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Natal de antigamente: uma cidade entre o provinciano e a transformação

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A Natal de antigamente não era apenas uma cidade menor. Era uma cidade com outro ritmo  |   BNews RN - Divulgação Reprodução/Internet
José Nilton Jr.

por José Nilton Jr.

Publicado em 23/08/2026, às 10h30



Há mais de um século, Natal era uma cidade muito diferente da que se conhece hoje. Antes das grandes avenidas, dos edifícios altos, das pontes sobre o rio Potengi e da expansão urbana que incorporou novos bairros à capital, a cidade tinha dimensões modestas e uma rotina marcada pelo ritmo das ruas, do porto, das carroças e das pequenas casas comerciais.

Por volta de 1926, Natal tinha aproximadamente 30 mil habitantes e ainda conservava características de uma capital provinciana. A cidade estava essencialmente concentrada em dois núcleos: a Cidade Alta, centro administrativo, político e residencial, e a Ribeira, ligada ao porto, ao comércio e à circulação de mercadorias. 

Para compreender como era essa Natal, porém, é preciso voltar ainda mais no tempo. As memórias de quem viveu a cidade no século XIX ajudam a revelar uma realidade que, mesmo décadas depois, ainda deixava marcas no cotidiano natalense.

Uma cidade pequena, pobre e sem infraestrutura

Um dos relatos mais interessantes sobre a Natal do século XIX foi escrito por João Lindolpho Câmara, nascido na capital em 1863. Em seu livro Memórias e Devaneios, publicado em 1938, o autor dedicou um capítulo às lembranças de sua infância na cidade, intitulado “Natal do meu tempo”.

Anos depois, em 1972, o escritor, jornalista, professor, advogado e juiz Veríssimo de Melo recuperou esse relato em um texto publicado no jornal A República, sob o título “Natal há 100 anos passados”. O artigo tornou-se uma importante janela para observar a capital potiguar de décadas anteriores.

Lindolpho Câmara descreveu uma Natal de aproximadamente 12 mil habitantes em 1870, extremamente pobre e com condições urbanas precárias. Não havia água encanada, sistema de esgoto ou iluminação pública adequada. Os poucos lampiões existentes utilizavam inicialmente azeite de mamona e nem sequer eram acesos nas noites de lua.

A precariedade era tamanha que o então presidente da Província, Henrique Pereira de Lucena, teria definido Natal, em 1872, como uma “vila insignificante e atrasadíssima do interior”. A expressão acabou alimentando um trocadilho que circulava na época: “Cidade? Não-há-tal.”

A situação começaria a mudar lentamente nas décadas seguintes, mas a Natal das primeiras décadas do século XX ainda estava muito distante da infraestrutura urbana atual.

Cidade Alta e Ribeira: duas Natal diferentes

A divisão entre Cidade Alta e Ribeira ajuda a entender a organização urbana da capital. Na Cidade Alta, concentravam-se as repartições públicas, igrejas, praças, estabelecimentos comerciais e residências de famílias de maior prestígio. Era também um espaço de convivência social e de decisões políticas.

A Ribeira, por sua vez, mantinha uma relação muito mais direta com o rio Potengi e com o movimento portuário. O bairro concentrava casas comerciais, armazéns e atividades ligadas à entrada e saída de mercadorias.

Essa configuração já estava presente no século XIX e continuou a definir a cidade nas primeiras décadas do século XX. Os relatos antigos ajudam inclusive a recuperar nomes de ruas e lugares que desapareceram ou foram modificados ao longo do tempo. Havia a Rua da Tatajubeira, Rua das Virgens, Rua das Laranjeiras, Rua do Fogo, Rua Grande, Praça da Alegria, Rua da Palha, Rua Nova, Rua dos Tocos, Uruguaiana e Beco Novo.

Mercados debaixo das árvores

A Natal antiga também pode ser conhecida através da alimentação. Os mercados da cidade eram bastante diferentes dos atuais. Segundo as memórias de Lindolpho Câmara, o mercado da Ribeira funcionava sob uma velha tatajubeira, enquanto o mercado da Cidade Alta ficava na Rua Nova, protegido pela sombra de grandes gameleiras.

Era uma cidade que mantinha uma relação muito mais direta com os sítios, matas, rios, mangues e praias do entorno.

