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Canetas emagrecedoras: endocrinologista alerta para riscos da automedicação e explica o que acontece após interromper o uso

Imagem Canetas emagrecedoras: endocrinologista alerta para riscos da automedicação e explica o que acontece após interromper o uso
Para presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do RN, canetas emagrecedoras não são uma fórmula milagrosa para emagrecer  |   BNews RN - Divulgação
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

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Publicado em 19/07/2026, às 06h00



O uso de medicamentos conhecidos como "canetas emagrecedoras", como Ozempic, Wegovy, Saxenda e Mounjaro, ganhou popularidade nos últimos anos. Nas redes sociais não faltam relatos de famosos contando como foi rápido perder peso. O aumento da procura, no entanto, também fez crescer um problema que preocupa especialistas: a utilização sem indicação médica e sem o acompanhamento adequado.

Injetáveis, as canetas emagrecedoras são administradas no tratamento de diabetes tipo 2 e da obesidade. Elas imitam um hormônio natural do corpo chamado GLP-1 (semaglutida, liraglutida e dulaglutida), produzido no intestino para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, estimular a liberação de insulina e promover saciedade. Já a tirzepatida atua de forma semelhante, mas é um agonista duplo (aquele que imita ou potencializa a ação de uma substância natural do corpo), agindo nos receptores de GLP-1 e GIP.

Em entrevista ao BNews RN, a presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio Grande do Norte (SBEM-RN), doutora Anna Karina Medeiros, esclarece as principais dúvidas sobre os medicamentos análogos do GLP-1. A endocrinologista aponta quem realmente deve fazer esse tipo de tratamento, alerta para os riscos da automedicação, detalha os possíveis efeitos colaterais e revela o que pode acontecer quando o paciente interrompe o uso da medicação.

Dra Anna Karina Medeiros  Endocrinologista e Metabologista  Presidente da SBEM RN
Dra Anna Karina Medeiros, presidente da SBEM-RN

Segundo a especialista, embora esses medicamentos tenham revolucionado o tratamento da obesidade, as canetas emagrecedoras não devem ser encaradas como uma solução estética ou uma fórmula milagrosa para emagrecer. E ela explica:

"A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. Trata-se de uma condição que aumenta significativamente o risco para diversas doenças e complicações de saúde".

Anna Karina ressalta que a obesidade está associada a problemas como intolerância à glicose, hipertensão arterial, dislipidemia, doenças cardiovasculares, apneia do sono, síndrome dos ovários policísticos, diferentes tipos de câncer, refluxo gastroesofágico, doença hepática gordurosa e maior risco de mortalidade.

"Além das complicações físicas, a obesidade também está relacionada ao agravamento de transtornos de saúde mental, principalmente depressão e ansiedade, impactando diretamente na qualidade de vida", destaca.

Por isso, ela reforça que o tratamento precisa ser conduzido por profissionais habilitados. "É muito importante o acompanhamento médico, de preferência pelo endocrinologista com atuação em metabologia, aliado a uma equipe multidisciplinar composta por nutricionista, educador físico e psicólogo", afirma a doutora.

Abaixo, confira 10 questões que você precisa saber sobre a medicação e o tratamento.

1) Para quem as canetas emagrecedoras são indicadas, qualquer pessoa pode usar?

A indicação formal das canetas emagrecedoras é para quem tem falha terapêutica ao tratamento convencional, que seriam as mudanças de estilo de vida, principalmente dieta e atividade física regular. Quando esse tratamento falha, o paciente vai ter indicação de um tratamento farmacológico. O que a gente indica, hoje, é o que há de mais moderno para tratar a obesidade, que são os análogos de GLP-1 (liraglutida ou semaglutida) ou o análogo de GLP-1/GIP, que é a tirzepatida, um análogo duplo.

Então essas medicações, elas modificaram a forma do médico tratar a obesidade, porque são medicamentos que não tratam só a redução do apetite, são medicamentos que também têm benefícios metabólicos, como o controle do diabetes, a redução da pressão arterial, a melhora do perfil lipídico e outros benefícios. Estas medicações protegem o coração e reduzem o risco de infarto e AVC. É uma medicação que melhora a função renal também. São vários benefícios agregados à saúde. Muitas vezes o paciente se preocupa com a perda de peso, mas esses benefícios agregados são muito mais importantes que os benefícios da redução do peso na balança.

