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UFRN tem meta ousada para capacitar 40 mil pessoas em inteligência artificial; entenda

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A UFRN investe em pesquisas e desenvolvimento de inteligência artificial há três décadas, mas foi nos últimos anos que a área ganhou projeção  |   BNews RN - Divulgação Imagem gerada por IA
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

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Publicado em 25/07/2026, às 06h00



A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) investe em pesquisas e desenvolvimento de inteligência artificial há cerca de três décadas, mas foi nos últimos anos que a área ganhou escala e estrutura institucional. Com a criação do Programa Metrópole IA 360 e do núcleo Metrópole IA, a universidade vem ampliando a contratação de professores, fortalecendo a infraestrutura de pesquisa e a cada ano intensifica formações que vão do ensino técnico ao doutorado. A meta é ousada: capacitar mais de 40 mil pessoas nos próximos cinco anos.

Em entrevista exclusiva ao BNews RN, o professor do Instituto Metrópole Digital (IMD) Daniel Sabino, que também é vice-coordenador do núcleo Metrópole IA, explica que na UFRN a IA é aplicada em projetos voltados à solução de problemas reais em parceria com instituições públicas e empresas privadas.

Quanto ao futuro da tecnologia, ele destaca:

“O impacto mais imediato da IA no país não está na substituição de profissionais, e sim na ampliação da capacidade de setores sobrecarregados”.
Instituto Metrópole Digital (IMD)
Instituto Metrópole Digital (IMD)

Abaixo, confira a entrevista completa. Antes, porém, Daniel ressalta que as respostas não constituem uma manifestação oficial da UFRN. Ele pondera que foram elaboradas a partir do conhecimento adquirido ao longo das atividades desenvolvidas como professor. Confira:

1) BNews RN: Há quanto tempo a UFRN investe e utiliza IA?

Professor Daniel Sabino: A UFRN trabalha com inteligência artificial há, pelo menos, três décadas. No entanto, há três momentos distintos de investimento na área. Nas décadas de 1990 e 2000, a pesquisa acadêmica em IA estava concentrada historicamente em unidades como o Departamento de Engenharia Elétrica (DEE), o Departamento de Engenharia de Computação e Automação (DCA) e o Departamento de Informática e Matemática Aplicada (DIMAp), com a formação de bons profissionais e pesquisadores em nível de pós-graduação.

Com a criação do Instituto Metrópole Digital em 2011 e a expansão da formação na área de Tecnologia da Informação, incluindo a contratação de quadro com mais de 50 docentes da área de Computação, naturalmente a pesquisa e a formação na área de IA começaram a crescer, com laboratórios de pesquisa temáticos e formações específicas.

Nos últimos cinco anos, com a popularização da inteligência artificial, está sendo feito o investimento de maior escala. Foi criado o Programa Metrópole IA 360, com formações que vão desde cursos técnicos até o doutorado. Foram contratados mais dez professores na área de IA e outros dez estão previstos para este ano. Foi inaugurado o Metrópole IA, um núcleo de pesquisa dedicado à área, e há dezenas de projetos de pesquisa e inovação com entidades públicas e privadas.

Convém distinguir investimento de uso, uma vez que a pergunta trata dos dois. O investimento em pesquisa e formação acompanha as três décadas descritas. Quanto ao uso, o foco vem sendo a formação de massa crítica e o desenvolvimento de soluções que beneficiem a população. Na própria operação da Universidade há iniciativas específicas, e não uma adoção generalizada.

Ou seja, a pesquisa em inteligência artificial na UFRN existe há bastante tempo. O que mudou nos últimos anos é a escala e a institucionalização. Saiu-se de grupos de pesquisa dispersos para um programa estruturado, com núcleo próprio, formação e infraestrutura dedicada.

2) BNews RN: Quais as principais atividades e que tipo de IA a UFRN mais utiliza?

Professor Daniel Sabino: A atividade de maior alcance é a formação. O Programa Metrópole IA 360 prevê formar mais de 40 mil pessoas em cinco anos, em cursos de curta duração, curso técnico, graduação e pós-graduação.

Também foi ofertado o curso "Inteligência Artificial para Educadores da Educação Básica: competências digitais e inovação pedagógica", em parceria com a CAPES por meio do programa Universidade Aberta do Brasil, com vagas gratuitas para professores de todo o país.

A segunda atividade é a pesquisa aplicada em parceria com instituições públicas. É uma característica do trabalho desenvolvido no Instituto. A IA raramente é pesquisada de forma isolada, e costuma estar vinculada a um problema concreto de um parceiro, como o SUS, o Ministério Público ou a Defesa Civil.

A terceira atividade é a cooperação com a iniciativa privada, que tem peso crescente. O Instituto Metrópole Digital é Unidade EMBRAPII desde maio de 2023, credenciada na área de Internet das Coisas e Aplicações Inteligentes em Nuvem. Em maio de 2026 o credenciamento foi renovado e novas áreas de atuação foram incorporadas, entre elas Inteligência Artificial, Sistemas Inteligentes e Computação Aplicada, Plataformas Digitais e Engenharia de Software. Nesse âmbito são formalizados projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação tanto com grandes multinacionais de tecnologia quanto com empresas de pequeno porte e startups. Por meio da unidade Embrapii, desde 2023 foram captados R$ 15 milhões em projetos, dos quais R$ 5 milhões aplicados em parcerias com empresas do Rio Grande do Norte, e 35 projetos já foram implantados. Para o estado, o significado disso é a possibilidade de que empresas locais incorporem pesquisa ao processo produtivo, desenvolvam produtos próprios e deixem de apenas consumir tecnologia pronta.