Nos mercados e feiras encontravam-se frutas que hoje já não fazem parte com tanta frequência da mesa natalense. Mangabas, cajus e cajaranas continuaram presentes na cultura alimentar, mas outras variedades mencionadas pelo memorialista, como maçarandubas, guabirabas, camboins, oitis, ingás, ubaias e guajerus, tornaram-se menos comuns ou praticamente desapareceram do cotidiano urbano.

A caça também fazia parte da alimentação. Jacus, inhambus, cotias e tatus estavam entre os animais encontrados na região.

Uma cidade voltada para o mar e para o rio

A Natal do passado era profundamente ligada à pesca. As jangadas traziam para a cidade espécies como cavala, dentão, cioba, pargo, pescada, bicuda, dourado, corvina, beijupirá e cação. Nas praias, pescadores utilizavam currais, arrastões, tresmalhos e tarrafas.

Tainhas, sardinhas, espadas, palombetas, galos, carapebas, carapicus, bagres, baiacus e agulhas também faziam parte da variedade disponível. Nos mangues e recifes apareciam camarões, lagostas, caranguejos, siris, aratus, ostras, mariscos e polvos.

Ponta Negra, ainda distante da condição de um dos principais cartões-postais da cidade, também aparece nesse relato pela produção de xaréus.

Era uma Natal na qual o mar não era apenas cenário. Era fonte de alimento, trabalho e sobrevivência.

O rio que durante muito tempo foi uma barreira

Para quem conhece Natal atualmente, é fácil esquecer o quanto o rio Potengi influenciava a mobilidade da cidade. Hoje, pontes como a Ponte de Igapó e a Ponte Newton Navarro integram diferentes regiões e transformaram os deslocamentos entre Natal e o litoral norte.

No passado, essa ligação era muito mais difícil. O acesso às áreas além do rio dependia de embarcações, passagens e caminhos terrestres precários. As estradas para o interior também estavam longe das rodovias modernas.

Esse isolamento contribuía para o caráter provinciano da cidade. Natal era capital, mas permanecia relativamente afastada dos grandes centros econômicos e políticos do país. A chegada de novas formas de transporte e comunicação mudaria progressivamente essa realidade.

A década que mudou Natal

Se as primeiras décadas do século XX foram marcadas pela expansão lenta, a década de 1940 representou uma ruptura. A Segunda Guerra Mundial transformou profundamente Natal.

Sua localização geográfica, próxima à África e em uma posição estratégica no Atlântico, fez com que a cidade assumisse importância militar para as forças aliadas. A instalação e ampliação da presença militar, especialmente na região de Parnamirim, provocou um intenso movimento de pessoas, mercadorias, aviões e recursos.

Natal deixou de ser apenas uma capital pequena e relativamente isolada para se tornar um ponto estratégico internacional. A presença norte-americana acelerou transformações que provavelmente levariam muito mais tempo para acontecer. O comércio cresceu, novas atividades econômicas surgiram, a circulação de pessoas aumentou e os hábitos urbanos começaram a mudar.

A cidade também passou a conviver com um fluxo de estrangeiros e militares muito superior ao que estava acostumada. A guerra, portanto, não foi apenas um acontecimento internacional que passou por Natal. Ela ajudou a modificar a própria cidade.

Natal cresceu para todos os lados.

O que ficou daquela cidade? Talvez a melhor maneira de compreender a antiga Natal seja caminhar pelos lugares onde ainda existem vestígios dela.

Um casarão antigo, uma igreja, uma praça, uma rua estreita ou um prédio público podem parecer elementos isolados em meio à cidade moderna. Mas, juntos, eles ajudam a reconstruir uma paisagem urbana que já não existe da mesma maneira.

A Natal de antigamente não era apenas uma cidade menor. Era uma cidade com outro ritmo. As distâncias eram maiores, os deslocamentos mais demorados, o comércio dependia do porto, a iluminação era limitada, os serviços públicos eram precários e a relação com a natureza ao redor era muito mais próxima.

As memórias de Lindolpho Câmara revelam justamente essa dimensão cotidiana. Ele não descreveu apenas números ou acontecimentos políticos. Falou de frutas, peixes, ruas, mercados, costumes e lugares. É isso que torna seus relatos tão importantes: eles permitem enxergar a cidade através dos olhos de quem a conheceu antes de sua grande transformação.

Classificação Indicativa: Livre

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