☰
✕

Política

Relator do caso Banco Master vira alvo após escândalo de emendas milionárias para obras fantasmas

Emendas de Jhonatan de Jesus para Roraima não tiveram prestação de contas, e a prefeitura de Iracema não apresentou relatórios exigidos pelo STF  |  Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Publicado em 13/01/2026, às 10h56   Pablo Valadares/Câmara dos Deputados   Redação

Ler resumo da notícia

O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, relator do processo na Corte em torno da liquidação do Banco Master, ganhou os holofotes da mídia, neste início de semana, após denúncias de que ele indicou R$ 42 milhões em emendas parlamentares para Roraima, que se transformaram em obras inacabadas e asfaltos esburacados, ou seja, recursos públicos que na prática foram mal utilizados. 

A maior parte “sumiu” sem prestação de contas sobre o que foi feito com o dinheiro. A informação é de uma apuração da reportagem do Estadão, que aponta que as emendas foram indicadas entre 2020 e 2023, quando ele era deputado federal por Roraima. A maioria dos recursos foi para Iracema (RR), cidade a 95 quilômetros de Boa Vista.

A reportagem do Estadão disse que percorreu mais de 60 quilômetros de estradas da zona rural de Iracema, controlada por um grande aliado do ministro, que deveriam ter sido recuperadas ou asfaltadas, além de vias esburacadas que viram lama nos períodos chuvosos.

No local, apenas uma única casa foi encontrada, abandonada, em um conjunto de habitações populares que deveria ter, desde 2024, 300 moradias.

O relator do processo no TCU que investiga a atuação do Banco Central na liquidação do Master, o ministro chegou a ordenar uma inspeção in loco na autoridade monetária, mas recuou após ser questionado, enviando a decisão para o plenário da Corte de Contas, que está em recesso.

Segundo a apuração, O ministro Jhonatan de Jesus enviou R$ 25,8 milhões em emendas Pix para Roraima que não tiveram prestação de contas apresentada. Só a prefeitura de Iracema recebeu R$ 11,7 milhões e não entregou o relatório de nenhuma delas, deixando de informar o que foi feito com o dinheiro e descumprindo uma exigência do Supremo Tribunal Federal (STF) e do próprio TCU.

Procurado pela equipe de reportagem, o ministro negou desvio de finalidade nas indicações e afirmou que a execução e a prestação de contas são de responsabilidade dos Estados e municípios que receberam os recursos. A prefeitura de Iracema disse que aplicou os recursos regularmente.

Necessidade de obras nas estradas de Iracema

O município de Iracema, possui cerca de 10 mil habitantes, tem produção agropecuária relevante, com fazendas de gado e soja em uma área mais de nove vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Grandes grupos agrícolas e os principais políticos de Roraima têm terras na região.

Áreas do interior do município estão próximas à terra indígena yanomami e são marcadas pela atividade garimpeira de ouro e cassiterita.

O asfaltamento de uma estrada de terra da zona rural de Iracema custou R$ 13,6 milhões, apadrinhados pelo ex-deputado. O recurso foi liberado em 2022, mas a obra só foi parcialmente concluída há poucos dias. Apesar do asfalto recente, já existem pontos de rachaduras e, em várias partes, a espessura da pista tem menos de cinco centímetros exigidos no projeto.

A emenda para a pavimentação é de autoria da bancada de Roraima, mas teria sido apadrinhada pelo ex-parlamentar, conduta vedada pelas regras orçamentárias do Congresso Nacional. 

Emendas de bancada não podem ser divididas entre parlamentares e devem contemplar apenas obras estruturantes e de grande vulto nos Estados, segundo a legislação.

A estrada de terra da zona rural de Iracema tem diversos cartazes com fotos da atual prefeita e do senador Mecias de Jesus, pai do ministro, que sempre trabalhou as emendas de forma casada com o filho.

O ministro do TCU ainda disse não ter conhecimento sobre qualquer vínculo entre as emendas e investigações envolvendo políticos locais, e enfatizou que repudia qualquer prática ilícita. Também declarou que a relação com prefeitos sempre foi “estritamente institucional.”

Classificação Indicativa: Livre


TagsStfContasTribunalPrefeituraUniãoEstradasObrasMinistroRecursosEmendasAgropecuáriaBancoTcuRoraimaJesusAsfaltamentoJhonatanIracemaMasterGarimpeira