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Reforma Tributária entra em nova fase e já exige mudanças nas empresas a partir de agosto; especialistas alertam para impactos no caixa e nas rotinas fiscais

A implementação da Reforma Tributária começa em agosto, impactando diretamente a rotina das empresas brasileiras.  |  

Publicado em 01/08/2026, às 16h56      Dani Oliveira

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Novas obrigações começam a valer nos próximos dias e exigem revisão de processos, contratos e sistemas; especialistas defendem preparação imediata para evitar prejuízos e destacam que modelo deve acabar com fraudes, empresas noteiras e o chamado “crédito frio”

A contagem regressiva para a implementação da Reforma Tributária já começou e os primeiros impactos práticos sobre as empresas brasileiras deixam de ser uma preocupação para o futuro e passam a integrar a rotina dos negócios a partir de agosto. O novo modelo tributário exigirá adaptações nos sistemas, mudanças na emissão de documentos fiscais, revisão de contratos e um acompanhamento muito mais estratégico das áreas contábil e financeira.

O tema foi o centro dos debates da mais recente edição do RN em Foco, promovida pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN), na última terça-feira (28), no Hotel-Escola Senac Barreira Roxa, em Natal. O evento reuniu mais de 200 empresários, gestores, contabilistas e representantes do setor produtivo para discutir os desafios da transição para o novo sistema tributário brasileiro.

A contagem regressiva para a implementação da Reforma Tributária já começou e os primeiros impactos práticos sobre as empresas brasileiras. Foto: divulgação

Mais do que explicar as alterações na legislação, o encontro procurou demonstrar como as novas regras afetarão o funcionamento das empresas na prática, desde o planejamento tributário até o fluxo de caixa, passando pela emissão de notas fiscais, aproveitamento de créditos e gestão financeira.

O debate contou com palestra do head de Reforma Tributária da consultoria BWA Global, Thiago Diniz, seguida por um painel com o advogado tributarista e sócio-fundador do escritório Fausto Advogados, Vanildo Fausto. Os especialistas detalharam os principais marcos da implementação da reforma e responderam dúvidas dos empresários sobre os impactos operacionais das mudanças.

Reforma deixa de ser projeto e passa a fazer parte da rotina das empresas

Embora a implementação completa da Reforma Tributária aconteça de forma gradual, diversas etapas começam a produzir efeitos já nos próximos meses, obrigando as empresas a acelerarem seu processo de adaptação.

Entre as primeiras mudanças está a obrigatoriedade do preenchimento dos campos referentes ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) nos documentos fiscais eletrônicos emitidos pelas empresas enquadradas no regime regular.

Outra etapa importante ocorrerá em setembro, quando empresas optantes pelo Simples Nacional poderão decidir se permanecerão recolhendo os novos tributos dentro da guia única ou se migrarão para o regime regular durante o primeiro semestre de 2027.

Segundo especialistas, essas definições influenciarão diretamente a competitividade, a gestão financeira e até mesmo a relação comercial entre empresas.

Fecomércio defende preparação do setor produtivo

Na abertura do evento, o presidente do Sistema Fecomércio RN, Marcelo Queiroz, destacou que o papel da entidade vai além da representação institucional, buscando preparar empresários para um dos maiores processos de transformação tributária já vividos pelo país.

“O Sistema Fecomércio RN acompanha esse processo com atenção, mas nossa missão não se limita à representação institucional. Ela também passa por preparar empresários, gestores e profissionais para compreender as mudanças em curso, avaliar seus impactos e identificar caminhos para uma adaptação segura e sustentável”, afirmou.

Segundo ele, o acesso à informação técnica e atualizada será determinante para reduzir riscos durante o período de transição.

Especialista alerta para empresas que ainda não começaram a se preparar

Durante a palestra, Thiago Diniz fez um alerta aos empresários que ainda tratam a Reforma Tributária como um assunto distante.

Segundo ele, quem não revisar processos internos, atualizar sistemas e estudar os impactos específicos do seu negócio poderá enfrentar dificuldades operacionais já no próximo ano.

“Um empresário que ainda não fez as contas, não buscou compreender a Reforma Tributária e não tomou essa decisão com base em dados pode enfrentar grandes problemas no próximo ano. É importante contar com uma assessoria atualizada e uma contabilidade estratégica, capazes de apoiar as decisões”, afirmou.

