Cidades
A Reforma Tributária entra em uma nova fase a partir de agosto de 2026 e já começa a impor mudanças obrigatórias para empresas de todos os portes. A principal delas será a necessidade de adequação dos sistemas de emissão de notas fiscais aos novos parâmetros exigidos pelo modelo tributário. Sem essa atualização, as empresas ficarão impedidas de emitir documentos fiscais.
Apesar da proximidade das primeiras exigências, o cenário ainda preocupa especialistas. Segundo levantamento apresentado pela consultoria BWA Global, 95% das empresas brasileiras ainda não fizeram qualquer avaliação sobre os impactos da reforma, enquanto 93% precisarão reforçar o capital de giro para enfrentar as mudanças provocadas pelo novo sistema tributário.
Os números foram apresentados pelo head de Reforma Tributária da BWA Global, Thiago Diniz, durante o RN em Foco, evento promovido nesta terça-feira (28) pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN), no Hotel-Escola Senac Barreira Roxa, em Natal.
Atualização dos sistemas passa a ser obrigatória em agosto
Embora a transição para o novo modelo tributário ocorra gradualmente até 2033, algumas obrigações passam a valer imediatamente.
A partir de agosto, todas as empresas precisarão parametrizar seus sistemas fiscais com os novos campos previstos pela Reforma Tributária.
Segundo Thiago Diniz, trata-se de uma exigência operacional que não pode ser adiada.
"Sem essa atualização, simplesmente não será possível emitir nota fiscal", alertou.
Setor de serviços deve sentir o maior impacto
Na avaliação do especialista, o segmento de serviços tende a ser o mais afetado pelas mudanças na tributação.
Isso ocorre porque muitas empresas do setor atualmente recolhem tributos com alíquotas relativamente baixas e possuem pouca possibilidade de aproveitar créditos tributários, um dos pilares do novo sistema.
Vamos supor que um serviço hoje tribute 5,5%. Com a reforma, ele pode chegar a uma carga próxima de 28%. Como o setor possui poucos créditos para compensar, a alíquota efetiva será significativamente maior", explicou Thiago Diniz durante o evento.
Já no comércio, os efeitos deverão variar conforme fatores como:
Segundo o consultor, algumas empresas poderão ganhar competitividade, enquanto outras enfrentarão redução nas margens de lucro.
Consumidor deverá sentir reflexo nos preços
Embora os impactos sejam diferentes entre os setores econômicos, Thiago Diniz acredita que o consumidor será quem perceberá os efeitos de forma mais direta.
Segundo ele, parte do aumento da carga tributária tende a ser incorporada ao preço final de produtos e serviços.
"O consumidor é quem vai sofrer o maior impacto da reforma tributária, porque o reflexo vai repercutir diretamente nos preços. No fim da cadeia, é ele quem recebe essa pancada maior."
Ainda assim, o especialista afirma que parte desse efeito pode ser reduzida por empresas que realizarem planejamento tributário adequado.
Algumas medidas apontadas:
Split payment deve mudar fluxo de caixa das empresas
Um dos pontos considerados mais sensíveis da Reforma Tributária é a implantação do chamado split payment, prevista para junho de 2027.
Nesse modelo, parte do tributo será recolhida automaticamente no momento em que o pagamento da venda for realizado.
Na prática, o imposto deixará de permanecer temporariamente no caixa da empresa, reduzindo a disponibilidade de recursos para financiar operações do dia a dia.
Hoje, muitas empresas utilizam esse capital durante semanas antes do recolhimento dos tributos.
"Atualmente o empresário recebe o valor da venda e utiliza esse dinheiro por 40, 50 ou até 60 dias. Com o split payment, esse recurso praticamente deixa de existir. O principal risco será justamente a forte redução do fluxo de caixa", explicou o especialista.
Segundo o levantamento apresentado pela consultoria, cerca de 93% das empresas precisarão aumentar sua necessidade de capital de giro para se adaptar ao novo modelo.
Especialista alerta para falta de preparação
Outro dado considerado preocupante é o baixo nível de preparação do setor empresarial.
De acordo com Thiago Diniz, mais de nove em cada dez empresários ainda não começaram a estudar os impactos financeiros da reforma.
Segundo ele, essa demora pode comprometer a sobrevivência de muitas empresas.
"Quem ainda não começou a fazer contas, revisar preços, entender os créditos fiscais e reorganizar sua operação corre sério risco de perder competitividade e até enfrentar dificuldades para continuar no mercado", afirmou.
Para o consultor, um dos principais equívocos é enxergar a preparação como um gasto desnecessário.
"A Reforma Tributária precisa fazer parte da rotina do empresário. Ela envolve negociação com fornecedores, configuração dos sistemas, emissão de documentos fiscais e planejamento financeiro."
Fecomércio orienta empresários a iniciar adaptação
O tema foi debatido durante mais uma edição do RN em Foco, iniciativa da Fecomércio RN que reuniu mais de 200 empresários, gestores e representantes do setor produtivo.
Durante a abertura, o presidente da entidade, Marcelo Queiroz, destacou que a preparação do empresariado será decisiva para enfrentar as mudanças.
O Sistema Fecomércio RN acompanha esse processo com atenção, mas nossa missão vai além da representação institucional. Também buscamos preparar empresários e gestores para compreender as mudanças, avaliar seus impactos e encontrar caminhos para uma adaptação segura e sustentável."
O advogado tributarista Vanildo Fausto também reforçou a necessidade de iniciar imediatamente a revisão dos processos internos das empresas.
Segundo ele, este é o momento de revisar contratos, mapear créditos tributários e garantir que todas as informações fiscais estejam corretamente registradas.
Entenda o cronograma da Reforma Tributária
A implementação ocorrerá em etapas ao longo dos próximos anos. Confira os principais marcos:
Setembro de 2026
Empresas deverão decidir se permanecem no Simples Nacional ou migram para outro regime tributário;
O prazo para desistência da opção escolhida vai até novembro.
Fevereiro de 2027
Emissão do primeiro boleto referente à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS);
Início efetivo da cobrança dos novos tributos.
Junho de 2027
Entrada em vigor do split payment;
Tributos passarão a ser recolhidos automaticamente no momento do recebimento das vendas, alterando o fluxo de caixa das empresas.
O que as empresas precisam fazer agora
Especialistas recomendam que os empresários iniciem imediatamente um plano de adaptação. Pontos importantes para desenvolvimento:
→ verificar se o sistema de gestão já está preparado para emitir notas fiscais no novo padrão;
→ avaliar, com projeções financeiras, se vale a pena permanecer no Simples Nacional;
→ manter demonstrações financeiras atualizadas para facilitar o planejamento tributário;
→ capacitar equipes das áreas comercial, financeira, compras e contabilidade sobre as novas regras;
→ contratar assessoria especializada para elaborar uma estratégia tributária alinhada ao planejamento do negócio.
A expectativa é que as empresas que iniciarem essa preparação com antecedência consigam reduzir impactos financeiros, aproveitar melhor os créditos previstos na legislação e enfrentar a transição para o novo sistema tributário com mais segurança.
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