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Fogos viram pesadelo: barulho da virada pode causar crises graves em autistas, idosos e bebês

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A queima de fogos de artifício pode afetar a saúde de pessoas sensíveis, como autistas, crianças e idosos, causando reações adversas  |   BNews RN - Divulgação Reprodução/Freepik
Giovana Gurgel

por Giovana Gurgel

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Publicado em 31/12/2025, às 12h30



Tradição na virada do ano, a queima de fogos de artifício pode provocar impactos significativos à saúde de pessoas mais sensíveis aos ruídos intensos e prolongados. Entre os grupos mais afetados estão pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), crianças pequenas e idosos, que podem sofrer reações que vão além do momento da celebração.

Especialistas alertam que, no caso de pessoas autistas, os efeitos do barulho não se restringem à hora da virada. Alterações no sono, crises de ansiedade e sofrimento prolongado podem se estender por dias após os episódios de estampido.

Segundo o neuropediatra Anderson Nitsche, professor da Escola de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a sensibilidade auditiva elevada faz com que o som dos fogos seja interpretado de forma intensa pelo cérebro.

Crise sensorial e reações extremas

De acordo com o especialista, pessoas com TEA podem entrar em crise sensorial diante do barulho, uma reação desencadeada quando o estímulo é percebido como insuportável. Nessas situações, são comuns comportamentos como ansiedade intensa, tentativa de fuga do ambiente e, em alguns casos, agressividade contra si ou contra terceiros.

A neurologista Vanessa Rizelio, diretora clínica do Hospital INC (Instituto de Neurologia de Curitiba), explica que o cérebro de pessoas autistas não interpreta o ruído como celebração. Para elas, o som prolongado gera apenas desconforto e ameaça.

Segundo a médica, essa resposta pode resultar em irritabilidade, angústia e prejuízos importantes no sono, com impactos que se estendem até o dia seguinte, afetando o bem-estar geral da pessoa.

Reações físicas e sofrimento familiar

A neuropediatra Solange Vianna Dultra, fundadora da Associação de Neurologia do Estado do Rio de Janeiro (ANERJ), ressalta que os efeitos não são apenas comportamentais. O organismo reage ao estresse sonoro com descarga de adrenalina, aceleração dos batimentos cardíacos e elevação da pressão arterial.

Para ela, o cérebro dessas pessoas interpreta o barulho como uma situação de perigo real, comparável a um tiroteio. O sofrimento, segundo a especialista, não atinge apenas a pessoa com TEA, mas toda a família, que precisa lidar com a desregulação emocional e física durante e após os fogos.

Solange destaca que a luminosidade dos fogos silenciosos não representa o mesmo problema, pois pode ser controlada mantendo a criança afastada de janelas, ao contrário do som, que se espalha e invade os ambientes.

Alternativas ganham força e debate cresce

Diante desse cenário, algumas cidades brasileiras passaram a rever a prática da queima de fogos ruidosos em eventos públicos. Já existem legislações que proíbem artefatos com estampido, incentivando o uso de fogos silenciosos, espetáculos de luzes e apresentações com drones.

A psicóloga Ana Maria Nascimento, especialista em neuropsicologia e saúde mental, avalia que essas alternativas preservam o caráter coletivo da celebração e ampliam o direito à participação de todos. Para ela, insistir no uso de fogos barulhentos, mesmo com opções disponíveis, demonstra indiferença ao sofrimento alheio.

A especialista reforça que celebrar pressupõe convivência e que tradições devem ser adaptadas quando geram exclusão ou dor a uma parcela da população.

Empatia e inclusão como prioridade

O professor Anderson Nitsche lembra que o Transtorno do Espectro Autista tem prevalência mundial estimada em cerca de 3% da população, embora nem todas as pessoas no espectro apresentem alterações sensoriais auditivas. Ainda assim, ele defende que a empatia deve nortear as decisões coletivas.

Para o neuropediatra, o processo de inclusão passa pelo reconhecimento de que a liberdade de uns não pode causar sofrimento desnecessário a outros. Adaptar tradições, segundo ele, é um passo essencial para uma sociedade mais justa.

Essa reflexão, afirma o especialista, é tão importante quanto a própria celebração de datas simbólicas como a virada do ano.

Idosos e bebês também sofrem com o barulho

Além das pessoas autistas, os idosos, especialmente aqueles com quadros de demência, também são fortemente impactados pelos ruídos intensos. Vanessa Rizelio explica que o barulho pode desencadear surtos de delírios e alucinações, além de comprometer sono, memória e raciocínio no dia seguinte.

Os bebês formam outro grupo vulnerável. Como necessitam de longos períodos de sono, o ruído constante e crescente dos fogos pode causar despertares frequentes e dificuldade para adormecer, gerando prejuízos ao desenvolvimento e à rotina familiar.

Nesses casos, o uso de ruído branco ou abafadores, para crianças maiores, pode ajudar a reduzir o impacto, embora não elimine completamente o problema.

Falta de fiscalização mantém problema

Apesar de leis que proíbem a venda e o uso de fogos barulhentos em diversas cidades, a fiscalização ainda é falha. Vanessa Rizelio cita o exemplo de Curitiba, onde a legislação está em vigor há mais de cinco anos, mas os fogos ruidosos continuam sendo usados em larga escala no réveillon.

Para a neurologista, é necessário mais rigor no cumprimento das normas para minimizar os danos causados por um comportamento que, segundo ela, já deveria ter sido superado.

O debate sobre os fogos de artifício, cada vez mais, deixa de ser apenas uma questão de tradição e passa a envolver saúde pública, empatia e respeito à diversidade.

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