A indicação formal para uso das canetas emagrecedoras é para pacientes com obesidade, ou seja, que tenham um IMC (índice de massa corporal) acima de 30, ou para pacientes com IMC acima de 27, com comorbidade, que são as doenças associadas à obesidade, como a hipertensão, a diabetes, a deslipidemia, as doenças articulares. Às vezes, o paciente tem um IMC de 27, mas ele já tem uma artrose importante no joelho, por exemplo, e ele precisa perder peso para que melhorar essa doença associada.

Nessas situações, temos uma indicação formal de usar a medicação para obesidade, de preferência os análogos do GLP-1. Mas podemos considerar ainda outros medicamentos para tratar a obesidade. O tratamento deve ser individualizado para cada paciente.

2) Crianças e pessoas idosas podem usar?

Em relação ao uso para crianças e adultos, a tirzepatida foi autorizada só a partir dos 18 anos. A semaglutida (Ozempic) e a liraglutida, podem ser utilizadas a partir dos 12 anos de idade para crianças com obesidade. Para diabetes, todas essas medicações poderiam ser utilizadas já a partir dos 10 anos de idade.

Em relação a idosos, tem indicação também. A medicação tem benefícios para idosos e não existe uma data limite para usar essa medicação. Inclusive, tenho pacientes com mais de 80 anos que utilizam essas medicações com boa resposta. Muitas vezes com melhora do controlo do diabetes. Porém, alguns pacientes idosos são frágeis (têm dificuldade de andar, por exemplo, dificuldade de equilíbrio ou tendência a pressão mais baixa) e estes idosos não devem utilizar essa medicação, porque a medicação muitas vezes pode até comprometer mais essa fragilidade.

Para o idoso sarcopênico, que é aquele paciente que tem massa muscular diminuída, não recomendamos, porque a medicação, além de reduzir o peso, muitas vezes reduz junto a massa muscular.

3) Quais os principais riscos para quem faz uso de canetas emagrecedoras sem orientação médica?

Sem orientação médica, os principais riscos são os efeitos colaterais. O paciente não vai ter uma supervisão. Pode sentir náusea, empachamento. Quando o paciente faz o acompanhamento, o médico vai dar toda a orientação em relação a esses efeitos colaterais, que geralmente acontecem, principalmente no início do uso da medicação.

O mais importante é que a medicação tenha sempre um acompanhamento multidisciplinar. O paciente precisa passar também pela nutricionista, pelo educador físico. O paciente precisa se convencer que ele precisa fazer mudanças de estilo de vida. Ele precisa associar atividade física, precisa fazer dieta, porque senão quando ele parar a medicação ele vai ter realmente o reganho, que é a recuperação do peso perdido. E esse é o grande problema de quem faz a automedicação.

Muitas vezes, vemos as canetas emagrecedoras sendo comercializadas de forma irresponsável por pessoas sem orientação. E muita gente está comprando. E aí elas usam uma caneta, duas canetas, fazem uma administração totalmente irregular. Perdem dois quilos e, daqui a pouco, acontece o reganho eu vão aplicar tudo de novo. E cada vez que você inicia o tratamento, sempre o primeiro tratamento é o que você vai ter o melhor efeito.

Hoje, quando a gente faz o acompanhamento médico desses pacientes, quando a gente usa a medicação, a gente usa pelo menos seis meses. Não há tratamento para obesidade com menos de seis meses. A não ser, claro, quando o paciente não tolera a medicação. Aí a gente vai ter que parar antes, mas a gente utiliza pelo menos seis meses. E tem gente utilizando menos de um mês. Muitas vezes só para perder dois ou três quilos, para poder caber no vestido, e termina interrompendo o tratamento. Então, quando for precisar realmente da medicação, não vai ter a mesma resposta.

Acontece também, muitas vezes, de a pessoa querer perder apenas dois quilos, mas depois que tem o reganho, acaba ganhando quatro quilos, e dobrando o que perdeu. Então esse reganho é muito comum em pacientes que utilizam a medicação por tempos curtos, sem orientação médica. E isso interfere no metabolismo. Quando a gente perde peso, o cérebro vai se defender contra aquela perda. Então o corpo vai ficar muito mais fácil de engordar e vai ser muito mais difícil perder peso. Então não vale a pena. A terapia tem que ser feita com acompanhamento médico e, de preferência, com acompanhamento multidisciplinar.

