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Quem estiver no Rio Grande do Norte durante o próximo verão poderá encontrar um cenário de calor ainda mais intenso do que o habitual. A previsão é de que alguns períodos da estação registrem temperaturas até 2,5°C superiores à média, especialmente entre janeiro e fevereiro.
A estimativa é do meteorologista Gilmar Bistrot, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn). Segundo ele, a combinação entre a atuação do El Niño, as condições atmosféricas e características próprias de cada região do estado poderá elevar os termômetros, com reflexos diferentes no litoral e no interior.
Em Natal, por exemplo, as temperaturas máximas que normalmente ficam na faixa de 31°C a 32°C poderão alcançar 33°C ou 34°C em determinados momentos. Já municípios do Seridó, de Mossoró e do Alto Oeste poderão chegar aos 38°C ou 39°C.
“O que nós estamos esperando é que a temperatura atinja, em alguns momentos, até 33, 34 graus, em torno de 2 a 2,5 graus acima da média para o verão, nos meses de janeiro e fevereiro, principalmente”, afirmou Bistrot.
El Niño pode favorecer aumento das temperaturas
Entre os fatores que estão sendo considerados na previsão está o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas superficiais do Oceano Pacífico na região equatorial.
Esse aquecimento interfere na circulação atmosférica e pode provocar mudanças no comportamento do clima em diferentes partes do planeta. No Nordeste, segundo Bistrot, uma das consequências possíveis é a formação de áreas de alta pressão, reduzindo a circulação dos ventos.
Essa condição impõe a formação dessa alta pressão, fazendo com que haja um bloqueio e, consequentemente, diminuição do vento e aumento da temperatura”, explicou.
De acordo com o meteorologista, o fenômeno está atuando desde o fim de maio ou início de junho, mas seus efeitos ainda não foram percebidos de forma significativa sobre o Nordeste. A expectativa é de que ganhe força entre outubro e novembro.
A previsão apresentada por Bistrot indica que a influência do El Niño poderá permanecer até março ou abril de 2027, alcançando praticamente todo o período do verão.
Natal pode sentir calor com maior desconforto
Embora as temperaturas mais elevadas sejam esperadas tradicionalmente no interior, o litoral poderá experimentar uma sensação de calor mais incômoda em determinados períodos.
A explicação está relacionada principalmente à circulação dos ventos e à umidade. Quando o ar se movimenta menos, a umidade tende a permanecer próxima da superfície, dificultando a evaporação do suor e prejudicando um dos mecanismos naturais de resfriamento do corpo.
Com menos circulação do ar, o ar fica parado, a umidade fica parada e, consequentemente, as pessoas têm dificuldade de transpirar”, afirmou Bistrot.
No interior, a situação é diferente porque o calor já faz parte das características climáticas de várias áreas do estado.
“Falar em temperaturas altas no interior do Estado é meio que chover no molhado, porque já é quente lá”, disse.
Seridó pode chegar perto dos 40°C
Entre as regiões que tradicionalmente registram as maiores temperaturas estão o Seridó, Mossoró e o Alto Oeste. Durante os períodos mais quentes, os termômetros podem alcançar 38°C ou 39°C.
Além da temperatura absoluta, a umidade do ar terá papel importante na forma como o calor será sentido pela população. Em situações de baixa umidade, o organismo pode sofrer maior impacto diante de temperaturas elevadas.
“Se a umidade estiver muito baixa, o calor que está de 38 graus, com a umidade baixa, o impacto é muito maior. O corpo sofre muito mais”, explicou o meteorologista.
Bistrot também citou registros históricos próximos dos 40°C em Caicó, especialmente durante períodos de calor intenso registrados em setembro.
Crescimento urbano deixa Natal mais quente
O comportamento das temperaturas na capital potiguar não depende apenas de fenômenos climáticos de escala regional ou global. A própria transformação da cidade ao longo das últimas décadas também contribui para o aumento do calor.
Bistrot aponta como fatores a redução das áreas verdes, a impermeabilização do solo, o crescimento vertical, a expansão das áreas asfaltadas e a concentração de construções.
Esse conjunto de características favorece a chamada ilha de calor urbana, fenômeno em que determinadas áreas densamente urbanizadas apresentam temperaturas superiores às de regiões menos ocupadas.
