Geral
por José Nilton Jr.
Publicado em 06/03/2026, às 12h56
A adoção generalizada de canetas para emagrecimento tem levado médicos no Brasil a reconhecer uma nova condição na prática clínica, a agonorexia. O termo surgiu nos Estados Unidos e descreve um fenômeno observado por profissionais de saúde, caracterizado por uma diminuição do apetite semelhante à anorexia, porém desencadeada pelo uso de medicamentos utilizados para perda de peso.
Embora ainda não seja oficialmente classificada como diagnóstico médico, especialistas já apontam que o quadro pode trazer riscos relevantes, principalmente quando essas substâncias são utilizadas sem orientação adequada.
Os medicamentos associados ao fenômeno pertencem à classe dos agonistas de GLP-1 e análogos combinados, amplamente utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, as famosas canetas para emagrecimento. Essas substâncias atuam imitando hormônios produzidos no intestino que enviam sinais ao cérebro, reduzindo a fome e aumentando a sensação de saciedade.
Na prática, médicos relatam que alguns pacientes apresentam uma redução de apetite muito mais intensa do que o esperado, o que pode transformar um efeito terapêutico em um risco à saúde.
De acordo com o endocrinologista Clayton Macedo, que faz parte da equipe do Hospital Albert Einstein e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a chamada agonorexia ainda não possui critérios diagnósticos definidos.
Ele explica que o fenômeno não se enquadra como um transtorno mental clássico, mas já pode ser compreendido como um efeito extremo da ação desses medicamentos.
Para o especialista, o principal fator de risco está na forma como os remédios são utilizados. Os medicamentos foram desenvolvidos para tratar doenças metabólicas específicas e devem integrar um tratamento que envolve acompanhamento médico, nutricional e mudanças no estilo de vida.
Entre as substâncias mais conhecidas dessa categoria está a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Outra opção é a tirzepatida, comercializada com o nome Mounjaro.
Esses fármacos são administrados por meio de seringas pré-preenchidas, popularmente chamadas de canetas para emagrecimento. Ao agir em áreas do cérebro relacionadas à fome, os medicamentos ajudam a controlar o apetite e podem favorecer a perda de peso quando utilizados de forma adequada.
Entretanto, especialistas alertam que o uso sem supervisão médica, com doses elevadas desde o início do tratamento ou sem acompanhamento adequado, pode intensificar os efeitos e desencadear problemas clínicos.
Entre os sintomas que têm chamado a atenção dos profissionais estão emagrecimento rápido, náuseas frequentes, fraqueza intensa, isolamento social e aumento compulsivo da prática de exercícios físicos.
Embora a agonorexia não esteja listada no DSM-5, manual utilizado pela Associação Americana de Psiquiatria para definir transtornos mentais, médicos afirmam que a identificação precoce desses sinais é fundamental para evitar complicações.
Além da perda de peso acelerada, especialistas também apontam riscos relacionados à formação de cálculos na vesícula biliar. Em alguns casos, essas pedras podem migrar e provocar pancreatite, uma inflamação que pode se tornar grave.
Outro efeito observado é a redução da massa muscular. Mesmo quando a maior parte do peso perdido corresponde à gordura corporal, uma parcela da musculatura também pode ser afetada.
Para os especialistas, o uso indiscriminado desses medicamentos pode ter consequências de longo prazo para a saúde da população.
Médicos afirmam que o uso inadequado pode contribuir para uma geração que envelhecerá com menor reserva muscular, o que aumenta o risco de fragilidade física na terceira idade.
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