Cidades
Relatos feitos por pilotos, controladores de tráfego aéreo e profissionais da aviação e encaminhados à Força Aérea Brasileira (FAB) mostram que o céu brasileiro voltou a registrar uma série de ocorrências classificadas oficialmente como objetos voadores não identificados (OVNIs).
Documentos disponibilizados pelo Arquivo Nacional apontam pelo menos 18 registros referentes a 2025, concentrados principalmente nos últimos meses do ano.
Os episódios foram observados em diferentes regiões do país e, em sua maioria, envolvem pontos ou objetos luminosos cuja origem não pôde ser determinada pelos profissionais que fizeram os relatos. O Paraná aparece na liderança, com cinco ocorrências, seguido pelo Ceará, com quatro.
A documentação, no entanto, não significa que a FAB tenha identificado qualquer evidência de origem extraterrestre. O termo OVNI é utilizado para designar um fenômeno observado no espaço aéreo que não pôde ser imediatamente identificado.
A própria estrutura de catalogação brasileira não estabelece que esses objetos sejam naves ou estejam relacionados a vida fora da Terra.
A distribuição dos registros de 2025 mostra uma concentração significativa no Sul e no Nordeste do país. Londrina, no Paraná, aparece como um dos principais pontos de interesse, com cinco ocorrências catalogadas.
O Ceará vem logo depois, com quatro registros. Minas Gerais e São Paulo aparecem com dois casos cada, enquanto Rio de Janeiro também contabiliza duas ocorrências.
Alagoas e Mato Grosso tiveram um registro cada. Há ainda uma ocorrência cuja localização não foi identificada nos documentos consultados.
Veja a distribuição dos relatos registrados em 2025:
A predominância de relatos envolvendo luzes também aparece em levantamentos anteriores realizados a partir do acervo mantido pelo Arquivo Nacional.
Objeto branco foi filmado em Londrina
Um dos episódios que chama atenção ocorreu em 23 de novembro de 2025, em Londrina. Um operador da torre de controle relatou ter registrado em vídeo um objeto branco e arredondado no céu.
Segundo a descrição incluída no documento, o objeto aparecia e desaparecia repetidamente e permaneceu visível durante poucos minutos. Apesar da existência do relato sobre a gravação, o vídeo não foi disponibilizado junto ao material consultado pelo Arquivo Nacional.
A ausência da imagem impede uma análise independente sobre características como formato, trajetória, velocidade ou distância do objeto. Por isso, o registro permanece classificado apenas como uma ocorrência não identificada.
O caso de Londrina ganha relevância porque envolve um profissional diretamente ligado ao controle do tráfego aéreo, e não apenas uma testemunha que observou o céu a partir do solo.
Piloto da Latam relatou luzes em Guarulhos
Outro episódio ocorreu em 1º de setembro de 2025, na região de Guarulhos, em São Paulo. Um comandante da Latam informou ter observado entre duas e três luzes de forte intensidade.
De acordo com o relato, as luzes apresentavam coloração branca, vermelha e amarela e realizavam movimentos considerados irregulares. O piloto também informou ter percebido turbulência durante o episódio.
A descrição, por si só, não permite determinar o que foi observado. Fenômenos atmosféricos, aeronaves, drones, satélites, balões e outros objetos podem produzir efeitos visuais que, dependendo das condições de observação, não são imediatamente reconhecidos.
É justamente essa dificuldade de identificação que faz com que determinados episódios sejam registrados como OVNIs.
CNN já revelou dezenas de casos anteriores
Os registros de 2025 não representam uma situação isolada. Levantamentos anteriores divulgados pela CNN Brasil a partir de documentos do Arquivo Nacional mostram que a FAB recebe relatos desse tipo regularmente.
Em agosto de 2024, a CNN revelou documentos referentes a aproximadamente 30 relatos feitos em 2023. Na ocasião, os registros estavam concentrados principalmente na Região Sul, especialmente nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Em outro levantamento publicado em 2025, a CNN informou que documentos relativos a 2024 reuniam pelo menos 26 ocorrências envolvendo OVNIs e aeronaves. Entre os registros havia objetos circulares, luzes intensas e fenômenos observados por pilotos durante voos.
A sequência mostra que a existência de relatos não é novidade no sistema de controle aéreo brasileiro. O que mudou nos últimos anos é também a maior facilidade de acesso público aos documentos históricos.
FAB registra, mas não afirma que sejam extraterrestres
A classificação oficial exige uma distinção importante. Um OVNI não é sinônimo de nave extraterrestre.
O próprio Arquivo Nacional explica que o fundo documental sobre o tema reúne registros produzidos pelo Comando da Aeronáutica e que a denominação pode abranger objetos ou fenômenos cuja origem não tenha sido identificada imediatamente. Entre as possibilidades estão satélites, drones, balões, aeronaves e fenômenos naturais.
