Geral
“Sou uma menina trans, periférica, e moro na Zona Oeste de Natal.” É assim, de forma direta e carregada de emoção, que Thuanny Tailanny de Souza, de 37 anos, inicia o relato de uma vida marcada pela superação. Após deixar para trás a realidade da prostituição e das drogas, ela hoje encontra no Programa Transcidadania e no apoio do Sebrae-RN a oportunidade de reconstruir sua história. Ela agora é empreendedora.
O Programa Transcidadania foi instituído no Rio Grande do Norte em 2022, por meio de uma lei estadual. Mas foi em 2024, quando a primeira turma efetivamente surgiu, que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RN) abraçou a iniciativa e chamou para ele a responsabilidade, oferecendo uma capacitação profissional exclusiva para pessoas trans em situação de vulnerabilidade. E tudo por meio do empreendedorismo. É isso que o Sebrae-RN faz. E faz como ninguém.
Segundo o professor Júlio Lêdo, consultor do Programa de Negócios Inovadores e Impacto Social do Sebrae-RN, a palavra que melhor define o Programa Transcidadania é acolhimento.
“Essas pessoas foram excluídas da sociedade durante muitos anos e precisam, acima de tudo, ser inseridas, respeitadas e acolhidas. Esse é o primeiro passo”, afirma.
Após essa etapa inicial, o programa passa a oferecer uma série de capacitações voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo. Entre os temas abordados estão criação de produtos, análise de mercado, precificação, modelagem de negócios e estratégias de comunicação.
“É um processo de construção. Primeiro vem o acolhimento, depois trabalhamos o desenvolvimento das competências empreendedoras para que essas pessoas possam estruturar seus próprios negócios”, explica.
As capacitações ocorrem de forma presencial na sede do Sebrae-RN. Nos últimos dois anos, 43 alunos e alunas trans foram capacitados para o mercado de trabalho, seja como profissionais empregados ou mesmo gerenciando seus próprios negócios.
Após as aulas presenciais, os participantes também recebem acompanhamento por meio de mentorias online, voltadas à consolidação das ideias de negócio desenvolvidas ao longo da formação.
“Depois das capacitações presenciais, seguimos com mentorias individuais para ajudar cada aluno e cada aluna a construir e amadurecer sua ideia de negócio, sempre com base nas orientações apresentadas durante os encontros”, destaca o consultor.
Mas, após todo este processo, e de poder contribuir com a transformação de tantas vidas, como se sente o professor?
“Me sinto humano em primeiro lugar, porque a essência do ser humano é a humanidade. Como profissional, tenho a convicção de que coloco em prática os mais de 30 anos de experiência com inovação social para contribuir na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e melhor para todos”, concluiu.
Em fevereiro deste ano, a iniciativa foi ampliada e mais pessoas trans poderão participar dos cursos de capacitação. Segundo o governo estadual, a meta é selecionar 28 pessoas trans por meio de edital público. Todas receberão bolsa mensal de R$ 600. O auxílio é destinado para cobrir despesas essenciais como estudo, transporte e alimentação, fortalecendo a autonomia financeira dos participantes.
Segundo o Sebrae-RN, as capacitações em empreendedorismo de 2026 serão iniciadas no último quadrimestre do ano.
De acordo com a Lei Estadual Nº 11.132/, de 09 de junho de 2022, o Programa Transcidadania no Estado do Rio Grande do Norte diz que “toda pessoa tem direito ao livre desenvolvimento de sua personalidade de acordo com sua própria identidade de gênero, independentemente de aspectos biológicos, genéticos, anatômicos, morfológicos, hormonais ou de qualquer outra natureza”, e que “esse direito inclui ser identificada de forma que reconheça plenamente sua identidade de gênero, garantindo a consonância entre essa identidade e o nome e o sexo indicados em seus documentos de identificação”.
O programa também tem como finalidade “assegurar às pessoas trans uma vida livre de discriminação e estigmatização, por meio de mecanismos, medidas e políticas abrangentes de prevenção, cuidado, proteção, promoção e reparação”.
Para saber o que pensam, como se sentem, e principalmente como era a vida antes e o que mudou após o acesso ao programa, o BNews RN ouviu o depoimentode duas jovens trans. E a Thuanny Tailanny foi a primeira.
“Depois de um certo tempo, eu me juntei à pessoa com quem sou casada hoje. Foi essa pessoa que me tirou das drogas e da prostituição. Já fazem três anos e, de lá para cá, eu venho vivendo uma vida mais normal, vamos dizer assim. Hoje, vivo no mundo do empreendedorismo”, revelou, toda orgulhosa.
