Geral

Nove anos depois, acusados da maior carnificina do sistema prisional do RN ainda estão longe da sentença

PMRN
Desde 2017, quinze réus aguardam sentença para saber se irão ou não a júri pelo massacre de 27 presos dentro da Penitenciária Estadual de Alcaçuz  |   BNews RN - Divulgação PMRN
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

[email protected]

Publicado em 22/02/2026, às 06h00



Em janeiro de 2017, o sistema prisional do Rio Grande do Norte entrou para a história pelos piores motivos. A rebelião na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, na Grande Natal, terminou com 27 detentos mortos em circunstâncias brutais. Nove anos depois, o processo que apura o chamado “Massacre de Alcaçuz” ainda não tem data para sentença ou julgamento.

A chacina ocorreu durante um motim que expôs o colapso do sistema carcerário potiguar. Cabeças foram arrancadas, corpos esquartejados e queimados. O cenário visto após o controle da rebelião era de devastação: internos armados com barras de ferro, vergalhões, facas artesanais e pedras protagonizaram uma verdadeira batalha campal. Houve também uso de armas de fogo, embora com pouca munição.

Massacre de Alcaçuz aconteceu /  durante confronto entre facções criminosas / Foto: Andressa Anholete/AFP
Massacre de Alcaçuz aconteceu / durante confronto entre facções criminosas / Foto: Andressa Anholete/AFP

15 réus no banco dos acusados

Ao todo, 15 homens foram denunciados e deverão ser submetidos a júri popular. Desses, 14 permanecem presos. Um dos acusados está foragido e segue sendo procurado. Por tramitar sob sigilo judicial, os nomes dos réus — inclusive o do fugitivo — não podem ser divulgados.

O processo está sob responsabilidade da Unidade Judiciária de Delitos de Organizações Criminosas (UJUDOCRIM), vinculada ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.

Segundo a unidade, todos os réus presos já foram interrogados. Das 36 testemunhas inicialmente arroladas, sete de acusação foram ouvidas e 28 acabaram sendo dispensadas. Uma testemunha de defesa foi a última a depor, em outubro do ano passado.

Coronel depôs como testemunha

Entre as testemunhas de acusação está o deputado estadual Coronel Azevedo, que à época comandava a Polícia Militar no estado. Por orientação jurídica, a assessoria do parlamentar informou que ele não concederá entrevistas, em razão do sigilo processual.

Coronel Azevedo, que em 2017 comandava a Polícia Militar do RN, entrou em Alcaçuz para negociar com os presos durante a rebelião
Coronel Azevedo, que em 2017 comandava a Polícia Militar do RN, entrou em Alcaçuz para negociar com os presos 

Processo ainda depende de alegações finais

Ainda de acordo com a UJUDOCRIM, as defesas de três réus presos não apresentaram as alegações finais dentro do prazo estabelecido. No último dia 9, foram expedidos mandados de intimação para que os advogados regularizem a situação em até 10 dias, sob pena de o processo ser encaminhado à Defensoria Pública para suprir a manifestação.

“Somente após o cumprimento das intimações e decorrido o prazo para todos os três réus é que a unidade irá certificar se todas as defesas foram apresentadas, possibilitando que o processo seja concluso para sentença, ou se será necessário o envio dos autos à Defensoria Pública”, informou a unidade.

Enquanto isso, quase uma década depois da barbárie que chocou o país, o desfecho judicial do maior massacre do sistema prisional potiguar segue indefinido.

O Massacre de Alcaçuz

Era tarde de 14 de janeiro de 2017 quando o silêncio pesado do complexo prisional em Nísia Floresta começou a ser rompido pelo som metálico de grades sendo serradas. No Pavilhão 5 — a única ala do Presídio Rogério Coutinho Madruga — homens ligados ao PCC abriram passagem na marra. A cerca que separava as unidades foi transposta. O alvo era o Pavilhão 4 da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, onde estavam os rivais do Sindicato do Crime do RN.

O que veio depois foi uma explosão de violência que o Rio Grande do Norte jamais esqueceria.

O muro foi arrombado. Facções inimigas se encontraram frente a frente. Improvisos viraram armas: vergalhões arrancados do concreto, barras de ferro, facas artesanais. O confronto não foi imediato e breve — ele se prolongou. E, com ele, a brutalidade.

Durante duas semanas, Alcaçuz deixou de ser apenas um presídio e se transformou em território sem controle do Estado. Lá dentro, a lei era a da facção mais forte. Do lado de fora, familiares aguardavam notícias sem saber se seus parentes estavam vivos. Helicópteros sobrevoavam a área. As imagens correram o país e atravessaram fronteiras. O mundo viu o colapso do sistema prisional potiguar em tempo real.

Cabeças foram arrancadas. Corpos esquartejados e queimados. Pavilhões destruídos. O cenário lembrava um campo de guerra, uma batalha campal medieval.

A resposta oficial veio com o envio da Força Nacional de Segurança Pública e a promessa de reorganização do sistema. Mas a retomada do controle só ocorreu no dia 27 de janeiro — 14 dias após o início da rebelião. Foram duas semanas inteiras de domínio dos detentos, de tensão permanente, de medo.

O saldo oficial foi de 27 mortos. Um deles jamais foi identificado e acabou sepultado como indigente*. Outro corpo nunca foi encontrado**. Sua morte só seria reconhecida oficialmente quase três anos depois, ampliando ainda mais a dimensão trágica de um dos episódios mais violentos da história do sistema prisional do Rio Grande do Norte.

Presos de Alcaçuz, em 2017, após o fim da rebelião
Presos de Alcaçuz, em 2017, após o fim da rebelião

Lista oficial dos presos mortos no Massacre de Alcaçuz

  1. Anderson Barbalho da Silva
  2. Anderson Mateus Félix dos Santos
  3. Antônio Barbosa do Nascimento Neto
  4. Caio Henrique Pereira de Lima
  5. Carlos Clayton Paixão da Silva
  6. Charmon Chagas da Silva
  7. Cícero Israel de Santana
  8. Diego Felipe Pereira da Silva 
  9. Diego Melo de Ferreira 
  10. Eduardo dos Reis 
  11. Felipe Rene Silva de Oliveira
  12. Francisco Adriano Morais dos Santos 
  13. França Pereira do Nascimento 
  14. George Santos de Lima Júnior 
  15. Guilherme Ely Figueiredo da Silva 
  16. Jefferson Pedroza Cardozo 
  17. Jefferson Souza dos Santos 
  18. Jonas Victor de Barros Nascimento 
  19. José Marcelo da Cruz 
  20. Lenilson de Oliveira Melo Silva 
  21. Luiz Carlos da Costa 
  22. Marcos Aurélio Costa do Nascimento 
  23. Marlon Pietro da Silva Nascimento 
  24. Tarcísio Bernardino da Silva 
  25. Willian Anden Santos de Souza 
  26. *Corpo não identificado
  27. ** Rodrigo José Leandro dos Santos, o 'Rodrigo Pantera'

Leia também

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Whatsapp floating

Receba as notificações pelo Whatsapp

Quero me cadastrar Close whatsapp floating