O acervo inclui relatos, questionários, correspondências, fotografias, desenhos, vídeos, áudios e recortes de jornais e revistas. O Arquivo Nacional informa que o conjunto possui centenas de registros históricos relacionados a ocorrências observadas nos céus brasileiros.
A FAB também já esclareceu, em resposta obtida pela CNN, que não realiza estudos ou análises sobre a origem dos avistamentos. Segundo a instituição, os relatos são catalogados e posteriormente encaminhados ao Arquivo Nacional.
Um dos casos mais impressionantes envolveu um avião da Gol
O histórico brasileiro tem episódios ainda mais próximos de questões de segurança aérea.
Documentos revelados pela CNN mostram que, em 24 de janeiro de 2014, um avião da Gol que fazia a rota entre Brasília e Fortaleza teria realizado uma manobra evasiva após a tripulação observar um objeto próximo à aeronave, no Ceará.
Segundo o documento, o objeto era grande, de cor branca e apresentava velocidade descrita como supersônica. O caso ocorreu na região de Quixadá, a aproximadamente 170 quilômetros de Fortaleza.
O episódio é relevante porque demonstra por que as autoridades aeronáuticas tratam determinados avistamentos com atenção mesmo quando não existe confirmação sobre sua natureza.
Para a aviação, identificar um objeto desconhecido é uma questão operacional antes de ser uma questão ufológica. O principal objetivo é determinar se existe risco de colisão ou interferência no tráfego aéreo.
“Noite Oficial dos OVNIs” ainda é um dos maiores casos do Brasil
Entre os episódios históricos brasileiros, nenhum ganhou tanta repercussão quanto o ocorrido em 19 de maio de 1986, conhecido como “Noite Oficial dos OVNIs”.
Segundo o próprio Arquivo Nacional, dezenas de objetos luminosos foram detectados por radares dos Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindactas). A situação levou a Força Aérea Brasileira a acionar aeronaves para tentar identificar os objetos.
Caças decolaram das bases aéreas de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e Anápolis, em Goiás, para acompanhar os alvos. O episódio entrou para a história da ufologia brasileira justamente porque envolveu simultaneamente relatos visuais, registros de radar e atuação de militares.
Décadas depois, porém, o caso continua sem uma explicação definitiva que permita afirmar que os objetos tinham origem extraterrestre.
Relatos de pilotos continuam aparecendo
O fenômeno também ganhou atenção por causa das comunicações entre pilotos e controladores de voo.
Em 2024, a CNN divulgou áudios relacionados a ocorrências registradas no Brasil. Em uma das gravações, pilotos relatam ter observado diversas luzes próximas, algumas delas aparentemente mudando de cor e realizando movimentos que chamaram a atenção das tripulações.
Em outro episódio divulgado mais recentemente pela CNN, um piloto relatou ter visto duas luzes muito fortes durante um voo na região de Londrina. Segundo a reportagem, o comandante descreveu os objetos como extremamente luminosos e afirmou ter sentido um forte impacto emocional durante a observação.
A ocorrência foi encaminhada à FAB, mas a NAV Brasil informou que o episódio não provocou impacto na segurança das operações aéreas nem prejuízo aos serviços de navegação aérea.
E o que acontece fora do Brasil?
O interesse pelos chamados fenômenos aéreos não identificados aumentou também nos Estados Unidos nos últimos anos. Lá, o termo mais utilizado oficialmente é UAP-Unidentified Anomalous Phenomena (ou Unidentified Aerial Phenomena), sigla em inglês para “fenômenos anômalos não identificados”.
O governo americano criou o All-domain Anomaly Resolution Office (AARO) para reunir, analisar e tentar solucionar relatos envolvendo objetos ou fenômenos observados no ar, no mar e até no espaço.
Em relatório divulgado em novembro de 2024, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos informou que o AARO havia recebido 757 relatos de UAP no período analisado, entre maio de 2023 e junho de 2024. Desses, 485 correspondiam a ocorrências registradas dentro daquele intervalo.
A grande maioria dos casos ainda não significava necessariamente algo extraordinário. O relatório apontou que diversos episódios puderam ser associados a balões, aves, drones, satélites e aeronaves.
Dos casos analisados, 49 foram solucionados durante o período e classificados como objetos ou fenômenos convencionais. Outros 243 estavam recomendados para encerramento, também relacionados a explicações consideradas comuns.
Pentágono não encontrou evidência de tecnologia extraterrestre
A investigação americana também produziu uma conclusão importante para separar fatos de especulações.