Tratamento com canetas emagrecedoras ganhou popularidade no Brasil nos últimos anos
Tratamento com canetas emagrecedoras ganhou popularidade no Brasil nos últimos anos

4) Mesmo sob indicação, quais os efeitos colaterais mais comuns?

Os efeitos mais comuns são os gastrointestinais. A náusea é bem frequente nos pacientes, principalmente nesse início da terapia. O paciente pode ter empachamento e pode ter constipação, que é a prisão de ventre. Ele pode ter diarreia também. Estes são os sintomas mais comuns. Mas o paciente pode ter também a queda da pressão, porque a medicação reduz a pressão arterial. Para quem já tem a pressão baixa, isso realmente pode comprometer até no dia a dia, pois o paciente fica mais sonolento, fica indisposto. Isso pode comprometer a qualidade de vida do paciente.

Se o paciente faz a automedicação, e utiliza doses muito altas, tem uma perda de peso muito rápida. É muito comum o paciente perder massa muscular. E essa massa muscular, pode acontecer o que a gente chama de sarcopenia, que é a redução de massa muscular, que pode dar um comprometimento também na qualidade de vida. E se você perder massa muscular, consequentemente você vai ficar menos disposto, correndo risco até de adoecimento, de doenças articulares. E isso é extremamente maléfico para a saúde. Hoje, quando se ganha massa muscular, o ganho é para o corpo todo, não é só o músculo aparente. O nosso coração, por exemplo, é um órgão muscular. Então é importante que a gente preserve a nossa massa muscular, e não que a gente perca.

5) Canetas emagrecedoras causam algum efeito na relação das pessoas com a comida?

Canetas emagrecedoras têm uma ação central, a nível hipotalâmico, que realmente vai reduzir a fome. Então, o paciente que tem compulsão alimentar, vai ter a redução da compulsão. E esse paciente também termina escolhendo, tendo a preferência, por alimentos muitas vezes mais saudáveis. Isso acontece porque, por causa da medicação e pelo risco de náuseas, ele termina preferindo alimentos com menos gordura e com menos açúcar.

Alimentos com muita gordura e alimentos mais açucarados causam náuseas, que causam empachamento, e muitas vezes causam diarreia. Então, indiretamente, o paciente termina evitando aquele tipo de alimento que vai fazer ele passar mal. E ele termina fazendo uma seleção de alimentos mais saudáveis. É comum o paciente dizer: doutor, eu só pensava em comida. E agora ele sente reduzir essa vontade, essa necessidade de estar toda hora querendo comer.

Os pacientes que são os beliscadores, que têm o hábito constante de estar beliscando, encerram o tratamento com a medicação e dizem: doutor, eu agora não consigo mais comer aqueles doces que eu comia antes. Eu antes abria uma lata de leite condensado e comia toda. Então é isso, as pessoas terminam fazendo realmente uma seleção natural com o uso da medicação. Claro que isso acontece com tratamentos longos e quando a gente faz o acompanhamento nutricional associado, como eu falei, que é tratamento multidisciplinar.

6) A pessoa pode perder o gosto por algum tipo de alimento?

As pessoas não modificam o paladar. O paladar permanece, mas as pessoas muitas vezes realmente reduzem a necessidade de comer, aquele interesse, aquele prazer maior de estar comendo, de ter aquela necessidade maior de estar comendo o tempo todo. A medicação realmente diminui o prazer pela comida. Isso é uma coisa bem comum com o uso da medicação. E também tem estudos, inclusive, que apontam a redução da bebida alcoólica. Tem um trabalho que mostra que pacientes podem reduzir até 40% a ingestão alcoólica. Isso a gente tem visto no dia a dia.

Pessoas que, por exemplo, consumiam no final de semana 12 latinhas de cerveja, hoje estão ingerindo 2 ou 3 cervejas. Principalmente essas bebidas que fermentam, que é o vinho e as cervejas, que são as bebidas que o paciente tolera tomar. Então, indiretamente, é um efeito benéfico da medicação. Esse pacientes realmente vão reduzir a ingestão de bebida alcoólica e, inclusive, há uma tendência em se acreditar que, talvez, no futuro, essa medicação seja utilizada até para o alcoolismo.

