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Brasil entra em alerta: 1 em cada 5 já usou droga ilícita e consumo dispara entre jovens e mulheres

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Estudo aponta que 18,7% da população brasileira já experimentou substâncias psicoativas ilícitas, com aumento entre mulheres e adolescentes  |   BNews RN - Divulgação Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Giovana Gurgel

por Giovana Gurgel

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Publicado em 24/12/2025, às 13h07



Cerca de um em cada cinco brasileiros — o equivalente a 18,7% da população — já experimentou ao menos uma vez substâncias psicoativas ilícitas, segundo a atualização do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), elaborado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os dados revelam um cenário de expansão do consumo no País, com mudanças relevantes no perfil dos usuários, sobretudo entre mulheres e adolescentes, e maior presença de drogas sintéticas em contextos urbanos.

A pesquisa posiciona o Brasil em um patamar intermediário no cenário internacional de consumo de drogas ilícitas, mas com uma combinação preocupante: altos índices de transtornos associados ao uso, que pressionam diretamente a rede de atenção psicossocial, os serviços de urgência e emergência e as políticas públicas de saúde.

O levantamento indica ainda que a maior concentração de usuários está entre jovens adultos de 18 a 34 anos, com prevalência mais elevada nas regiões Sul e Sudeste, reforçando desigualdades regionais e desafios específicos para a gestão pública.

Mulheres e adolescentes puxam mudança no perfil de consumo

Entre os homens, 23,9% relataram já ter usado drogas ilícitas ao menos uma vez na vida, enquanto entre as mulheres o índice chega a 13,9%. Apesar da diferença, o avanço feminino é um dos dados que mais chamam atenção no estudo.

Entre adolescentes, o padrão histórico se inverteu. A proporção de meninas que já experimentaram drogas ilícitas superou a de meninos, acendendo um alerta para políticas de prevenção específicas para esse público.

O consumo recente também cresceu. Segundo o Lenad, 8,1% da população brasileira, mais de 13 milhões de pessoas, usaram drogas ilícitas até um ano antes da entrevista. Entre adultos, o índice saltou de 6,3% em 2012 para 15,8% em 2023, enquanto entre mulheres o percentual mais que triplicou, passando de 3% para 10,6%.

Metodologia e parceria institucional do levantamento

Esta é a terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), que manteve a mesma metodologia aplicada nos estudos de 2006 e 2012, permitindo a comparação histórica dos dados.

Foram aplicados 16.608 questionários a pessoas com 16 anos ou mais, em entrevistas realizadas entre 2022 e 2023 em todo o território nacional.

O estudo foi desenvolvido em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (Senad/MJSP), e com o instituto Ipsos Public Affairs.

Cannabis lidera consumo e preocupa especialistas

A cannabis, que engloba maconha, skank e haxixe, segue como a droga ilícita mais consumida no Brasil. Mais de 10 milhões de pessoas relataram uso no período de até um ano antes da pesquisa, o equivalente a 6% da população.

Ao longo da vida, cerca de 28 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já experimentaram a substância, o que representa 15,8% da população, o dobro do índice registrado em 2012. O crescimento foi mais expressivo entre as mulheres.

Entre adolescentes de 14 a 17 anos, o estudo estima ao menos 1 milhão de usuários esporádicos, sendo que metade apresentou consumo recente. Enquanto o uso caiu entre meninos, de 7,3% para 4,6%, entre meninas o índice saltou de 2,1% para 7,9%.

Uso frequente, dependência e atendimentos de emergência

O padrão de consumo também preocupa. Mais da metade dos usuários de cannabis, 54%, relatou uso diário por pelo menos duas semanas consecutivas, o que representa 3,3% da população brasileira, cerca de 3,9 milhões de pessoas.

Aproximadamente 2 milhões de brasileiros preenchem critérios para dependência da substância, o equivalente a 1,2% da população ou um em cada três usuários.

O levantamento aponta ainda que 3% dos usuários já buscaram atendimento de emergência em razão do consumo. Entre adolescentes, esse percentual sobe para 7,4%, indicando maior vulnerabilidade a intoxicações e crises agudas.

Drogas sintéticas avançam e ampliam riscos

O estudo também identificou crescimento significativo no uso de drogas sintéticas e psicodélicas na última década. A experimentação de ecstasy passou de 0,76% para 2,20%, a de alucinógenos de 1,0% para 2,1% e a de estimulantes sintéticos, conhecidos como Anfetaminas e Estimulantes do Tipo Anfetamínico (ATS), de 2,7% para 4,6%.

Para os pesquisadores, esse cenário reflete um mercado de drogas mais complexo, com maior diversidade de substâncias e riscos ampliados aos consumidores, especialmente em ambientes urbanos recreativos.

Segundo a pesquisadora Clarice Madruga, uma das responsáveis pelo estudo, os achados indicam a necessidade de priorizar ações voltadas às meninas mais jovens, consideradas mais vulneráveis ao consumo problemático, ao sofrimento psíquico e ao poliuso.

Desafios para políticas públicas e sistema de saúde

Diante do avanço do consumo e da diversificação das substâncias, os autores defendem a revisão das estratégias de prevenção, com políticas sensíveis às questões de gênero e integradas à promoção da saúde mental.

O Lenad reforça ainda a importância da vigilância epidemiológica permanente sobre álcool e outras drogas como função essencial do sistema de saúde e de proteção social.

Para os pesquisadores, levantamentos nacionais como este são fundamentais para orientar decisões públicas, ampliar o acesso ao cuidado e fortalecer estratégias de prevenção e tratamento no Brasil.

Classificação Indicativa: Livre

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