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Polícia

Década de omissão: falha no combate à tortura faz RN enfrentar ação na Justiça

Casos de tortura e mortes no sistema carcerário potiguar reforçam a urgência da implementação do mecanismo de combate à tortura  |  MPF

Publicado em 23/04/2026, às 08h47   MPF   Elí Bernardo

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação na Justiça Federal contra o estado do Rio Grande do Norte para que ele seja obrigado a implementar o Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura (MEPCT). 

A ação civil pública tem o objetivo de garantir que o Estado cumpra leis nacionais e tratados internacionais que exigem a criação de órgãos independentes para realizar essa fiscalização. 

Esse mecanismo é uma obrigação assumida pelo Brasil ainda em 2007 perante a Organização das Nações Unidas (ONU).

O Sistema Nacional de Combate à Tortura foi criado por lei em 2013, bem como o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), só que mais de uma década depois, o Rio Grande do Norte ainda não possui seu próprio grupo de peritos para realizar inspeções de forma regular e independente.

Violações

O procurador regional do Direitos do Cidadão, Emanuel Ferreira, que é autor da ação, destacou que a ausência desse órgão no Estado é grave, especialmente diante do histórico de violações de direitos humanos no sistema carcerário potiguar.

No documento, são citados casos como a tragédia na Penitenciária de Alcaçuz, em 2017, quando 26 presos foram mortos decapitados, esquartejados ou carbonizados. Outros 19 ainda estão desaparecidos. Os relatórios mais recentes também apontam indícios de tortura e um aumento no número de mortes de presos nas unidades de Caicó, Ceará-Mirim e na própria Alcaçuz.

As inspeções realizadas pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura identificaram indícios de maus-tratos, espancamentos e até retaliações contra presos que denunciaram abusos. 

Apenas com a existência de mecanismos estaduais será possível prevenir, detectar e reprimir as situações de tortura, notadamente nos estabelecimentos estaduais”, enfatizou o representante do MPF.


Omissão do Estado

A ação relata que, pelo menos desde 2016, o MPFtentou resolver a questão sem recorrer à Justiça, mas a proposta de criação do MEPCT não avançou.

O governo estadual chegou a alegar dificuldades financeiras para contratar os cinco peritos necessários para a criação do mecanismo, no entanto, encaminhou ao Poder Legislativo o Projeto de Lei Complementar nº 11/2023, que segue em tramitação, três anos depois, sem ser aprovado.

Na Assembleia Legislativa do RN, o presidente da casa, por duas vezes, informou que o projeto foi apreciado pelas comissões necessárias e que seria incluído na pauta de votação, o que não ocorreu até o momento. 

O MPF buscou a realização de reuniões para viabilizar a aprovação do projeto de lei, mas o presidente deixou de participar e sequer indicou nova data conveniente, embora tenha sido expressamente solicitado, segundo o Ministério Público Federal.

Precedente do STF

A ação civil pública inclui um pedido urgente para que o estado inicie imediatamente os procedimentos para criar o mecanismo de combate a tortura, implementando-o em um prazo máximo de 120 dias, com a previsão de cargos e a realização de concurso público. 

O MPF destaca que o Supremo Tribunal Federal tem precedente específico sobre o tema, determinando que o estado implemente o respectivo mecanismo em prazo igual ao pedido nesta ação.

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TagsRio grande do norteDireitos humanosMecanismo nacional de prevenção e combate à tortura