7) O que acontece com o corpo após interromper o uso do medicamento?

Quando o paciente para de usar o análogo de GLP-1, inicialmente, muitas vezes não vai ter tanta redução do efeito da fome quanto os efeitos da medicação, porque a medicação tem uma ação de três até cinco semanas. Então essa redução vai acontecendo gradualmente. Se esse paciente fez um tratamento maior, se ele conseguiu incluir hábitos mais saudáveis nesse período de uso, se ele realmente se conscientizou que precisa comer menos, se ele tem essa consciência, vai conseguir manter esse peso perdido.

Porém, se isso não foi feito, principalmente se esse paciente utilizou períodos curtos, ele vai ter o reganho. Quando você para a medicação, depois do período do efeito do remédio, que é de três a cinco semanas, o apetite vai voltar, o paciente vai comer novamente e ele vai ter todos os efeitos de reganho. E, também, se esse paciente, por exemplo, ele for diabético, com o fim da medicação ele vai perder todos aqueles efeitos metabólicos do GLP-1, que é a redução da pressão, redução da glicose, redução do colesterol. Então, todos esses benefícios, eles são revertidos quando a gente para a medicação, porque são efeitos que acontecem durante o uso da medicação.

Canetas emagrecedoras não podem ser encaradas como solução estética, alerta especialista
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8) Se eu parar com as canetas emagrecedoras, vou recuperar o peso que perdi?

Quando a gente usa a medicação, não temos nenhuma garantia que não teremos o reganho de peso. Isso é importante frisar. Não existe nenhum tratamento para obesidade, hoje, mesmo a gastroplastia, que garanta que a pessoa não vai ter o reganho. Quando a gente faz um tratamento adequado, com esse acompanhamento multidisciplinar, onde o paciente tem a consciência que precisa mudar os hábitos de vida, então aí sim, a gente tem um efeito muito importante, muito benéfico para o paciente, com uma perda de peso duradoura.

Quando esse paciente, ele usa períodos curtos, ele usa sem acompanhamento, ele não faz essa reeducação alimentar, que ele só tem aquele efeito da diminuição do apetite por causa da medicação, onde ele comeu menos por conta daquela redução e ele não fez o tratamento multidisciplinar associado, será grande a chance de ele ter o reganho. E depois de todo aquele tratamento, muitas vezes, você pode ter um reganho até pior. Você pode ficar até com mais peso do que tinha antes da medicação. E isso acontece porque você terá uma redução do metabolismo pelo. Então, por exemplo, se você tinha um metabolismo maior anterior ao análogo GLP-1, quando parar você vai estar com um metabolismo menor. Aquele mesmo alimento que você comia antes, e que você engordava meio quilo, você poderá estar engordando um quilo por conta da redução desse metabolismo que acontece devido ao mecanismo compensatório do organismo, que é ele se defendendo contra essa perda de peso.

9) Canetas emagrecedoras são benéficas para o coração?

Sim! O estudo SELECT, que utilizou a semaglutida, demonstrou uma redução de 20% no risco de doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio e AVC isquêmico, ambos com o uso desta medicação. A medicação ainda reduz a pressão arterial, que é um efeito benéfico para quem tem hipertensão arterial.

10) O uso prolongado pode afetar o desempenho sexual ou a fertilidade?

Ao contrário. Há pequenos estudos que demonstram uma melhora na fertilidade tanto em homens -- inclusive com aumento dos níveis de testosterona -- como em mulheres. Criou-se até o termo na mídia de "Bebês do Ozempic".

Como a obesidade é uma causa de infertilidade, a redução da adiposidade pode promover a melhora da fertilidade. Mas, ainda não temos grandes estudos que possam validar a indicação dos análogos do GLP-1 para melhorar a fertilidade.

RN é o segundo estado com mais adultos obesos no Brasil

Estudos de 2025 realizados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) revelam que o Rio Grande do Norte possui o segundo maior percentual de adultos obesos do Brasil. No recorte de atendidos pelo SUS, o estado aparece com 42,1 % de pessoas com algum nível de obesidade. A média nacional é de 31%.

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