Thuanny conta que participou do primeiro Transcidadania e que vai participar mais vezes.
"Sim. Sou uma menina trans e estou 100% envolvida em tudo. Foi dentro do Sebrae que tive conhecimento, por meio das aulas de empreendedorismo, e foi através dele que comecei a empreender. Sou auxiliar de cabeleireira, já trabalho na área e atuo com alisamento".
“Quero deixar um recado para as meninas que empreendem hoje em dia: nunca desistam dos seus sonhos, porque um dia a gente chega lá. Não é chegar e abrir logo um espaço. A gente tem que começar aos poucos. Tenho uma clientela até bem consolidada aqui no bairro onde moro e pretendo, um dia, crescer ainda mais, ter meu próprio espaço e conquistar mais oportunidades de cursos profissionalizantes para o mercado de trabalho e para a área em que quero atuar”, revelou Thuanny.
“Na minha área, que é a de cabelo, preciso fazer mais cursos para aprender novas técnicas. Um dia vou abrir meu espaço e poderei deixar minhas clientes ainda mais belas, como já deixo hoje, e muito mais ainda com as novas técnicas que virão”, acrescentou a empreendedora.
Aos 32 anos, Thyfanny de Oliveira Sales também carrega uma história marcada por vulnerabilidade, superação e recomeço. Quando o curso de empreendedorismo do Sebrae foi oferecido para pessoas do Transcidadania, ela ainda não fazia parte do programa. Mesmo assim, decidiu pedir para participar por iniciativa própria. Ela enxergou no Sebrae uma oportunidade para mudar de vida.
Ao chegar ao curso, Thyfanny conta que foi bem recebida pelos professores, que acreditaram em seu potencial e permitiram sua permanência até o final, mesmo sem vínculo oficial com o programa naquele momento — decisão que se tornaria decisiva para sua trajetória.
Na época, Thyfanny vivia em situação de total vulnerabilidade social: estava desempregada, sem oportunidades e sobrevivendo da prostituição.
Durante o curso, ao compartilhar sua realidade, acabou sensibilizando uma das professoras, que levou a história ao marido. Ele se ofereceu para ajudar com os custos das passagens, benefício destinado apenas aos bolsistas. Com esse apoio, conseguiu frequentar as aulas até a conclusão.
Após concluir o curso “Empreender na Diversidade”, ofertado pelo Sebrae dentro do Programa Transcidadania, Thyfanny começou o próprio negócio. Iniciou vendendo jujubas, balas Fini, pipoca e outros produtos. Com o lucro, passou a reinvestir, ampliar o estoque e conquistar novos clientes, dando os primeiros passos rumo à independência financeira. Hoje, ela tem seu próprio mercadinho. É com ele que ela se mantém.
“Foi assim que tudo começou. Passei a ter meu próprio sustento, meu ganha-pão, minha dignidade e uma nova perspectiva de vida”, relatou.
Hoje, Thyfanny continua empreendendo e afirma que sua vida mudou completamente.
“Sou muito grata pela oportunidade que recebi e pelo apoio das pessoas que acreditaram em mim quando eu mais precisava”.
Como mensagem, ela reforça a importância de aproveitar as oportunidades.
“Quando surgir uma oportunidade, agarre e vá até o final. No começo não é fácil, existem dificuldades, mas, com persistência, dedicação, conhecimento e fé, é possível alcançar objetivos que antes pareciam impossíveis”.
Para Thyfanny, iniciativas como o Programa Transcidadania fazem diferença real na vida de quem deseja mudar de realidade.
“Hoje sei que podemos ter nosso próprio negócio, nosso próprio dinheiro e construir uma vida mais digna. Valeu a pena naquela época, continua valendo hoje e continuará valendo enquanto eu tiver vida”.
Para fazer parte do Programa Transcidadania no Rio Grande do Norte é necessário acompanhar os editais lançados pela Secretaria de Estado das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (SEMJIDH) ou pela Prefeitura de Natal.
Na capital potiguar, o Centro Municipal de Cidadania LGBT funciona na Av. Nascimento de Castro, 2024, em Lagoa Nova.
A SEMJIDH fica no Centro Administrativo do Estado.
Já a sede do Sebrae no RN, fica na Av. Lima e Silva, nº 76, também no bairro de Lagoa Nova, em Natal.
Leia também
Classificação Indicativa: Livre
Modo Karaokê
som poderoso
Notebook Poderoso
famoso copo
Smartwatch top