Negócios
O empreendedorismo entre jovens ganhou espaço no Brasil nos últimos anos acompanhado por mudanças no perfil de quem decide conduzir o próprio negócio. Em 2025, o país reunia aproximadamente 4,9 milhões de donos de negócios com até 29 anos, segundo levantamento do Sebrae baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Além de representarem cerca de 16% dos donos de negócios brasileiros, esses jovens chegam ao mercado com níveis de escolaridade maiores do que os registrados no início da série histórica. Entre 2012 e 2025, a parcela com ensino superior incompleto ou mais praticamente dobrou, passando de aproximadamente 14% para quase 28%. O percentual com ensino médio completo também cresceu, de 31% para 46% no mesmo intervalo.
A renda também avançou. O rendimento real médio habitual do trabalho dos jovens donos de negócios passou de R$ 1.933 no último trimestre de 2021 para R$ 2.576 no fim de 2025. Apesar do crescimento, a renda ainda ficou cerca de 30,5% abaixo da registrada entre empreendedores adultos e 30,6% abaixo da dos seniores.
No Nordeste, onde estão 25% dos jovens donos de negócios do país, esse cenário ganha contornos próprios. Em Natal, duas histórias ajudam a dar rosto a esses números: Natanael Paccelle transformou uma compra equivocada de duas câmeras digitais em uma loja que hoje atende clientes de diferentes estados, enquanto Lucas Matheus levou para o mercado a experiência de criar roupas que representassem uma identidade que ele não encontrava na moda disponível.
São trajetórias diferentes, mas que partem de uma mesma cidade e mostram como um interesse pessoal pode deixar de ser apenas hobby, necessidade ou curiosidade para se transformar em atividade profissional e fonte de renda.
Natanael Paccelle não começou pensando em abrir uma loja de câmeras. A ideia apareceu depois de uma situação quase banal. Ele queria uma câmera digital para registrar momentos durante uma viagem e acabou comprando duas Sony Cyber-Shot. Ao perceber que uma delas não funcionava como esperava, comprou outra. Só depois descobriu que a primeira estava em um modo diferente de configuração.
Com duas câmeras em mãos e sem necessidade de ficar com ambas, decidiu anunciar uma delas no próprio Instagram. A venda aconteceu rapidamente.
Foi quando surgiu uma pergunta que mudaria o rumo da história: se havia alguém disposto a comprar aquela câmera, talvez também existisse espaço para outras.
“E se eu procurar mais câmeras pelo mesmo preço que comprei e revender?”
A partir dali, o que era uma tentativa de se desfazer de um equipamento virou a NEI DIGICAMS. Natanael começou com cerca de quatro câmeras e uma estrutura simples de embalagem, caixas e carregadores. O dinheiro das primeiras vendas era reinvestido na compra de novos equipamentos.
A primeira câmera vendida foi uma Sony W830 rosa, comprada por uma amiga. O episódio serviu como uma espécie de confirmação de que havia mercado para aquilo que, inicialmente, era apenas uma experiência.
O interesse também estava ligado a uma mudança na relação dos jovens com equipamentos que, durante anos, foram considerados ultrapassados. Câmeras digitais dos anos 2000 e 2010 passaram a ser procuradas pela estética das imagens, pelo flash característico e pela experiência diferente de fotografar.
“Hoje, muita coisa que era considerada velha voltou a ser vista como diferente, autêntica e legal”, explica Natanael.
O público principal da loja está entre 16 e 26 anos, majoritariamente feminino, e procura as câmeras para registrar viagens, festas, festivais, shows, encontros com amigos e momentos do cotidiano.
O Instagram se tornou o principal canal de vendas. Além de apresentar os equipamentos, Natanael passou a produzir vídeos, fazer parcerias e impulsionar conteúdos. A estratégia ajudou a levar a loja para além de Natal.
“Desde o primeiro mês já começaram a aparecer pessoas de outros estados. Aí eu fui entendendo que dava para estruturar a loja para vender para o Brasil inteiro”, conta.
