor, a medida pode ajudar a reduzir práticas discriminatórias no mercado.
Tributação também influencia o problema
Especialistas em tributação afirmam que, apesar do nome “taxa rosa”, a diferença não decorre diretamente de impostos específicos para mulheres. O presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) explica que a carga tributária é a mesma para produtos equivalentes.
O impacto ocorre porque a tributação brasileira incide principalmente sobre o consumo. Como as mulheres recebem, em média, salários menores, acabam sendo proporcionalmente mais afetadas pelo custo final dos produtos.
Pesquisadores também apontam que determinados itens consumidos majoritariamente por mulheres, como cosméticos ou produtos de cuidado pessoal, costumam ser classificados como supérfluos, o que pode elevar as alíquotas.
Reforma tributária e empreendedorismo feminino
O debate sobre desigualdade de gênero também chegou às discussões da reforma tributária no Congresso Nacional. Especialistas alertam que o modelo atual pode ampliar discrepâncias já existentes no mercado.
Um exemplo citado por pesquisadores envolve métodos contraceptivos. Enquanto preservativos masculinos possuem tributação aproximada de 16,25%, a pílula anticoncepcional pode chegar a cerca de 30%, e dispositivos intrauterinos ultrapassam 32%.
As mulheres representam 51,1% da população brasileira e lideram metade dos lares do país. Para analistas econômicos, qualquer aumento no custo de consumo tende a impactar diretamente esse grupo.
Pressão política para mudanças
Nos últimos anos, iniciativas políticas e empresariais têm tentado reduzir a desigualdade no consumo. Entre elas está a atuação da Frente Parlamentar da Mulher Empreendedora na Câmara dos Deputados.
O grupo trabalha em conjunto com entidades empresariais para discutir medidas que reduzam distorções de mercado e ampliem oportunidades para mulheres empreendedoras.
Especialistas defendem que o debate precisa envolver governo, empresas e sociedade civil. Para eles, apenas a combinação de políticas públicas, regulação e mudança cultural poderá reduzir as diferenças de preço associadas ao gênero no mercado de consumo.