Geral

Quem é o médico que está transformando corpos de homens em mulheres trans no RN?

Divulgação
Consideradas um marco para a saúde no estado, cirurgias realizadas em mulheres trans foram conduzidas pelo médico urologista Correia Neto  |   BNews RN - Divulgação Divulgação
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

[email protected]

Publicado em 31/05/2026, às 06h00



O Rio Grande do Norte passou a integrar um seleto grupo de estados brasileiros que oferecem cirurgias de redesignação sexual. Na semana passada, em Natal, foram realizados os primeiros procedimentos de afirmação de gênero por meio de planos de saúde.

Consideradas um marco para a saúde no estado, as cirurgias foram conduzidas pelo médico urologista José Francisco Correia Neto, ou simplesmente Correia Neto, como é mais conhecido. Os resultados foram positivos.

Com o avanço, o estado se junta a outras unidades da federação onde o procedimento já é realizado, como Rio Grande do Sul, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo.

A cirurgia de redesignação sexual — também chamada de afirmação de gênero — integra o chamado Processo Transexualizador, que envolve acompanhamento psicológico, psiquiátrico e hormonal antes da etapa cirúrgica. No caso de mulheres trans, o procedimento inclui a construção da vulva e do canal vaginal, técnica conhecida como vaginoplastia.

Correia Neto, médico urologista
Correia Neto, médico urologista

Mulheres de corpo e alma

Mas, afinal, quem é o cirurgião que está transformando vidas no Rio Grande do Norte? Ou melhor, quem é o médico que está transformando pessoas que nasceram com corpos de homens em pessoas com alma e corpos de mulheres?

Natural de Natal, Correia Neto é casado e pai de três filhos. Formou-se em Medicina em 2018 e realizou residência em cirurgia geral e urologia no Hospital Universitário Onofre Lopes. Em 2025, concluiu fellowship na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, especializando-se na área. Segundo ele, a atuação no procedimento era uma consequência natural de sua formação.

“Sou o único urologista do Norte-Nordeste com essa subespecialização. Então seria questão de tempo isso acontecer”, afirmou.
Correia Neto e equipe realizaram ou primeiros procedimentos de afirmação de gênero no RN via plano de saúde
Correia Neto e equipe realizaram ou primeiros procedimentos de afirmação de gênero no RN via plano de saúde

O médico destacou que a realização das primeiras cirurgias no estado representa não apenas uma conquista profissional, mas também a abertura de novos caminhos na assistência à população trans.

“É um sentimento de realização de um objetivo e de abertura de novos caminhos no RN”, disse.

Para se submeter ao procedimento, é necessário ter mais de 21 anos e apresentar laudos que comprovem, no mínimo, um ano de acompanhamento com endocrinologista, psiquiatra e psicólogo. Após a cirurgia, o processo de recuperação exige cuidados específicos, com destaque para a realização de dilatações diárias, três vezes ao dia, durante cerca de seis meses.

A retomada da vida sexual também ocorre de forma gradual. De acordo com o especialista, em média, os pacientes só retomam a atividade após seis meses, período necessário para adaptação ao novo órgão genital.

Correia Neto também avalia como positiva a possibilidade de ampliação do acesso ao procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, já há diálogos em andamento com representantes públicos.

Correia Neto durante umas das cirurgias de redesignação sexual
Correia Neto durante umas das cirurgias de redesignação sexual

“Já tive algumas discussões e houve sinalização favorável”, afirmou.

Com os primeiros procedimentos realizados com sucesso, a expectativa é de que o serviço se consolide no estado, ampliando o acesso a cirurgias de afirmação de gênero e reduzindo a necessidade de deslocamento para outras regiões do país.

Urologista destaca trajetória profissional e formação em área de alta complexidade

O urologista Correia Neto detalhou, em entrevista, sua trajetória na medicina e o caminho percorrido até atuar com cirurgias de redesignação sexual — uma área ainda considerada de alta complexidade e em expansão no Brasil.

Segundo o especialista, a escolha pela medicina surgiu ainda na juventude e teve forte influência familiar, especialmente dos avós paternos, ambos médicos. “Meus avós tiveram uma influência muito grande na minha formação como pessoa e na escolha da profissão”, relatou. Ele cita o avô Dr. Correia, urologista, como uma das principais referências na área, além de Dr. Eduardo Moura, psiquiatra e coronel da Polícia Militar, já falecido.

A definição pela urologia ocorreu ao longo da formação acadêmica, influenciada tanto pelo interesse em procedimentos cirúrgicos quanto pela diversidade de atuação que a especialidade oferece.

“A urologia permite acompanhar o paciente em diferentes momentos, desde o diagnóstico até intervenções cirúrgicas mais complexas”, destacou.

Durante a formação, Correia Neto passou por uma base ampla na medicina e, posteriormente, pela residência em urologia, período que classificou como fundamental para consolidar conhecimentos técnicos e definir áreas de interesse. Foi nesse contexto que surgiu o contato mais próximo com demandas relacionadas à população trans.

De acordo com o médico, o interesse pelas cirurgias de redesignação sexual se desenvolveu gradualmente, a partir da prática profissional e da compreensão da importância desses procedimentos para a qualidade de vida dos pacientes. Ele ressalta que a atuação nessa área exige não apenas habilidade técnica, mas também sensibilidade e preparo humanizado.

“A gente entende que não é apenas um procedimento cirúrgico, mas um processo que envolve dignidade, identidade e bem-estar”, concluiu.

Redesignação sexual ou mudança de sexo? Entenda a diferença dos termos

“Redesignação sexual” ou “mudança de sexo” são termos utilizados para se referir ao mesmo processo, mas a expressão “redesignação sexual” — também chamada de afirmação de gênero — é a mais adotada atualmente por especialistas e pela medicina. Isso porque o termo descreve de forma mais precisa a adequação das características físicas e genitais à identidade de gênero da pessoa, enquanto “mudança de sexo” pode transmitir a ideia de uma transformação superficial.

O processo vai além da cirurgia e integra o chamado Processo Transexualizador, política pública do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao atendimento integral de travestis e pessoas transexuais.

A política garante acompanhamento multiprofissional, incluindo suporte psicológico e social, terapia hormonal (hormonização) e procedimentos cirúrgicos para adequação das características corporais e genitais à identidade de gênero do paciente.

Entre os procedimentos cirúrgicos estão a vaginoplastia, voltada para mulheres trans, e cirurgias masculinizantes, como a neofaloplastia e a metoidioplastia, destinadas a homens trans.

Leia também

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Whatsapp floating

Receba as notificações pelo Whatsapp

Quero me cadastrar Close whatsapp floating