Em 2024, o AARO divulgou um estudo histórico que analisou décadas de investigações oficiais dos Estados Unidos, desde 1945. O órgão afirmou não ter encontrado evidências verificáveis de que algum avistamento de UAP representasse atividade extraterrestre ou tecnologia de origem não humana.
O relatório também rejeitou alegações de que o governo americano ou empresas privadas tivessem obtido tecnologia extraterrestre para programas secretos de engenharia reversa.
Isso não significa que todos os relatos tenham sido explicados. A conclusão é mais restrita: um objeto continuar sem identificação não é, por si só, prova de que tenha origem extraterrestre.
NASA adota cautela científica
A NASA segue uma linha semelhante. Em seu estudo independente sobre UAP, divulgado em 2023, a agência afirmou que a quantidade de observações com dados científicos de alta qualidade ainda é limitada, o que impede conclusões firmes sobre a natureza desses fenômenos.
A agência também afirma atualmente que não encontrou evidência confiável de vida extraterrestre e que não existem dados que sustentem a conclusão de que os UAP tenham origem alienígena.
A abordagem científica, portanto, não consiste em simplesmente afirmar que “não existe nada”. O objetivo é justamente identificar quais casos podem ser explicados por fenômenos conhecidos e quais permanecem sem explicação por falta de dados suficientes.
Novos documentos americanos reacenderam o debate em 2026
O assunto voltou a ganhar força internacionalmente em 2026. Em junho, a Reuters noticiou a divulgação pelo Pentágono de um novo conjunto de documentos relacionados a antigos relatos de UAP nos Estados Unidos.
Os arquivos incluem registros do FBI, CIA e Departamento de Defesa, além de relatos, imagens e vídeos relacionados a objetos luminosos observados em diferentes circunstâncias. Alguns documentos descrevem esferas ou luzes que aparentavam realizar movimentos incomuns.
A divulgação, porém, também veio acompanhada de uma ressalva importante: a existência de um documento oficial sobre um avistamento não equivale à confirmação da interpretação feita pela testemunha.
A AP também destacou, ao analisar a nova leva de arquivos, que especialistas continuam considerando provável que uma parcela significativa dos relatos corresponda a interpretações equivocadas de fenômenos militares, ambientais ou objetos convencionais.
Por que tantos relatos continuam sem explicação?
Há uma questão técnica por trás de muitos desses registros: observar alguma coisa não significa necessariamente conseguir identificá-la.
Uma luz distante pode parecer estar se movimentando em alta velocidade quando, na realidade, está parada. Um objeto pode parecer próximo quando está a quilômetros de distância. Reflexos, perspectiva, nuvens, turbulência, efeitos atmosféricos, satélites e aeronaves podem produzir imagens difíceis de interpretar.
Além disso, muitos relatos são feitos em condições nas quais não existe informação suficiente sobre altitude, distância, velocidade e trajetória.
Por isso, os investigadores precisam de diferentes fontes de dados para chegar a uma conclusão. Imagens, radares, registros de tráfego aéreo, dados meteorológicos e informações de sensores podem ser decisivos para identificar um fenômeno.
O que os 18 registros de 2025 realmente mostram
Os documentos brasileiros revelam algo concreto: profissionais do setor aéreo observaram objetos ou luzes que não conseguiram identificar no momento das ocorrências e esses episódios foram oficialmente registrados.
O material não demonstra, porém, que os objetos eram naves extraterrestres, que tinham tecnologia não humana ou que representavam algum tipo de contato com seres de fora da Terra.
A importância dos registros está justamente em outro ponto. Eles mostram que fenômenos aéreos não identificados continuam sendo documentados por pilotos e controladores, inclusive em um período marcado pelo avanço de drones, satélites, novas tecnologias aeronáuticas e maior disponibilidade de sensores.
O mistério, portanto, permanece — mas a documentação permite que os relatos sejam analisados a partir de fatos, registros oficiais e dados disponíveis, e não apenas de especulações.
De OVNI a UAP: por que o nome mudou?
A terminologia também mudou nos últimos anos. Nos Estados Unidos, autoridades passaram a utilizar com maior frequência a expressão UAP, ou “fenômenos anômalos não identificados”, em vez de UFO.
A mudança procura afastar o tema do imaginário associado exclusivamente a discos voadores e extraterrestres.
No Brasil, a expressão OVNI continua presente nos documentos históricos da Aeronáutica e do Arquivo Nacional.
Em ambos os casos, a definição central é semelhante: trata-se de algo observado que, naquele momento, não foi identificado de maneira conclusiva.
É essa distinção que permite tratar o assunto com seriedade jornalística. Há relatos oficiais, documentos, gravações e, em alguns casos, dados de radar. O que ainda não existe é uma evidência científica comprovada de que qualquer desses episódios tenha origem extraterrestre.
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