Quanto à utilização de IA na própria operação da Universidade, há iniciativas específicas, e não uma adoção estruturada no conjunto dos sistemas acadêmicos e administrativos. Um exemplo consolidado está na Ouvidoria, que desde 2019 opera o Kairós, sistema desenvolvido na própria Universidade para monitorar a abertura, o processamento e o cumprimento das manifestações recebidas, entre elas pedidos de acesso à informação, denúncias, reclamações e sugestões. Há também o assistente de graduação disponível no SIGAA Mobile, onde os discentes podem tirar dúvidas sobre suas turmas, assuntos acadêmicos e regulamentos da Universidade.

Quanto ao tipo, não há uma tecnologia única, e a escolha depende do problema enfrentado. Predominam sistemas que aprendem a partir de dados já registrados para apoiar decisões. A IA generativa (como GPT e Gemini), voltada à interpretação e à produção de texto, é adoção mais presente.

Professor Daniel Sabino
Professor Daniel Sabino / Foto: Thiago Araújo

3) BNews RN: Quais as áreas que mais se beneficiam da tecnologia?

Professor Daniel Sabino: Essencialmente, qualquer área que tenha um grande volume de dados registrados pode se beneficiar da IA. Atualmente, isso se aplica na saúde, na administração pública, na proteção civil, na segurança pública, no judiciário, no setor produtivo, nas ciências da vida, na educação, sem que caiba estabelecer precedência entre elas.

Algumas iniciativas servem de exemplo. O Kairós e o OuvidorSUS.IA tratam das demandas das ouvidorias da UFRN e do SUS, respectivamente. O Noah auxilia na antecipação de desastres naturais. O Centro Multiusuário de Bioinformática atua em sequenciamento e análise de DNA.

Na educação, a IA figura ao mesmo tempo como objeto de estudo e como campo de aplicação, sobretudo na formação de professores da Educação Básica. Em projetos Embrapii com a iniciativa privada, existem projetos voltados para o setor têxtil, indústria automobilística, otimização de processos administrativos, análises patológicas, monitoramento urbano, educação especial, entre outros.

O beneficiário final, em todos esses casos, está na sociedade com o melhoramento do serviço público ou o acesso a produtos de qualidade.

4) BNews RN: A UFRN é autossuficiente? Produz suas próprias IAs?

Professor Daniel Sabino: A resposta depende do que se entende por produzir uma inteligência artificial. São desenvolvidas soluções próprias de ponta a ponta, com modelos treinados a partir de dados locais, para problemas locais, executados em infraestrutura própria. Nesse sentido, trata-se de IA produzida na Universidade.

Se a pergunta se refere ao treinamento de modelos de fundação, do porte dos que são desenvolvidos pelas grandes empresas de tecnologia, a resposta é não, e nenhuma universidade brasileira o faz isoladamente. Isso exige investimento da ordem de bilhões e infraestrutura de escala nacional. O caminho adotado consiste em desenvolver aplicações e modelos especializados sobre uma base tecnológica específica e em pesquisar métodos que possam aprimorar as técnicas existentes.

Quanto à infraestrutura, o Instituto Metrópole Digital opera um dos maiores supercomputadores do Norte/Nordeste em instituição pública, para dar suporte à pesquisa de fronteira realizada por toda a UFRN.

5) BNews RN: Há estudo que dimensione a economia de recurso financeiro e/ou humano?

Professor Daniel Sabino: Não se tem conhecimento de estudo institucional que quantifique economia financeira ou de pessoal decorrente do uso de IA na UFRN. O que existe são evidências de impacto operacional em iniciativas específicas, e algumas são expressivas.

Na Ouvidoria da UFRN, o Kairós permitiu reduzir, em 2020, 55% do prazo de resposta às manifestações de ouvidoria e 64% do prazo dos pedidos de acesso à informação, em relação ao desempenho de 2019. Esses são ganhos de eficiência. Não se confundem com economia orçamentária, e converter um resultado no outro exigiria metodologia que ainda não foi construída.

Cabe registrar que se trata de uma lacuna real. Medir o impacto econômico da IA no setor público brasileiro permanece um problema de pesquisa em aberto, e é um tema que está figurando dentre os objetivos do Metrópole IA.

6) BNews RN: O que a sociedade pode esperar da IA no futuro?

Professor Daniel Sabino: Na inauguração do Metrópole IA, o reitor José Daniel Diniz Melo manifestou o desejo de que o núcleo contribua para que o desenvolvimento da inteligência artificial no Brasil seja feito com responsabilidade, inclusão e olhar voltado para o bem comum. É uma direção com a qual o trabalho do Instituto se alinha.

Do ponto de vista de quem atua na área, os casos desenvolvidos até aqui sugerem que o impacto mais imediato da IA no país não está na substituição de profissionais, e sim na ampliação da capacidade de setores sobrecarregados. São situações em que o gargalo é o volume, e não o julgamento técnico.

Há também uma dimensão regional. Um programa que se propõe a formar 40 mil pessoas no Nordeste é, em si, uma resposta sobre o futuro que se pretende construir. Se a tecnologia for produzida apenas no Sudeste e no exterior, a região permanece na condição de consumidora. Se for produzida localmente, passa a ter voz sobre as decisões que a afetam.

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