Hoje, a NEI DIGICAMS envia câmeras para diferentes regiões do país. Natanael concentra boa parte das tarefas da operação: pesquisa fornecedores, testa os equipamentos, produz conteúdo, atende clientes, organiza o estoque, prepara os pedidos e acompanha os envios.
O que começou como uma experiência paralela se tornou sua principal fonte de renda.
A história de Lucas Matheus começou de uma maneira diferente. Antes de pensar em vender roupas, ele queria encontrar peças que conversassem com sua própria identidade.
Na adolescência, Lucas tinha dificuldade para encontrar em Natal roupas com as quais se identificasse. A moda masculina lhe parecia limitada, enquanto a seção feminina, embora apresentasse mais possibilidades, também poderia trazer desconforto diante do medo do julgamento.
A resposta para esse incômodo acabou vindo pela criação.
Desde criança, Lucas já tinha interesse por desenho, figurino e referências visuais. As fantasias e os figurinos das escolas de samba chamavam sua atenção e ficaram como referência para o trabalho que desenvolveria anos depois.
Foi durante a graduação em Design na UFRN, iniciada por volta de 2015, que ele percebeu que a moda poderia deixar de ser apenas um interesse e se transformar em profissão. Em uma disciplina, produziu a primeira peça de roupa e recebeu uma avaliação positiva.
Em 2016, apresentou uma primeira coleção em um evento de Design da universidade, o Bulha. Era o começo da LMX.
“Eu percebi que existia uma demanda por uma moda diferente. Tinha gente faminta por uma moda que fugisse um pouco do que já estava sendo oferecido”, afirma Lucas.
A proposta da marca nasceu justamente desse desejo de criar sem seguir padrões rígidos. As peças são produzidas sob demanda, com possibilidade de ajustes de acordo com as medidas e características de cada cliente.
O modelo também foi uma escolha financeira. Sem capital para manter grandes estoques, Lucas encontrou na produção por encomenda uma maneira de reduzir desperdícios e controlar os custos.
A lógica está alinhada ao conceito de slow fashion adotado pela marca, que prioriza uma produção mais cuidadosa e em menor escala.
“Eu não queria reproduzir aquela lógica de produção acelerada das grandes marcas. Queria ter mais cuidado com o que eu estava fazendo, com a peça, com o cliente e até comigo”, explica.
O processo começa com a criação de uma peça-piloto e a produção dos materiais de divulgação. Depois do lançamento, os pedidos são feitos individualmente. O cliente informa tamanho e medidas, e a peça é produzida do zero, podendo receber adaptações.
A proposta também responde a uma dificuldade que Lucas identifica no próprio mercado brasileiro: a variedade de corpos nem sempre é contemplada pelas medidas padronizadas.
Embora tenham construído negócios que ultrapassaram as fronteiras do Rio Grande do Norte, Natanael e Lucas não tratam Natal apenas como o lugar onde as empresas começaram.
Para Natanael, a cidade foi a base de uma operação que rapidamente ganhou alcance nacional. A experiência mostrou que um negócio digital não precisava estar localizado em um grande centro para encontrar consumidores em outras partes do país.
Lucas, por outro lado, vê Natal também como parte da identidade criativa da LMX.
A cidade, a cena cultural, os artistas, o clima e os espaços alternativos aparecem como referências, ainda que não estejam necessariamente reproduzidos de forma literal nas coleções.
“Eu não acho que o meu trabalho seria o mesmo se eu não tivesse crescido em Natal”, diz.
Para ele, ser potiguar não significa necessariamente produzir uma moda limitada à imagem de sol, praia e verão. A estética também pode passar pelo streetwear, pelo punk, pelo brilho, pelo couro, pelo vinil e por diferentes formas de expressão.
“Existe uma criatividade muito forte aqui. Eu gosto da ideia de mostrar que dá para fazer uma moda autoral, diferente e de qualidade a partir de Natal.”
A distância dos grandes centros de moda, ao mesmo tempo, impõe dificuldades. Lucas cita problemas para encontrar determinados tecidos, fornecedores, mão de obra especializada, fotógrafos, investimentos e iniciativas voltadas ao setor.