Para o especialista, o momento exige planejamento baseado em informações técnicas e não apenas em percepções sobre o novo sistema.

Mudança vai muito além dos impostos

Durante sua apresentação, Diniz ressaltou que um dos maiores equívocos é imaginar que a reforma afeta apenas a área fiscal das empresas.

Na avaliação dele, as mudanças alcançam diretamente o fluxo financeiro dos negócios, exigindo maior integração entre setores como contabilidade, financeiro, compras, comercial e tecnologia da informação.

“A reforma fala sobre caixa. Por isso, é muito importante que as empresas tenham equipes e assessorias preparadas, acompanhando diariamente as mudanças”, acrescentou.

Na prática, isso significa que decisões tributárias passarão a influenciar diretamente o capital de giro, a formação de preços, os investimentos e até a relação entre clientes e fornecedores.

Contratos e planejamento também precisarão ser revistos

Durante o painel realizado após a palestra, o advogado tributarista Vanildo Fausto chamou atenção para outro aspecto que muitas empresas ainda não observaram: a necessidade de revisar contratos e procedimentos internos.

Segundo ele, a adaptação não se limita ao departamento fiscal.

Fornecedores, clientes, escritórios de contabilidade e gestores precisarão revisar documentos, políticas internas e formas de aproveitamento dos créditos tributários.

“A Reforma Tributária não é mais um futuro distante. Os empresários precisam se preparar agora, revisando contratos, avaliando a tomada de créditos e garantindo que os créditos de PIS e Cofins estejam devidamente levantados e registrados na escrituração fiscal. São muitas regras e especificidades, o que exige atualização das equipes contábeis”, afirmou.

Novo modelo promete acabar com o chamado “crédito frio”

Um dos pontos destacados pelo Sindicato dos Auditores Fiscais do Rio Grande do Norte (Sindifern) é que a Reforma Tributária deverá eliminar uma das principais distorções do sistema atual: o chamado crédito frio.

Hoje, uma empresa pode emitir uma nota fiscal, permitindo que seu cliente aproveite imediatamente o crédito tributário correspondente.

O problema ocorre quando essa empresa deixa de recolher o imposto devido e desaparece antes do pagamento ao Fisco. Nesse cenário, o Estado perde a arrecadação, enquanto o comprador permanece com o crédito fiscal normalmente registrado.

É justamente esse mecanismo que alimenta a atuação das chamadas empresas noteiras, organizações criadas apenas para emitir documentos fiscais e gerar créditos tributários sem que haja o efetivo recolhimento dos tributos.

Segundo o Sindifern, essa prática tende a desaparecer com a implementação do novo modelo.

A regra passa a ser: sem pagamento, não existe crédito

Com a criação do IBS e da CBS, entra em vigor um novo princípio considerado um dos pilares da reforma. O crédito tributário somente nascerá depois que o imposto for efetivamente recolhido aos cofres públicos.

Na prática, isso significa que uma empresa compradora somente poderá utilizar aquele crédito para reduzir seus próprios tributos se o fornecedor realmente pagar o imposto.

Caso o recolhimento não ocorra, o crédito simplesmente deixa de existir.

Essa mudança altera completamente os incentivos econômicos existentes hoje.

Cliente também passa a fiscalizar o fornecedor

Na avaliação do Sindifern, a própria cadeia produtiva passa a funcionar como um mecanismo adicional de fiscalização.

Isso porque o comprador terá interesse direto em negociar apenas com fornecedores que cumpram corretamente suas obrigações tributárias.

Qualquer tentativa de simular inadimplência ou participar de esquemas para fraudar o Fisco deixaria de fazer sentido econômico.

Segundo os auditores fiscais, para participar de qualquer “arrumação” entre fornecedor e cliente, o comprador precisaria abrir mão justamente do benefício que mais lhe interessa: o crédito tributário.

Sem esse crédito, a empresa pagaria mais impostos na etapa seguinte da cadeia produtiva.

Em outras palavras, tentar fraudar o sistema significaria provocar um prejuízo financeiro para o próprio comprador.

