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Polícia

Lendário delegado que perseguiu assaltantes de banco em avião é lembrado na posse de novos policiais do RN

Homenagem ao delegado Maurílio Pinto de Medeiros, o “Xerife”, aconteceu durante cerimônia que deu posse aos 138 novos policiais civis do RN  |  Reprodução

Publicado em 31/10/2026, às 06h00   Reprodução   Anderson Barbosa

A posse de 138 novos policiais civis do Rio Grande do Norte, ato realizado há poucos dias, em Natal, trouxe de volta à memória um dos nomes mais emblemáticos da história da segurança pública potiguar. Durante sua fala, o secretário da Segurança Pública e da Defesa Social, coronel Araújo Silva, lembrou a trajetória do delegado Maurílio Pinto de Medeiros, o “Xerife”, como exemplo de dedicação à Polícia Civil.

Mas, afinal, quem foi Maurílio Pinto? O delegado morreu em 2018, aos 76 anos, por complicações provocadas pela diabetes. Ele foi uma daquelas figuras singulares das forças policiais do Rio Grande do Norte, com uma história que reúne operações de grande repercussão, décadas de atuação em cargos estratégicos e uma personalidade que ajudou a construir a fama que o acompanhou durante toda a carreira.

Entre os acontecimentos mais marcantes está uma perseguição aérea a assaltantes de banco, em 1989, após uma quadrilha invadir a agência do Banco do Nordeste na cidade de Assú, no Oeste potiguar. Além de roubar 100 milhões de cruzados novos, o bando ainda sequestrou o gerente. A perseguição aos criminosos atravessou estados e terminou em Belém, no Pará, com mais de 80 horas de tensão, troca de tiros, mortes dos bandidos e a libertação do refém.

Delegado Maurílio Pinto / Foto: Paulo Nascimento

Perseguição aérea entrou para a história

O assalto ao BNB de Assú terminou se transformando em um episódio incomum até mesmo para a trajetória de Maurílio. Depois de invadir a agência e fazer funcionários reféns, os criminosos sequestraram o gerente e exigiram uma aeronave do Governo do Estado para fugir.

O delegado e sua equipe partiram em outro avião, cedido pelo próprio banco, para perseguir a quadrilha. A primeira tentativa de interceptação ocorreu em Teresina, no Piauí, mas não teve sucesso. A captura só aconteceu na capital paraense, onde houve troca de tiros na pista do aeroporto.

Avião do Governo do RN usado no sequestro do gerente do BNB, em 1989 / Foto: TV Liberal

“Primeiro tentamos interceptá-los na cidade de Teresina, mas não deu certo. Só fomos conseguir prendê-los em Belém do Pará, onde houve troca de tiros na pista do aeroporto e quatro assaltantes morreram. Libertamos o gerente do banco, que foi resgatado sem sofrer um arranhão sequer. O líder do bando foi capturado e todo o dinheiro recuperado”, contou o delegado, em entrevista concedida ao jornalista Anderson Barbosa, dois anos antes de se aposentar.

Vocação policial começou aos 16 anos

A ligação de Maurílio com a atividade policial começou na adolescência, sob a influência do pai, o coronel Bento de Medeiros, conhecido em todo o Rio Grande do Norte como “o caçador de pistoleiros”.

Em 1958, aos 16 anos, Maurílio participou de sua primeira operação, dirigindo a viatura do pai, que era delegado em Patu, no Oeste potiguar. Na ocasião, Bento de Medeiros desarticulou o chamado “Sindicato do Crime”, descrito como uma grande quadrilha de assaltantes e matadores.

Maurílio seguiu os passos do pai, o coronel Bento Medeiros, e também combateu o crime no interior do estado

Ainda menor de idade, Maurílio já realizava diligências policiais na região e conduzia presos para audiências judiciais em cidades do Oeste, mesmo sem habilitação. A rotina ao lado do pai contribuiu para aproximá-lo definitivamente da atividade policial.

Em 1960, quando Bento foi transferido para Natal para assumir o então Departamento de Ordem e Política Social (DOPS), Maurílio precisou se alistar nas Forças Armadas e serviu à Aeronáutica. Ao retornar, voltou a trabalhar com o pai, e novamente como voluntário, sem remuneração, auxiliva nas atividades policiais.

Seu ingresso oficial na Polícia Civil aconteceu em 1º de julho de 1964, quando foi contratado como motorista policial por meio do general Ulisses Cavalcanti, então secretário de Segurança Pública do estado. A partir daí, construiu uma trajetória profissional que passou por diferentes funções, prestando concursos para investigador e escrivão de polícia. Após concluir o curso de Direito, em dezembro de 1975, foi aprovado em novo concurso e tornou-se delegado.

Em 1º de março de 1976, assumiu a coordenação de Polícia da Capital, cargo criado pelo coronel João José Pinheiro Veiga, que havia acabado de assumir a Secretaria de Segurança do RN. 

“Lembro muito bem do coronel Veiga, porque foi ele quem me lançou como delegado. Brincava com ele e dizia: - foi o senhor quem me lançou delegado”, contou Maurílio.

Delegado Maurílio Pinto aponsentou-se em 2011, na DECAP

Mais de duas décadas em cargos de chefia

A partir de 1976, Maurílio passou 21 anos exercendo funções de chefia em coordenadorias e departamentos da segurança pública, além de ocupar o cargo de secretário adjunto. Sua presença na estrutura da Polícia Civil e da segurança estadual se consolidou ao longo de diferentes gestões.

Em 2011, já à frente da Delegacia Especializada em Capturas e Polinter (Decap), aposentou-se compulsoriamente, em razão da idade. Nem mesmo a despedida da atividade policial deixou de ser acompanhada pelo humor característico do “Xerife”.

“Só saio da polícia assim, na expulsatória”.

A frase traduzia a disposição de quem passou décadas na instituição e não escondia o vínculo que mantinha com o trabalho policial.

O homem por trás do apelido

Comedido e discreto, Maurílio era conhecido por dizer o que pensava. Por vezes, exibia uma expressão fechada, de homem severo, mas também deixava transparecer doçura no rosto. Ao longo dos anos, cansou de ouvir que seria insubstituível, embora não aceitasse esse tipo de reconhecimento como um tributo pessoal.

Polêmico, intitulava-se um homem destemido e de princípios morais bem definidos. Gostava de repetir:

“Bandido bom é bandido morto!”

A frase traduzia a postura dura que assumia diante da criminalidade.

Delegado Maurílio Pinto ocupou posições de destaque na estrutura da segurança pública potiguar

A trajetória pública do delegado também lhe rendeu reconhecimento entre colegas, o levou a ocupar posições de destaque na estrutura da segurança pública estadual e o respeito conquistado entre seus pares fez com que seu nome fosse lembrado repetidas vezes para assumir a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social.

Ele, no entanto, recusou a possibilidade, alegando problemas de saúde, agravados pelo acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu poucos anos antes de morrer.

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