Cidades
A presença de uma ruga diagonal no lóbulo da orelha, conhecida como sinal de Frank, está associada a um maior risco de doenças cardíacas, servindo como um alerta clínico para médicos e pacientes. O tema ganhou destaque após a morte do empresário Henrique Maderite, que apresentava essa característica e faleceu de infarto fulminante.
Estudos, incluindo um realizado na Unesp, revelaram que 60% dos pacientes com doença coronariana tinham o sinal, enquanto apenas 30% do grupo controle apresentava a mesma prega. A correlação sugere que a alteração pode indicar envelhecimento precoce das artérias, embora o mecanismo biológico ainda não esteja totalmente esclarecido.
Especialistas recomendam que pacientes com o sinal e fatores de risco cardiovascular realizem avaliações mais detalhadas, como ecocardiogramas e testes de colesterol. O sinal de Frank não é um diagnóstico, mas um indicativo de que investigações adicionais são necessárias para prevenir complicações graves na saúde cardiovascular.
Uma ruga diagonal que atravessa o lóbulo da orelha pode parecer apenas um traço físico sem relevância. Na literatura médica, porém, essa marca ganhou nome próprio e décadas de investigação: sinal de Frank.
Estudos associam a presença do vinco a maior probabilidade de alterações nas artérias do coração — não como diagnóstico, mas como alerta clínico que deve ser interpretado dentro do contexto de cada paciente.
O tema voltou ao debate público após a morte do empresário e influenciador Henrique Maderite, aos 50 anos, por infarto fulminante. Ele apresentava uma dobra semelhante nas orelhas, o que reacendeu a curiosidade sobre o possível significado do sinal.
Como surgiu o “sinal de Frank”
A descrição original foi feita em 1973 pelo médico norte-americano Sanders Frank, em artigo publicado no New England Journal of Medicine.
Ao observar 20 pacientes com doença coronariana, Frank notou que muitos tinham o mesmo vinco diagonal no lóbulo.
A partir daí, a hipótese de correlação com aterosclerose passou a ser investigada.
Desde então, diferentes pesquisas analisaram se a prega poderia refletir envelhecimento precoce das artérias, condição em que placas de gordura e colesterol se acumulam nas paredes dos vasos, elevando o risco de infarto e AVC.
Evidência brasileira: achados da Unesp
Um estudo conduzido na Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) avaliou 110 homens submetidos à cineangiocoronariografia entre 2004 e 2005.
O objetivo foi verificar a associação entre alterações dermatológicas — especialmente a prega diagonal no lóbulo e a prega pré-auricular — e a presença de doença arterial coronariana.
Os resultados chamaram atenção:
• 60% dos pacientes com doença coronariana apresentavam a prega diagonal
• 30% no grupo controle tinham o mesmo sinal
• Quando as duas pregas estavam presentes, o valor preditivo positivo chegou a 90%
Os autores destacaram que o mecanismo biológico ainda não é totalmente esclarecido. Uma das hipóteses envolve alterações microvasculares e perda de elasticidade da pele associadas ao processo aterosclerótico.
O que dizem os cardiologistas
Para especialistas, o sinal funciona como pista clínica; segundo o cardiologista João Vicente da Silveira, da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração (InCor).
É um sinal, um alerta, uma pista. Uma luz vermelha que acendeu e apagou. Não necessariamente ele está com as artérias coronárias obstruídas e vai ter um infarto, mas é um alerta para o médico ficar atento e fazer exames mais específicos. E o contexto global precisa ser avaliado, como a história familiar e os fatores de risco”.
O médico chama atenção para um ponto relevante: o aparecimento do vinco em adultos jovens tende a aumentar a preocupação clínica.
“É praticamente impossível um paciente de 30 anos ter esse sinal e ter uma saúde totalmente normal. Isso é um sinal de envelhecimento das artérias e de que ele não está se cuidando”.
Por que a dobra pode ter relação com as artérias?
O lóbulo da orelha possui microartérias. A prega estaria relacionada à desorganização das fibras de colágeno responsáveis pela elasticidade vascular.
Quando essa elasticidade se perde, as artérias tendem a ficar mais rígidas, favorecendo obstruções.
Quando investigar com mais profundidade
Pacientes que apresentam o vinco no lóbulo e fatores de risco cardiovascular merecem avaliação mais detalhada. Entre os principais fatores:
• Pressão arterial elevada
• Colesterol alto
• Alterações de glicemia
• Tabagismo
• Obesidade
• Consumo frequente de álcool
• Sedentarismo
• Histórico familiar de doença cardíaca
Nesses casos, o médico pode solicitar exames como ecocardiograma, teste ergométrico, dosagem de colesterol, angiotomografia das coronárias e, se necessário, cateterismo cardíaco.
Se houver obstrução arterial confirmada, pode ser indicada a colocação de stents, além de tratamento medicamentoso e acompanhamento contínuo.
O ponto central: não é diagnóstico, é alerta
O consenso entre os estudos é claro: o sinal de Frank não confirma doença cardíaca, mas pode funcionar como marcador visível de que algo merece ser investigado. Em medicina cardiovascular, identificar pistas precoces pode ser determinante para prevenir eventos graves.
Observar o próprio corpo — e levar essas observações ao médico — pode ser um passo simples com potencial impacto na saúde do coração.
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