O cenário exige a criação de redes próprias e uma busca constante por soluções.
“Estar longe desses grandes centros dificulta algumas coisas, mas também faz a gente criar nossos próprios caminhos e nossas próprias pontes”, afirma.
As duas histórias também começaram enquanto os empreendedores ainda estavam na universidade.
Natanael precisou conciliar a NEI DIGICAMS com aulas, trabalhos, provas e, por um período, um estágio na área de publicidade. A rotina envolvia produção de conteúdo, atendimento, estoque, embalagem e envio de produtos, além das obrigações acadêmicas.
Ele deixou o estágio quando a loja cresceu e passou a oferecer, naquele momento, um retorno financeiro maior.
“Era muito difícil fazer tudo sozinho e ainda estudar. Não existia uma separação perfeita entre faculdade e loja. Eu precisava me organizar para conseguir dar conta”, conta.
O conhecimento adquirido na graduação em publicidade e comunicação também acabou incorporado ao negócio, especialmente na produção de conteúdo, comportamento do consumidor, divulgação e construção da marca.
Lucas enfrentou uma dinâmica parecida durante o curso de Design. O trabalho na LMX exigia abrir mão de horas de sono e momentos de lazer para desenvolver as coleções e manter a atividade funcionando.
Agora formado, ele passou a se dedicar integralmente à marca.
Os dados do Sebrae mostram que essa combinação entre formação e empreendedorismo não é incomum. Em 2025, 15% dos jovens donos de negócios frequentavam instituições de ensino — proporção quatro vezes maior que entre adultos e 14 vezes maior que entre seniores.
Outro ponto em comum entre as duas trajetórias é a estrutura enxuta. Segundo o levantamento do Sebrae, 93% dos jovens donos de negócios no Brasil atuavam por conta própria em 2025, enquanto apenas 7% eram empregadores.
Natanael está dentro desse perfil. A NEI DIGICAMS cresceu sem uma grande estrutura física ou uma equipe extensa. A operação continua concentrada principalmente nele, com ajuda eventual da mãe quando precisa viajar.
Lucas também mantém a LMX em uma escala compatível com a proposta de produção sob demanda. O modelo permite que cada coleção seja desenvolvida sem a necessidade de grandes estoques.
Para os dois, porém, empreender significou muito mais do que transformar uma habilidade em dinheiro.
Natanael viu uma oportunidade surgir de um erro de compra. Lucas encontrou na moda uma resposta para uma necessidade que carregava desde a adolescência.
“Eu acho que empreender jovem em Natal é ter coragem de testar uma ideia e aprender com os erros. Eu nunca imaginei que aquelas duas câmeras compradas por engano iam virar uma loja com clientes no Brasil inteiro”, afirma Natanael.
Lucas resume a própria trajetória em uma orientação que também traduz o caminho percorrido por ele:
“Tem que tirar do papel e começar. Não precisa esperar ficar perfeito. Você começa, aprende, melhora e continua.”
As duas histórias ainda estão em construção.
Natanael pretende continuar expandindo a NEI DIGICAMS e descobrir até onde a loja pode chegar. Ao mesmo tempo, mantém o interesse pela publicidade e pela comunicação e considera a possibilidade de morar fora do país no futuro.
Lucas trabalha desde o ano passado na coleção de 2027 da LMX, chamada “Não Olhe Para Uma Estrela”. A ideia é manter a produção autoral e sob demanda, embora ele também avalie incluir algumas peças prontas para atender clientes que precisam de uma entrega mais rápida.
Enquanto desenvolve a nova coleção, continua estudando modelagem, corte e costura e design gráfico.
Em comum, os dois seguem construindo negócios que começaram pequenos e nasceram de experiências pessoais.
Os números nacionais apontam para milhões de jovens donos de negócios. Em Natal, histórias como as de Natanael Paccelle e Lucas Matheus mostram como esses números podem ganhar nome, rosto e trajetória quando uma ideia deixa de ser apenas interesse pessoal e passa a ocupar espaço no mercado.
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