O efeito, segundo o meteorologista, é especialmente perceptível nas temperaturas mínimas registradas durante a noite.
Mínimas de Natal passaram de 24°C para mais de 26°C
De acordo com Bistrot, durante as décadas de 1960 e 1970, as temperaturas mínimas de Natal nos meses de janeiro e fevereiro costumavam ficar entre 23°C e 24°C.
Atualmente, segundo ele, os registros já ultrapassam os 26°C.
O aumento das temperaturas noturnas contribui para a sensação de desconforto, principalmente porque reduz o período de alívio térmico durante a madrugada.
“Tudo isso gera calor e gera desconforto térmico. Então, as pessoas têm que se preparar”, afirmou.
Para Bistrot, a característica urbana da capital permanece independentemente da atuação do fenômeno climático.
“Natal já é uma ilha de calor. Ela já produz calor. Independente do El Niño ou não, a temperatura aqui no verão vai aumentar”, declarou.
Chuvas podem interromper períodos de calor
Apesar da tendência de temperaturas elevadas, o cenário ainda não está totalmente definido. A ocorrência de chuvas entre dezembro e fevereiro poderá alterar temporariamente as condições térmicas previstas.
Isso ocorre porque os processos atmosféricos responsáveis pela formação das precipitações consomem energia e calor, contribuindo para a diminuição das temperaturas em determinados períodos.
“O processo para fazer chuva consome energia, consome calor”, explicou Bistrot.
O meteorologista também cita a possibilidade de sistemas associados à passagem de frentes frias avançarem para latitudes mais baixas da América do Sul. Essas condições podem provocar instabilidades e aumentar a ocorrência de chuvas em algumas áreas do Nordeste.
Por esse motivo, ele afirma que ainda não é possível apontar 2027 como o verão mais quente já registrado no Rio Grande do Norte.
“Não dá para dizer ainda se 2027 será o verão mais quente aqui sobre o Estado”, ressaltou.
Ondas de calor ainda dependem do comportamento da atmosfera
Outra possibilidade para a estação é a ocorrência de ondas de calor. No entanto, a formação de episódios prolongados dependerá do deslocamento das massas de ar quente e da interação com outros sistemas meteorológicos que estarão atuando sobre a América do Sul.
Até o momento, segundo Bistrot, não há uma configuração que permita afirmar a ocorrência de uma onda de calor prolongada sobre o Nordeste.
Caso esse tipo de evento aconteça, as consequências não serão iguais em todo o estado. Regiões do interior, que já convivem com temperaturas próximas dos 40°C em determinados períodos, poderão registrar os maiores valores.
Primavera pode antecipar o cenário de calor
Antes mesmo da chegada oficial do verão, o Rio Grande do Norte poderá experimentar períodos de temperaturas acima do padrão. A previsão do meteorologista é de que a primavera também apresente características mais quentes, principalmente à medida que o El Niño ganhe intensidade.
Ao mesmo tempo, a circulação de sistemas meteorológicos pelo Sul do continente poderá provocar mudanças no tempo e favorecer episódios de instabilidade no Nordeste.
A combinação entre calor, umidade, circulação dos ventos e possíveis chuvas fará com que o comportamento da estação varie ao longo dos meses.
Ao resumir a expectativa para os próximos meses, Bistrot definiu o cenário de forma direta:
“Essa primavera vai estar com gosto de verão.”
Como pode ficar o calor no RN
→ NATAL
Médias no verão: 31°C a 32°C
Possíveis máximas: 33°C a 34°C
→ INTERIOR
Seridó, Mossoró e Alto Oeste
Possíveis máximas: 38°C a 39°C
→ ELEVAÇÃO PREVISTA
Até 2,5°C acima da média
em determinados períodos
→ PERÍODO DE MAIOR ATENÇÃO
Janeiro e fevereiro
→ EL NIÑO
Possível influência até março ou abril de 2027
Por que Natal está mais quente?
• Redução de áreas verdes
• Maior quantidade de áreas asfaltadas
• Impermeabilização do solo
• Crescimento vertical
• Maior concentração urbana
• Formação de ilhas de calor
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