Cidades
O aquecimento global deverá ultrapassar o limite de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, considerado uma referência fundamental para reduzir os riscos mais graves das mudanças climáticas.
A conclusão consta no Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026, divulgado nesta quarta-feira (21) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que alerta para a distância entre os compromissos climáticos dos países e as medidas necessárias para conter o aumento da temperatura.
De acordo com o documento, mesmo que os compromissos climáticos atuais sejam integralmente cumpridos, o planeta poderá registrar um aquecimento de 2,6°C até o fim do século. Se as políticas públicas atualmente em vigor forem mantidas sem avanços adicionais, a elevação poderá chegar a 2,8°C. As projeções reforçam a necessidade de acelerar a redução das emissões de gases de efeito estufa em escala global.
Apesar do cenário preocupante, o relatório destaca que ainda é possível limitar o pico de aquecimento e retornar ao patamar de 1,5°C até 2100. Para isso, será necessário reduzir drasticamente as emissões, ampliar o uso de fontes de energia limpa e desenvolver mecanismos capazes de retirar grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.
Mudanças climáticas ampliam riscos à saúde e à economia
A elevação da temperatura média global intensifica os riscos associados a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, chuvas intensas e enchentes. Esses fenômenos podem comprometer a produção de alimentos, pressionar os sistemas de saúde, provocar perdas econômicas e acelerar a degradação de ecossistemas.
O aumento da temperatura também afeta a disponibilidade de água, a biodiversidade e as condições de vida de populações mais vulneráveis. Comunidades que dependem diretamente da agricultura, da pesca e de outros recursos naturais estão entre as que podem enfrentar impactos mais severos.
O limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris representa uma referência para reduzir esses riscos, embora não signifique que abaixo desse patamar os impactos climáticos deixem de existir. Cada fração adicional de aquecimento aumenta os desafios para a adaptação das sociedades e a preservação dos ambientes naturais.
ONU aponta possibilidade de retorno a 1,5°C até 2100
O relatório de 2026 apresenta um cenário em que o aquecimento global atingiria um pico de aproximadamente 1,7°C a 1,8°C por volta de meados do século, antes de começar a diminuir gradualmente. Nesse caminho, seria possível retornar ao patamar de 1,5°C ou ficar abaixo dele até 2100, com uma probabilidade estimada de 50%.
Essa possibilidade, entretanto, depende de mudanças profundas na trajetória das emissões globais e de esforços contínuos para remover CO₂ da atmosfera. O documento ressalta que a ultrapassagem do limite não precisa ser permanente, mas quanto maior e mais prolongado for o aquecimento, maiores serão os riscos climáticos.
A estratégia de retorno exige não apenas reduzir as emissões futuras, mas também enfrentar parte do dióxido de carbono acumulado na atmosfera. Isso envolve desafios tecnológicos, financeiros e ambientais, além da necessidade de cooperação internacional para ampliar as ações de mitigação.
Emissões precisam cair até 69% até 2040
Para viabilizar o cenário de retorno ao patamar de 1,5°C, o PNUMA calcula que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam diminuir em 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, tomando como referência os níveis de 2025.
As metas exigem uma transformação acelerada nos setores responsáveis pelas emissões, especialmente energia, transportes, indústria e uso da terra. A substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis, o aumento da eficiência energética e a proteção de florestas estão entre as medidas capazes de contribuir para esse processo.
O desafio é que os compromissos climáticos apresentados pelos países ainda estão distantes do necessário. Segundo o relatório, a implementação integral das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que reúnem as metas climáticas nacionais no âmbito do Acordo de Paris, resultaria em reduções de apenas 5% a 8% nas emissões até 2030 e de 11% a 15% até 2035, em comparação com 2025.
Energias renováveis oferecem alternativas para reduzir emissões
Apesar das dificuldades, o relatório também identifica avanços que podem contribuir para acelerar a ação climática. A expansão da energia solar e eólica, o desenvolvimento de políticas de redução de emissões e a adoção de tecnologias mais eficientes já produziram resultados em diferentes países e setores.
O desafio consiste em ampliar essas iniciativas em uma escala muito maior e em um ritmo compatível com as metas climáticas. Para isso, governos, empresas e instituições financeiras precisam direcionar investimentos para alternativas de baixo carbono e reduzir a dependência de fontes fósseis.
Outra frente envolve a remoção de dióxido de carbono da atmosfera. Embora existam tecnologias para esse fim, sua ampliação em larga escala exige recursos, infraestrutura e avaliação cuidadosa dos impactos ambientais. A remoção de carbono deve complementar cortes efetivos nas emissões, e não substituir a redução da poluição gerada pelas atividades humanas.
Ação climática exige decisões imediatas
O relatório reforça que adiar medidas de mitigação torna mais difícil e caro limitar o aquecimento global. Quanto mais lentamente as emissões diminuírem, maior será a necessidade de reduções posteriores e de remoção de carbono para tentar reverter o excesso de aquecimento.
A avaliação do PNUMA é que ainda existem alternativas para reduzir os impactos mais graves das mudanças climáticas. No entanto, o resultado dependerá da capacidade dos países de transformar compromissos internacionais em políticas concretas, investimentos e mudanças estruturais na economia.
O retorno ao patamar de 1,5°C até o fim do século permanece como uma possibilidade condicionada a uma ação climática muito mais rigorosa. O cenário atual, portanto, representa um alerta sobre a urgência de agir para limitar o pico de temperatura e evitar que os danos ambientais, sociais e econômicos se tornem ainda mais intensos.
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