Split Payment muda completamente a arrecadação

Outro mecanismo considerado revolucionário pela Reforma Tributária é o chamado Split Payment.

Hoje, uma empresa recebe integralmente o valor da venda e somente depois recolhe os tributos ao governo.

Durante esse intervalo, existe o risco de inadimplência.

No novo sistema, o imposto será separado automaticamente no momento da operação financeira.

Quando o pagamento ocorrer, a parcela correspondente aos tributos seguirá diretamente para o Fisco, enquanto apenas o valor líquido será destinado ao fornecedor.

Segundo o Sindifern, esse mecanismo reduz drasticamente o risco de sonegação e melhora a eficiência da arrecadação.

Na prática, o Estado deixa de depender do pagamento voluntário realizado semanas depois da venda.

Justiça fiscal para quem trabalha corretamente

Outro efeito apontado pelos auditores fiscais envolve a proteção das empresas que atuam regularmente.

No modelo atual, um fornecedor pode ser obrigado a recolher imposto mesmo quando nunca recebeu o pagamento pela mercadoria vendida.

Ou seja, paga tributo sobre uma receita que jamais entrou no caixa da empresa.

Segundo o Sindifern, a Reforma Tributária corrige essa distorção ao aproximar o momento da arrecadação da efetiva circulação financeira da operação.

Dessa forma, reduz-se a incidência de tributação sobre receitas que não chegaram a ser realizadas, fortalecendo o caixa das empresas que atuam corretamente.

Exemplo mostra como funciona o novo sistema

Para demonstrar os efeitos práticos da Reforma Tributária, o Sindifern elaborou um exemplo exclusivo que compara o funcionamento da cadeia produtiva antes e depois das novas regras.

Imagine uma alíquota de20%.

Na primeira etapa, um fornecedor vende um insumo por R$ 1.000, gerando R$ 200 de imposto.

Depois, o comprador industrializa esse produto e realiza uma nova venda ao consumidor final por R$ 1.500, operação que gera R$ 300 de tributo.

Cenário 1: fornecedor recebe normalmente

Quando o pagamento acontece regularmente, o fornecedor recolhe os R$ 200 por meio do Split Payment.

Como houve recolhimento efetivo, o comprador passa a ter direito aos R$ 200 de crédito tributário.

Na venda seguinte, em vez de recolher os R$ 300 integrais, ele desconta o crédito obtido anteriormente e paga apenas R$ 100.

Ao final da cadeia, a arrecadação permanece exatamente igual:

Fornecedor: R$ 200
Comprador: R$ 100
Total arrecadado: R$ 300

Cenário muda completamente quando há inadimplência

A principal inovação aparece quando ocorre um calote. Se o comprador deixa de pagar o fornecedor, este não recebe os recursos e, consequentemente, não recolhe o imposto correspondente.

Como não houve pagamento do tributo, também não nasce o direito ao crédito. Quando esse mesmo comprador vende o produto ao consumidor final, ele terá um débito de R$ 300, mas não poderá descontar nenhum valor.

Assim, será obrigado a recolher integralmente os R$ 300.

O resultado é que a arrecadação pública permanece exatamente a mesma:

Fornecedor: R$ 0
Comprador: R$ 300
Total arrecadado: R$ 300

Segundo o Sindifern, esse mecanismo elimina uma das principais brechas existentes no sistema atual e reduz significativamente o espaço para fraudes fiscais.

Especialistas reforçam necessidade de adaptação imediata

Apesar de a transição para o novo sistema ocorrer ao longo dos próximos anos, especialistas alertam que o momento para começar a adaptação é agora.

A recomendação é que empresas revisem contratos, atualizem sistemas de gestão, capacitem equipes fiscais e contábeis, consultem especialistas e avaliem os impactos específicos do novo modelo sobre seu fluxo financeiro.

Mais do que uma alteração na forma de cobrar impostos, a Reforma Tributária representa uma mudança estrutural na maneira como empresas compram, vendem, registram operações e administram seu caixa.

Para empresários e gestores, a preparação antecipada deixou de ser uma vantagem competitiva e passou a ser uma necessidade para garantir segurança jurídica, eficiência operacional e sustentabilidade financeira durante a implantação do novo sistema tributário brasileiro.

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