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A inteligência artificial mudou a forma de procurar notícias?

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Entenda como a inteligência artificial está transformando a busca por notícias e o comportamento do público na era digital  |   BNews RN - Divulgação Unsplash/Aerps
Lavínia Manso

por Lavínia Manso

Publicado em 02/08/2026, às 11h00



Buscar uma notícia deixou de significar, necessariamente, abrir um site de jornal ou digitar um termo no Google. Cada vez mais gente conversa com um chatbot de inteligência artificial (IA) para entender o que está acontecendo, pede um resumo, faz perguntas de volta e segue em frente sem nunca visitar a fonte original.

Até a busca tradicional já mudou nesse sentido. Hoje, ao pesquisar no Google, é comum receber uma resposta gerada por IA logo no topo da página, antes mesmo da lista de links. A rápida adoção desse modelo de busca nos últimos dois anos já preocupa veículos de comunicação em todo o mundo.

Esse movimento reacende um debate que já circula há alguns anos entre editores e analistas, batizado de "Google Zero". A preocupação é que, ao encontrar respostas prontas dentro das próprias ferramentas de busca ou de IA, o público deixe de clicar nos links que levam até as reportagens originais. Dados da empresa de análise Chartbeat, citados no relatório, mostram que o tráfego vindo de buscas orgânicas do Google para mais de 2.500 sites de notícias caiu um terço em nível global.

Os números vêm do Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), ligado à Universidade de Oxford, divulgado em junho (2026). A pesquisa, que ouviu quase 100 mil pessoas em 48 países, é considerada uma das referências mais completas sobre hábitos de consumo de informação no mundo. Segundo o levantamento, o uso semanal de chatbots de IA para se informar subiu de 7% para 10% da população global em apenas um ano.

Entre os menores de 35 anos, o salto é ainda mais expressivo, com 16% já recorrendo a ferramentas como ChatGPT e Google Gemini para acompanhar notícias toda semana. No Brasil, o índice chega a 13%, segundo a edição brasileira do relatório, o segundo maior do mundo, atrás apenas da Coreia do Sul.

A funcionalidade mais valorizada pelos usuários, apontada por 42% dos entrevistados, é a possibilidade de fazer perguntas complementares para entender melhor um acontecimento, algo que um mecanismo de busca tradicional não oferece.

Confiança ainda é o ponto fraco da IA

Apesar do crescimento, a IA está longe de ser vista como fonte confiável. O relatório mostra que apenas 20% dos entrevistados confiam nas notícias que recebem de chatbots, um índice bem menor do que os 32% de confiança atribuídos aos mecanismos de busca e ainda inferior aos 22% das redes sociais. A confiança geral na imprensa, aliás, também recuou, chegando a 37% globalmente, o menor patamar já registrado pela pesquisa.

No Brasil, o cenário segue a mesma linha. A confiança nas notícias caiu seis pontos percentuais em relação ao ano anterior, chegando a 36%, o índice mais baixo em 12 anos de participação do país no levantamento.

Outro dado chama atenção dos pesquisadores. Quem usa chatbots para se informar tende a clicar bem menos nas fontes originais das notícias do que quem faz uma busca tradicional no Google. Na prática, isso significa que a IA está mediando cada vez mais o contato entre o público e a informação, mas sem repassar a visibilidade, e a receita publicitária, que antes chegava aos veículos.

Pesquisadora da UFRN alerta para o uso da ferramenta 

Para entender o que está por trás desses números, o Bnews RN ouviu a professora Ismenia Blavatsky, diretora de Ensino e coordenadora do curso de Tecnologia da Informação (TI) do Instituto Metrópole Digital (IMD), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela pesquisa inteligência artificial e ciência de dados, e ministra a disciplina de Ética e Dados.

Vejo esse crescimento como uma evolução natural. Os chatbots tornaram o acesso à informação muito mais rápido e prático, principalmente para quem busca uma visão geral sobre determinado assunto", avalia a professora.

Mas ela faz uma ressalva: para a professora, é importante lembrar que esses sistemas não fazem jornalismo. Eles produzem respostas a partir dos dados com que foram treinados e, por isso, podem apresentar informações incompletas, desatualizadas ou até incorretas.

Para Ismenia, o maior risco é o público aceitar as respostas da IA sem questionar sua origem ou confiabilidade.

"Diferentemente de um mecanismo de busca tradicional, em que o usuário costuma comparar diferentes fontes, o chatbot entrega uma resposta pronta, o que pode transmitir uma sensação de certeza que nem sempre corresponde à realidade", explica.

Na avaliação dela, o avanço precisa acontecer em duas frentes. Uma é tecnológica, com sistemas mais transparentes que indiquem as fontes usadas e reduzam erros nas respostas. A outra é educacional, já que o público vai precisar desenvolver o mesmo senso crítico usado hoje para identificar notícias falsas ou avaliar a credibilidade de um veículo, também na hora de usar a inteligência artificial.

A tecnologia evolui rapidamente, mas a responsabilidade sobre como utilizamos essas ferramentas continua sendo essencialmente humana." Conclui.

O jornalismo ainda tem carta na manga

Nem tudo, porém, é sinal de alerta. O próprio relatório destaca que a maioria das pessoas não abandona o jornalismo profissional, mesmo diante da popularização de criadores de conteúdo e ferramentas de IA.

Os influenciadores digitais, hoje consumidos por 27% do público como fonte de notícias, são vistos como mais acessíveis e divertidos, mas ainda perdem para os veículos tradicionais em credibilidade e imparcialidade, segundo os próprios entrevistados. 

Classificação Indicativa: Livre

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