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País afunda em perdas bilionárias com explosão das bets, revela estudo

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Cerca de 17,7 milhões de brasileiros apostam, com perdas significativas em saúde mental e qualidade de vida  |   BNews RN - Divulgação Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Giovana Gurgel

por Giovana Gurgel

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Publicado em 02/12/2025, às 13h41



Jogos de azar e apostas online custam ao Brasil R$ 38,8 bilhões por ano, segundo o estudo A saúde dos brasileiros em jogo, divulgado nesta terça-feira, 2. O levantamento estima que o montante corresponde ao impacto direto e indireto desse mercado na saúde, no orçamento público e na vida dos apostadores, com danos que vão de suicídios a desemprego e gastos médicos.

A cifra representa quase um terço do orçamento do Minha Casa, Minha Vida de 2023 e seria suficiente para ampliar em 23% os valores movimentados pelo Bolsa Família neste ano. O estudo foi realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, pela Umane e pela Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental.

As estimativas foram calculadas a partir da expansão das apostas online no país, cenário impulsionado pela tecnologia, pela ampla exposição midiática e pela falta de políticas públicas robustas para mitigar os riscos do jogo.

Escalada das perdas

Os pesquisadores afirmam que o Brasil somou 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses, número considerado alarmante diante de 12,8 milhões de pessoas em situação de risco relacionadas a apostas, segundo dados da Unifesp.

Inspirado em modelos britânicos, o estudo estimou perdas que incluem R$ 17 bilhões por mortes associadas a suicídios e R$ 10,4 bilhões pela queda na qualidade de vida decorrente de depressão.

Os cálculos também apontam R$ 3 bilhões gastos em tratamentos médicos para depressão, R$ 2,1 bilhões destinados ao seguro-desemprego e R$ 4,7 bilhões em custos com encarceramento ligado a atividades criminais. A perda de moradia soma mais R$ 1,3 bilhão.

O documento aponta que 78,8% de todo o prejuízo econômico, cerca de R$ 30,6 bilhões, está diretamente ligado à saúde dos brasileiros afetados pelo jogo.

Impacto na vida dos jogadores

Os autores reforçam que estudos internacionais já demonstram a relação entre transtorno do jogo, agravamento de quadros de ansiedade e aumento do risco de suicídio. Na leitura dos pesquisadores, a expansão acelerada das bets já compromete orçamentos familiares e intensifica o sofrimento mental.

A diretora de Relações Institucionais do Ieps, Rebeca Freitas, avalia que a falta de regulação firme e de fiscalização consistente fortalece o cenário de adoecimento e endividamento. Para ela, as apostas já fazem parte da rotina de milhões de brasileiros e exigem respostas imediatas para proteção da população.

Segundo Rebeca, o lobby comercial hoje incentiva a prática de forma agressiva, diferentemente do que ela considera necessário para reduzir os danos à saúde pública.

Arrecadação insuficiente

O estudo revela que, enquanto o país perde R$ 38,8 bilhões em danos, a arrecadação das bets segue muito inferior. Em 2024, brasileiros movimentaram R$ 240 bilhões em apostas e, em agosto, só beneficiários do Bolsa Família destinaram R$ 3 bilhões a esse mercado por meio de Pix.

As bets foram legalizadas em 2018, regulamentadas apenas em 2023 e passaram a pagar mais impostos a partir de 2025. Até setembro deste ano, a receita arrecadada somava R$ 6,8 bilhões, chegando perto de R$ 8 bilhões em outubro, ainda insuficiente para cobrir os custos sociais.

O contraste fica ainda maior quando se observa que apenas 1% da arrecadação vai para o Ministério da Saúde, o que resultou em repasse de R$ 33 milhões até agosto, sem qualquer garantia de aplicação direta na Rede de Atenção Psicossocial do SUS.

Debate político e entraves

No Senado, tramita o Projeto de Lei 5473/2025, que propõe elevar a tributação das bets de 12% para até 24% sobre a receita bruta. Além disso, apostadores já pagam 15% de Imposto de Renda sobre prêmios recebidos.

Mesmo assim, parlamentares rejeitaram o relatório final da CPI das Bets, que investigou impacto econômico, influência de celebridades e possíveis ligações com o crime organizado.

Essa foi a primeira vez em dez anos que uma CPI do Senado teve o documento final recusado. O setor segue crescendo, com regras consideradas frágeis por especialistas em saúde pública.

Para o Ieps e demais autores da pesquisa, a ausência de ações contundentes contribui para agravar transtornos mentais e manter famílias endividadas.

Mercado e emprego

Na economia, o levantamento aponta que a atividade das bets tem efeito mínimo na geração de empregos formais. Dados do Ministério do Trabalho mostram que o setor registrava apenas 1.144 vagas formais em 2024, número irrisório diante da movimentação bilionária.

Os pesquisadores calculam que, a cada R$ 291 de receita gerada pelas empresas, apenas R$ 1 retorna em salário. Na prática, cada trabalhador formal produz cerca de R$ 3 milhões mensais em receitas, mas recebe somente 0,34% desse valor.

O estudo também alerta para a informalidade: 84% dos trabalhadores do setor não contribuíram para a previdência em 2024, enquanto a média nacional era de 36%, segundo a Pnad Contínua.

Medidas internacionais

Para enfrentar o problema, o dossiê destaca práticas adotadas no Reino Unido, como autoexclusão por até cinco anos, controle rígido da publicidade e destinação de metade da arrecadação dos impostos ao tratamento de pessoas afetadas por vício em apostas.

As regras britânicas proíbem anúncios direcionados a menores e vetam peças que apresentem o jogo como solução financeira ou usem influenciadores com apelo entre jovens.

Já no Brasil, o Ieps propõe estratégias de mitigação, como aumentar a parcela da taxação destinada à saúde, capacitar profissionais do SUS, restringir propagandas, limitar o acesso de grupos vulneráveis e criar regras mais duras para empresas.

Resistência do setor

As operadoras de apostas, representadas pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, contestam qualquer aumento de imposto. A entidade argumenta que o aumento de carga tributária pode fortalecer o mercado clandestino e fragilizar ainda mais o setor regulado.

Segundo o IBJR, mais de 51% das apostas online no Brasil ocorrem na ilegalidade. Para eles, tributar mais significa empurrar operadores licenciados para o mercado paralelo e comprometer tanto a competitividade quanto a arrecadação.

A pesquisa, porém, aponta que, sem políticas rígidas de controle e prevenção, o jogo continuará custando caro ao país, com prejuízos bilionários e efeitos profundos sobre a saúde dos brasileiros.

Classificação Indicativa: Livre

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